O sol nasceu tímido sobre Cedro do Abaeté, como se respeitasse a delicadeza daquele dia. A praça central estava em festa: flores pendiam das árvores, fitas coloridas dançavam com o vento, e os bancos haviam sido cobertos com tecidos brancos e rústicos, bordados à mão pelas mulheres da comunidade.
Gisele chegou cedo, acompanhada por Leonor, Iva e Dona Neide. O camarim improvisado havia sido montado dentro da antiga biblioteca da praça, com espelhos emprestados, luzes suaves e o perfume de lavanda no ar.
— Tá tudo tão lindo. — Disse Iva, ajeitando os arranjos de cabelo.
— Parece cena de filme. — Completou Leonor, emocionada.
Gisele sorriu, sentada diante do espelho. Vestia um vestido branco de renda delicada, com mangas leves e uma saia fluida que tocava o chão como brisa. Os cabelos castanhos estavam soltos em ondas suaves, caindo sobre os ombros com naturalidade. Um pequeno arranjo de flores do campo adornava a sua cabeça.
— Ele disse que chegaria durante a madrugada. — Comentou Gisele, com um brilho nos olhos. — Deve estar descansando agora. A viagem é longa.
Dona Neide se aproximou e segurou sua mão.
— Meu filho é um homem de palavra. E hoje… ele vai cumprir a mais bonita de todas.
Gisele olhou para o espelho e sorriu. Não era só a imagem que a emocionava era o caminho até ali. As lágrimas, as dúvidas, os silêncios. Tudo havia sido superado. E agora, ela estava pronta.
— Eu tô feliz. — Disse ela, com a voz firme. — E tô em paz. Porque hoje é o dia que a gente sonhou. E nada vai estragar isso.
Lá fora, os amigos chegavam aos poucos. Junior testava o microfone, Cassio organizava os bancos, e até o padre da cidade ajudava a ajustar os detalhes do altar improvisado sob a árvore mais antiga da praça.
— Tá tudo pronto. — Disse Leonor, espiando pela janela. — Só falta ele.
Gisele se levantou, respirou fundo e olhou para o céu.
— Ele vai chegar. Eu sinto.
E ali, diante do espelho, com o coração cheio de amor e esperança, Gisele se preparava para viver o momento mais importante da sua vida acreditando, com toda a força, que Lucas Bueno viria cumprir a sua promessa.
O relógio marcava 10h da manhã. O sol brilhava alto sobre Cedro do Abaeté, e a praça estava tomada por flores, sorrisos e expectativa. Dentro do camarim improvisado, Gisele estava radiante. As amigas riam, brindavam com champanhe e ajustavam os últimos detalhes do vestido da noiva.
— Você tá uma princesa, Gi. — Disse Leonor, emocionada.
— Uma deusa! — Completou Iva, girando com a taça na mão.
Gisele sorria diante do espelho, os olhos brilhando, o coração cheio de esperança.
— Ele disse que chegaria de madrugada. Deve estar descansando. Mas daqui a pouco… ele entra por aquele portão.
Nesse instante, a porta do camarim se abriu com força. Cassio, entrou apressado e chamou Iva num canto.
— Preciso falar com você. Agora.
Iva se aproximou, e Cassio cochichou algo em seu ouvido. O sorriso dela desapareceu. Os olhos se arregalaram. Ela olhou para Gisele, depois para Leonor, sem saber o que dizer.
Antes que pudesse falar, Dona Neide entrou. Os olhos vermelhos, a expressão devastada.
— Gisele… — Disse ela, com a voz embargada. — Eu… eu tenho que te contar uma coisa, terrível filha.
Gisele se levantou, confusa.
— O que foi?
Dona Neide segurou a mão dela com força.
— O Lucas… ele não vem.
— Como assim?
— Ele… ele viajou. Foi pra Milão. Assinou com uma marca internacional. Partiu ontem à noite, filha minha.
Gisele recuou, como se tivesse levado um golpe.
— Não. Ele prometeu. Ele disse que voltaria. Que hoje era o nosso dia.
— Ele deixou uma mensagem de áudio. Pediu pra eu te entregar. Disse que não tinha coragem de falar pessoalmente.
Dona Neide entregou o celular, com a mensagem já aberta. Gisele, com mãos trêmulas, colocou o aparelho no ouvido.
A voz de Lucas soou baixa, quebrada.
“Gi… me perdoa. Eu fui covarde. Eu devia estar aí, mas escolhi fugir. Eu desejei o mundo, e você, mas descobri que não posso ter os dois… você não cabe nesse mundo que eu criei seria injusto forçar você a viver no meu mundo. Os nossos sonhos mudaram. E eu não sou mais o homem que um dia prometeu te fazer feliz. Mas eu desejo que você seja feliz. Com todo o meu coração e encontre alguem que mereça as suas estrelas. Adeus.”
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. As Amigas Pararam. A praça, lá fora, seguia em festa sem saber que o noivo não viria.
Gisele deixou o celular cair no chão. As lágrimas vieram como tempestade. Ela se ajoelhou diante do espelho, ainda vestida de noiva, como se o reflexo fosse de outra pessoa.
— Ele me deixou. — Sussurrou, olhando para a imagem que refletia. — No dia do nosso casamento.
Leonor e Iva correram para abraçá-la, mas nada podia conter a dor.
Dona Neide chorava em silêncio, sentindo o peso da culpa e da ausência.
E ali, naquele camarim cheio de flores e promessas, Gisele viveu o dia que não veio o dia em que o amor virou ausência, e o altar virou lembrança.