Promessas de um Amanhã

1397 Words
O verão em Cedro do Abaeté trazia consigo tardes longas, céu limpo e o cheiro doce das jabuticabeiras maduras. Era época de férias, e os seis amigos passavam quase todos os dias juntos, entre a praça, o rio e os quintais das casas. Naquela tarde, estavam reunidos no sítio da família de Junior, sentados em roda sob a sombra de uma mangueira. O violão passava de mão em mão, mas era Lucas quem dedilhava uma melodia suave, enquanto Gisele o observava em silêncio. — Já pensaram no que querem ser quando crescer? — Perguntou Iva, deitada na grama, olhando o céu. — Eu quero ser farmacêutica. — Disse Gisele, com firmeza. — Igual à tia Marlene. Quero ajudar as pessoas. — Eu quero ser atriz ou escritora de novela. — Disse Leonor, com os olhos brilhando. — Daquelas que fazem novela das oito! — E eu vou ser jogador de futebol. — Disse Cassio, chutando uma pedra imaginária. — Ou dono de uma padaria. Ainda tô decidindo. — Eu quero cantar. — disse Junior, abraçando o violão. — Mesmo que seja só pras galinhas do sítio. — E você, Lucas? — perguntou Gisele, curiosa. Ele parou de tocar e olhou para ela. — Eu não sei ainda. Mas… seja o que for, quero que você esteja comigo. O silêncio que se seguiu foi cheio de significado. Gisele sentiu o coração acelerar, e os olhos de Leonor e Iva se arregalaram com sorrisos contidos. — Isso foi um pedido de casamento, Lucas? — Provocou Junior, rindo. — Talvez... — Respondeu ele, sem desviar o olhar de Gisele. — Quem sabe, quando a gente fizer dezoito… Gisele sorriu, tímida, mas com o coração em festa. — Eu aceito! — Disse baixinho, como se fosse um segredo só deles. Leonor bateu palmas, Cassio assobiou, e Iva fingiu jogar arroz. — Já temos até os padrinhos! — Disse Leonor. — Eu e Cassio, Iva e Junior. Tá tudo certo! — Só falta o bolo. — Completou Cassio, rindo. Aquela tarde ficou marcada como um pacto silencioso entre eles. Um pacto de amizade, de amor e de sonhos compartilhados. Nenhum deles sabia o que o destino preparava, mas ali, sob a mangueira, tudo parecia possível. E enquanto o sol se punha atrás das montanhas, Lucas e Gisele trocaram um olhar que dizia mais do que mil palavras: um dia, eles seriam um só. Naquela noite, o céu de Cedro do Abaeté estava bordado de estrelas. Gisele e Lucas haviam ficado um pouco mais no sítio, depois que os outros amigos foram embora. Sentados na varanda, com os pés balançando no ar e o som distante dos grilos, o silêncio entre eles era confortável, mas carregado de expectativa. — Você acredita que as estrelas têm nome? — Perguntou Gisele, olhando para o alto. — Acho que sim. E se não tiverem, a gente pode dar. — Respondeu Lucas, sorrindo. — Aquela ali… — Disse ela, apontando. — Vai se chamar “Esperança”. — E aquela ali... — Disse ele, apontando outra — “Gisele”. Ela riu, surpresa. — Por quê? — Porque brilha mais que todas. E ela sempre vai me guiar para casa. Gisele sentiu o coração disparar. O ar parecia mais leve, e o tempo, mais lento. — Lucas… — Ela começou, mas não sabia como continuar. Ele se virou para ela, com os olhos fixos nos dela. — Eu gosto de você. Desde sempre. Mas agora é diferente. É mais forte. É mais bonito. Gisele não respondeu com palavras. Apenas se aproximou, devagar, como quem tem medo de quebrar um encanto. Lucas fez o mesmo. E ali, sob o céu mineiro cheio de estrelas, com o cheiro de terra e o som da noite como testemunhas, os dois se beijaram pela primeira vez. Foi um beijo tímido, doce, cheio de promessas. Um beijo que selava tudo o que sentiam, tudo o que sonhavam. E naquele instante, o mundo inteiro parecia caber entre os lábios deles. Quando se afastaram, Gisele sorriu. — Acho que essa estrela vai se chamar “Nós”. Lucas segurou sua mão. — E que nunca pare de brilhar. A Festa de 18 Anos de Gisele... A noite caiu sobre Cedro do Abaeté com um brilho especial. A pracinha da cidade estava decorada com luzes coloridas, bandeirolas e flores do campo. A festa de 18 anos de Gisele era mais do que uma comemoração era um símbolo de superação, de amor e de esperança. Toda a cidade parecia ter se mobilizado. Dona Lurdes fez os doces, Seu Joaquim emprestou as mesas, e os amigos ajudaram a montar cada detalhe. Gisele chegou vestida com um vestido azul claro, simples, mas encantador. Os cabelos soltos dançavam com o vento, e o sorriso no rosto iluminava mais que as luzes penduradas. — Você tá linda, Gisele. — Disse Leonor, segurando as suas mãos. — Parece até estrela de novela. — É a estrela da noite. — Completou Iva, com um abraço apertado. Cassio e Junior ajustavam o som, enquanto Lucas observava Gisele de longe, com o coração acelerado. Quando ela se aproximou, ele estendeu a mão. — Posso ter essa dança? Ela sorriu. — Pode ter todas. A música começou suave, e os dois dançaram sob o céu estrelado, cercados pelos amigos e pelo carinho da cidade. Era como se o tempo tivesse parado só para eles. — Você lembra daquela promessa? — Perguntou Lucas, com os olhos fixos nos dela. — Qual delas? — A de casar comigo quando fizéssemos dezoito. Gisele riu, emocionada. — Eu lembro. E continuo dizendo sim. Lucas tirou do bolso uma pequena caixinha de madeira. Dentro, havia um anel simples, feito por ele com ajuda do pai. Nada de ouro, nada de diamantes apenas um símbolo do que sentia. — Não é um pedido oficial… ainda. Mas é o começo. Posso colocar? Gisele assentiu, com os olhos marejados. Lucas deslizou o anel no seu dedo, e os aplausos explodiram ao redor. — Viva Gisele! — Gritou Junior. — Viva o amor! — Completou Leonor. Naquela noite, entre risos, danças e abraços, Gisele sentiu que tudo valia a pena. A dor do passado, as batalhas vencidas, os sonhos guardados udo a havia levado até ali. E ali, com Lucas ao seu lado e os amigos por perto, ela sabia: o futuro estava apenas começando. A Primeira Noite... A festa de aniversário havia terminado, mas a magia daquela noite ainda pairava no ar. Gisele caminhava ao lado de Lucas pela estrada que levava ao mirante da cidade, um lugar onde costumavam ir desde crianças, mas que agora parecia diferente. Mais íntimo. Mais deles. O céu estava limpo, salpicado de estrelas, e a brisa morna acariciava os rostos. Sentaram-se sobre uma manta que Lucas havia trazido, cercados pelo silêncio da noite e pelo som distante das cigarras. — Você lembra da primeira vez que a gente veio aqui? — Perguntou Gisele, encostando a cabeça no ombro dele. — Lembro. Você trouxe um caderno e me fez escrever os nossos nomes dentro de um coração. — E você desenhou um foguete em volta. — Disse ela, rindo. — Porque eu sabia que um dia a gente ia voar. O silêncio que se seguiu foi cheio de ternura. Lucas virou o rosto e olhou nos olhos de Gisele. Havia ali uma mistura de carinho, desejo e respeito. Um amor que cresceu com raízes profundas. — Eu te amo, Gisele. — Disse ele, com a voz baixa, mas firme. — E quero que essa noite seja nossa. Sem pressa. Sem medo. Ela assentiu, com os olhos marejados. Tocou o rosto dele com delicadeza, como quem toca um sonho. E ali, sob o céu de Cedro do Abaeté, os dois se entregaram ao amor pela primeira vez. Foi uma noite de descobertas, de sorrisos tímidos e abraços demorados. Uma noite em que os corpos se encontraram com respeito e afeto, e os corações se prometeram sem palavras. Quando o sol começou a nascer, tingindo o horizonte de dourado, Gisele estava deitada ao lado de Lucas, com a cabeça sobre o peito dele, ouvindo o som tranquilo da sua respiração. — A gente voou. — Disse ela, sorrindo. — E vamos continuar voando. — Respondeu ele, apertando a sua mão. Naquele instante, tudo parecia eterno. Mas o destino, silencioso, já começava a desenhar os ventos que viriam.
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