À beira do controle

902 Words
NARRAÇÃO DE KAITO... A manhã começou intensa. Nos primeiros segundos, cheguei a jurar que, por um momento, Bela tivesse dado o primeiro passo em direção a algo que eu tanto queria. Ela segurou meu braço e me conduziu até uma sala vazia. Quando fechou a porta e ficou frente a frente comigo, meu coração tropeçou. Meus olhos foram direto aos seus lábios. Por um instante — talvez por imaginar tanto, por querer tanto — pensei que ela se aproximaria e me ofereceria seu beijo. E a razão era uma só: eu havia sonhado com ela na noite anterior. O sonho fora intenso, desconcertante. Bela estava com seu jeito impulsivo, frenético, aventureiro. No sonho, ela fez exatamente o que fazia naquele instante. A diferença era o lugar: não estávamos na escola, mas em sua mansão, mais especificamente no escritório de seu pai. Ela me puxava, ofegante, arrancava minha blusa, e nossos lábios se encontravam com a mesma intensidade do desejo que nos consumia. Beijávamo-nos com sede. O sonho parecia tão real que cada detalhe me arrancava da realidade: o sabor de sua língua, os estalos dos beijos, o som das respirações, o toque em sua nuca — a mesma nuca que eu desejara enquanto ela, distraída, observava o trabalho com a ponta do lápis entre os dentes. Por isso, tive motivos suficientes para acreditar que ela tornaria meu sonho real naquela sala vazia. Mas quão t**o fui. Bela era assim: frenética, mas sem más intenções. Mesmo quando essas intenções poderiam satisfazer meus desejos. Em vez disso, contou que seu pai me vira entrar na escola. Agora com outra aparência — casaco de couro, anéis, correntes, botinas. Ainda assim, ele não desconfiara. Ao menos, por enquanto, estava tudo bem. Bela respirou fundo, apertando a mochila com mais firmeza. — Precisamos descobrir logo, Kaito… Vou conversar com minha mãe hoje. Talvez ela saiba de alguma coisa. Ela foi amiga da sua mãe — disse. — Talvez tenha alguma informação. — Obrigado, Bela. Precisamos entender isso. Mas essa rixa entre nossos pais chega a ser ridícula… Um desentendimento da adolescência, por pisarem no pé um do outro. Infantil demais — reclamei. Ela riu. — Se a briga partiu do meu pai, ele vai ter que entender. Às vezes, ele só tem dificuldade de pedir desculpas. — Sorriu. — Se for esse o motivo, vou fazer meu pai se desculpar depois de todos esses anos. Segurei o riso. — Acho improvável. — Sou geniosa, Kaito. Ele vai ter que me escutar. Ela passou por mim, mas um impulso me fez segurar sua mão, impedindo-a de sair. Bela olhou para nossas mãos unidas, depois me encarou. Sua respiração estava trêmula; senti a tensão entre nós. — Será que seu pai deixará fazermos o trabalho a sós na biblioteca? — perguntei. — Gosto de ficar sozinho com você. Admirei seus olhos intensos; ela m*l piscava. — Ele já confia em você. Acho que será possível. Eu também gosto de ficar a sós com você, mas não aqui na escola. A experiência foi traumática, com boatos espalhados. Sorri, compreendendo, e soltei sua mão. Ela sorriu de lado e saiu da sala. Inspirei fundo. Eu estava perdendo o controle. O desejo em meu peito só crescia. Esperei alguns minutos antes de sair. No caminho para a sala, ouvi uma voz atrás de mim que me causou repulsa imediata. Billy. — Kaito, espera. Preciso falar com você. Virei-me contra a vontade, rangendo os dentes quando ele se aproximou. — Eu errei, reconheço. Mas me senti traído. Você foi o único que sabia o quanto eu queria conquistar a novata. Então você aparece como o bom moço, só de conversa, e atrapalha tudo. — Bela tem nome — respondi, aproximando-me a passos lentos. — E ela escolhe quem quer ao lado dela. E não quer você. Isso não te dá o direito de difamá-la. Como eu disse, não quero mais que se aproxime de mim. Eu já ia voltar para a sala quando ele me chamou de novo. — Está se sentindo demais, Kaito. Acha que está no controle por causa de uma garota que acabou de chegar. Jogou fora uma amizade de anos. Não quer mais ser meu amigo? Ótimo. Mas saiba que sou pior ainda como inimigo. Olhei em seus olhos e ri — um riso amargo. — Isso é uma ameaça? — Não. Apenas um aviso. Ele passou por mim. Controlei a raiva e entrei na sala em silêncio. De longe, observei Bela sentada no fundo, sozinha. Bastou nossos olhares se encontrarem para que ela sorrisse — e toda a minha raiva evaporou. Mudei de lugar. Passei direto pelo meu antigo canto. Meus amigos ficaram confusos ao me chamarem, mas pedi tempo. Sentei-me ao lado dela. Bela corou e riu ao perceber os olhares da turma, talvez nos vendo como um suposto novo casal. Inclinei-me o suficiente para sussurrar próximo ao seu rosto: — Estou cumprindo a promessa que fiz ao seu pai. Vou cuidar de você. Não ficará sozinha nessa escola. Bela mordeu o lábio discretamente e baixou o olhar para o caderno, esfregando a caneta entre os dedos. — Estou amando isso… — disse, quase num sussurro. Meu corpo se arrepiou. O coração disparou. Nunca estive tão ansioso para ficar a sós com ela na biblioteca de sua mansão. Aqueles corredores seriam as únicas testemunhas do que eu estava disposto a fazer. Eu só queria beijar sua boca.
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