Quando o Coração Acorda

604 Words
A adolescência chegou como a primeira chuva depois de uma longa seca: inesperada, intensa e cheia de promessas. Em Cedro do Abaeté, os dias ainda eram simples, mas os corações dos seis amigos batiam com novas inquietações. Gisele agora tinha cabelos mais longos, que ela prendia com uma fita azul. Os seus olhos castanhos, antes curiosos e infantis, agora carregavam uma profundidade que chamava atenção. Lucas, por sua vez, havia crescido rápido. Estava mais alto, com os traços do rosto começando a se definir. O sorriso continuava o mesmo aberto, sincero. Mas agora fazia o coração de Gisele bater diferente. Leonor era a mais vaidosa do grupo. Sempre com um batom escondido na mochila e um espelho de bolso, dizia que queria ser atriz ou escritora de novelas. Cassio, seu par constante nas brincadeiras, fingia não ligar, mas vivia elogiando os “olhos de jabuticaba” da amiga. Iva, com seu jeito prático e direto, era a conselheira do grupo e dizia que ela queria ser mãe de gêmeos. Já Junior, agora com um violão nas costas, sonhava em ser cantor e vivia compondo músicas que ninguém entendia, mas todos adoravam ouvir. Na pracinha da cidade, onde costumavam se reunir depois da escola, os assuntos mudaram. Já não falavam só de desenhos ou brincadeiras. Agora falavam de sonhos, de dúvidas, de beijos roubados e de futuros possíveis. — Vocês já pensaram em como vai ser daqui a uns anos? — Perguntou Leonor, mexendo no cabelo com um ar sonhador. — Tipo… com quem a gente vai casar? — Casar? — Riu Junior. — Eu m*l sei o que vou comer amanhã! E como vou ser um cantor famoso, vou ter um monte de namoradas. — Eu vou casar com alguém que toque violão. — Disse Iva, provocando. — Mas que toque direito, viu? — Ihhh, sobrou pra mim — Respondeu Junior, fazendo um acorde desafinado só pra irritar. Cassio olhou para Leonor com um sorriso tímido. — Eu acho que vou casar com alguém que tenha olhos de jabuticaba… Leonor corou, mas fingiu não entender. Gisele estava mais quieta naquele dia. Sentada ao lado de Lucas, observava o céu mudar de cor. O silêncio entre os dois era confortável, mas cheio de tensão. — Tá tudo bem? — Perguntou Lucas, inclinando-se um pouco. — Tá sim — Respondeu ela, com um sorriso leve. — Só pensando. — Pensando no quê? Ela hesitou, depois falou: — Em como tudo tá mudando. A gente… a gente tá crescendo. Lucas olhou para ela com atenção. Os olhos de Gisele tinham uma luz diferente, uma mistura de força e delicadeza que ele não sabia explicar. — Você tá diferente. — Disse ele, sem pensar muito. — Mais bonita. Gisele sentiu o coração acelerar. Olhou para ele, surpresa. — Você acha? — Acho e sei. — Respondeu ele, com firmeza. — E não é só por fora. Você sempre foi especial. Ela sorriu, tentando disfarçar o rubor nas bochechas. — E você… continua péssimo de mira. — Brincou, lembrando da bolada anos atrás. Lucas riu alto. — Mas acertei o coração certo, né? Gisele não respondeu. Apenas olhou para ele com um brilho nos olhos que dizia tudo. A muitos anos ele tinha o coração dela. Naquele fim de tarde, entre risos, provocações e confissões tímidas, algo mudou. O que antes era só amizade agora ganhava contornos de amor. Um amor jovem, puro, cheio de dúvidas, mas verdadeiro. E Cedro do Abaeté, com seu céu cor de laranja e cheiro de terra molhada, foi testemunha silenciosa do primeiro capítulo de um sentimento que marcaria as suas vidas para sempre.
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