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De Volta a 2008

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Blurb

E se você tivesse a chance de reescrever o pior dia da sua vida?

Aos 31 anos, a vida de Beatriz é um acumulado de boletos atrasados e arrependimentos. Mas, após um acidente fatal em 2025, ela abre os olhos e se vê de volta ao seu quarto de adolescente, no ano de 2008. Ela tem 14 anos de novo, o MSN está bombando, e a tragédia que destruiu sua família ainda não aconteceu.

Determinada a salvar seu pai da falência e sua irmã de um acidente terrível, Bia decide hackear o destino. O que ela não esperava era reencontrar Léo, seu primeiro amor, e descobrir que ele é a única constante em um universo que está desmoronando.

Mas brincar com o tempo tem um preço. Quando uma entidade sombria chamada "O Executor" começa a caçá-los através das décadas — de 1500 a 2060 —, Bia e Léo descobrem que seu amor é uma falha no sistema. Entre perseguições digitais, vilões que vestem o rosto de quem eles amam e um Game Boy capaz de salvar almas, eles terão que fazer a escolha final: viver em uma utopia perfeita e falsa, ou lutar por uma realidade imperfeita ao lado de quem se ama.

Três horas ou a eternidade. Qual você escolheria?

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Capítulo 1: O Homem Que Eu Culpei
Aos quarenta e três anos, minha vida cabia numa mochila térmica, num balde de faxina e num notebook com a tecla do A gasta, e naquela sexta-feira de novembro eu tinha usado os três antes das seis da tarde. De manhã entreguei cafés de bicicleta para executivos da Faria Lima que nunca levantavam os olhos do celular, à tarde limpei os banheiros de uma startup onde garotos de vinte e cinco anos discutiam o futuro da inteligência artificial com os pés em cima da mesa, e à noite, porque o aluguel da quitinete na Bela Vista vencia na segunda, aceitei um bico de garçonete numa gala de hotel cinco estrelas. Na entrega das nove e meia, um rapaz de camisa slim e crachá pendurado no pescoço abriu a tampa do copo ali mesmo, na catraca do prédio espelhado, e cheirou o café como quem cheira leite vencido. — Moça, isso aqui é caramelo ou xarope de tosse? Eu pedi sem açúcar, tá escrito ali no app, ó. Ele virou o celular para mim, e eu fiquei olhando a tela rachada no canto enquanto o vento da Faria Lima entrava pela porta giratória e gelava o suor das minhas costas debaixo da mochila térmica. — É o que veio da cafeteria, moço... se quiser eu abro uma reclamação pra você, mas aí demora uns três dias pra estornar. — Três dias? — Ele bufou, já de costas, já digitando. — Vou te dar uma estrela, tá? Nada pessoal. Nada pessoal. Eu pedalei de volta pela ciclovia com aquela estrela pesando mais do que a mochila, porque com mais duas avaliações ruins o aplicativo me bloqueava, e bloqueado ninguém paga aluguel. O sapato preto que a agência me emprestou era meio número menor e tinha o salto esquerdo descolando, e cada passo pelo salão do Hotel Imperatriz me lembrava que o joelho direito já não era o mesmo desde 2019. Equilibrei a bandeja de taças, ajeitei o coque que escondia os fios brancos que eu não tinha dinheiro para pintar e fiz o que aprendi a fazer de melhor nos últimos dezessete anos: fiquei invisível. Ninguém olha para a mulher de colete que serve o champanhe, e era assim que eu preferia. Foi a faixa dourada em cima do palco que me fez parar no meio do salão. g***o DAMASCENO, 30 ANOS. As letras eram grandes o bastante para serem lidas da rua, e o meu estômago fez aquele movimento antigo de quem desce uma escada no escuro e encontra um degrau a menos. Eu tinha aceitado o trabalho sem perguntar o nome do cliente, porque quem precisa de trezentos reais não pergunta nada, e agora estava ali, de salto descolado, servindo a festa do homem que comprou a empresa do meu pai por uma ninharia em outubro de 2008. O Edinho, um garçom de uns vinte anos com aparelho nos dentes e o cabelo cheio de gel, parou do meu lado com a bandeja de canapés e seguiu o meu olhar até a faixa. — Coisa, né? Trinta anos de empresa. — Ele enfiou um canapé de salmão inteiro na boca, de costas para o salão. — Disseram lá na cozinha que o velho é bilionário e nunca casou. Tu acredita? Com aquela cara? — Acredito em tudo, Edinho. — Tá branca, mulher. Que foi, a pressão? — Ele me cutucou com o cotovelo, rindo. — Quer que eu pegue um sal lá atrás? — Não... não precisa, sério. É o sapato. Ele olhou para o meu pé, para o salto descolando, e fez uma careta de dó antes de sumir no meio dos convidados com os canapés, assobiando baixinho uma música que eu não reconhecia. Eu o vi antes que ele me visse. Leonardo Damasceno tinha cinquenta anos e o tipo de cabelo grisalho que fica caro, penteado para trás, com um terno cinza-chumbo sem gravata e uma taça que ele segurava sem beber. Estava cercado de gente que ria alto demais das coisas que ele dizia, e mesmo assim parecia sozinho, com aquele jeito de quem escuta tudo e não deixa ninguém entrar. Eu conhecia aquele rosto das revistas de economia que eu folheava na fila do Poupatempo, sempre com a mesma raiva e a mesma pergunta que nunca teve resposta. Meu pai morreu de infarto em agosto de 2009, dez meses depois de assinar a venda da Vasconcelos Têxtil, sentado na poltrona da sala com o jornal aberto na página de economia, onde havia uma foto daquele homem sorrindo. Minha irmã Laura parou de falar comigo em 2015, depois de uma briga sobre quem tinha culpa de quê. A Carla, minha melhor amiga desde a sexta série, nunca mais atendeu minhas ligações depois do que o Tiago me contou sobre ela. A Rosângela morreu em 2012, de um câncer que um exame de quarenta reais teria encontrado a tempo. E eu passei os anos seguintes contando as perdas como quem conta moedas no fundo da bolsa, sempre chegando à mesma soma e ao mesmo nome. — Mesa sete, Beatriz. — A supervisora, uma moça de r**o de cavalo apertado e prancheta no peito, já me empurrava pelas costas. — O doutor Damasceno pediu champanhe novo. Vai logo, que é o anfitrião. — Ah, não... manda outra pessoa, vai? Eu fico com a mesa do fundo, sério, pra mim tanto faz. Ela nem levantou os olhos da prancheta. — Não tem outra pessoa, Beatriz. Vai. Atravessei o salão sentindo cada taça tilintar contra a outra na bandeja, porque minha mão não parava quieta, e por um segundo pensei em dar meia-volta, sair pela porta da cozinha e abrir mão dos trezentos reais. Não fiz isso. Cheguei à mesa sete, servi o primeiro convidado, a mulher de vestido verde ao lado dele, e então parei na frente do homem que eu culpava por tudo, a garrafa inclinada sobre a taça dele, o gargalo tremendo. Ele ergueu os olhos para mim. Eram mais escuros do que nas fotos, um castanho quase preto, e ficaram em mim tempo demais. Eu esperava a indiferença educada com que os homens daquele salão olhavam para os garçons, a mesma com que se olha para um cabide, e em vez disso vi o rosto dele perder a cor de uma vez, como se alguém tivesse aberto uma janela num dia frio. A mão que segurava a taça vazia ficou parada no ar. O champanhe transbordou. Escorreu pela taça, pela mão dele, pela manga do terno cinza, e eu continuei inclinando a garrafa por mais um segundo inteiro, de propósito, olhando para ele, porque dezessete anos de raiva precisavam sair por algum buraco e encontraram aquele. A mulher de vestido verde soltou um gritinho. Um segurança de terno preto deu dois passos na minha direção. A supervisora apareceu do nada com o rosto vermelho. Leonardo Damasceno levantou a mão, e o segurança parou onde estava. — Deixa. — Ele não tirou os olhos de mim. — Foi um acidente. — Não foi, não. — A minha voz falhou bem no meio. A mesa inteira ficou em silêncio. Ele afastou a cadeira, ficou de pé e, antes que eu desse um passo para trás, segurou meu pulso. Não apertou. Os dedos dele, ainda molhados de champanhe, ficaram em volta do osso do meu pulso com uma delicadeza que me deixou mais assustada do que se ele tivesse gritado, e o polegar dele parou exatamente em cima da veia, onde ele com certeza sentiu o quanto meu coração estava acelerado. Ele chegou um pouco mais perto e baixou a voz, só para mim. — Beatriz Vasconcelos. Ninguém me chamava pelo nome inteiro havia anos, e nenhum crachá, nenhum cadastro de agência, nenhum aplicativo de entrega sabia que eu era a filha do Roberto da Vasconcelos Têxtil. No colete, o crachá dizia só BEATRIZ, em letra de forma. — Como é que... como você sabe o meu nome? Ele demorou para responder. Olhou para o meu rosto devagar, como quem confere uma foto antiga contra a pessoa de verdade. — Eu procurei você por dezessete anos, Bia.

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