O sol se punha sobre Cedro do Abaeté, tingindo o céu de laranja e dourado. Lucas e Gisele estavam sentados na varanda da casa dela, com os pés descalços e os corações entrelaçados. A brisa morna balançava os cabelos de Gisele, que ria enquanto folheava um caderno com anotações do casamento.
— Olha isso. — Disse ela, mostrando uma página rabiscada. — Junior quer cantar na cerimônia. Mas só se for uma música que ele mesmo compôs.
— Isso pode ser perigoso. — Brincou Lucas. — Já pensou ele inventa uma letra sobre futebol e churrasco?
— Eu confio nele. E vai ser divertido. A gente quer uma cerimônia com a nossa cara, lembra?
Lucas assentiu, sorrindo.
— E a nossa cara é feita de amigos, risadas e amor.
Ela se encostou no ombro dele.
— Vai ser lindo. A praça toda decorada, as luzes penduradas nas árvores, os guardanapos bordados pela Dona Lurdes…
— E você entrando com aquele vestido que eu ainda não vi. — Disse ele, apertando a mão dela. — Mas que eu já sei que vai me fazer chorar.
Gisele sorriu, emocionada.
— E você, com aquele terno que a Margarete vai odiar. Porque vai ser simples. Porque vai ser nosso.
Lucas ficou em silêncio por um instante, depois respirou fundo.
— Gi… amanhã eu preciso voltar pra capital. Tenho que cumprir os últimos contratos da campanha. São só alguns dias. Mas eu prometo… volto antes do casamento. Sem falta.
Ela olhou nos olhos dele, firme.
— Quinze dias, Lucas. Nem um a mais.
— Quinze dias. E eu volto pra te buscar. Pra te chamar de minha esposa.
— E eu vou estar aqui. Com tudo pronto. Com o coração aberto.
— E com o buquê mais bonito da cidade. — Disse ele, rindo.
— E com o amor mais verdadeiro do mundo. — Completou ela.
Eles se abraçaram sob o céu estrelado, como quem sela um pacto com o universo. Era uma despedida breve, mas cheia de promessas. E ali, entre planos e sorrisos, Lucas e Gisele acreditavam que nada poderia impedir o que estava por vir.
Porque o amor deles já havia vencido a distância, a dúvida e o tempo. E agora, só faltava vencer os últimos quinze dias.
Era o último dia de compromissos em São Paulo. Lucas havia cumprido todos os contratos, feito as últimas fotos, gravado os vídeos promocionais. A mala já estava pronta, e o coração batia acelerado com a expectativa de voltar para Cedro do Abaeté, para Gisele, para o casamento, para o recomeço.
Antes de partir, decidiu passar no escritório de Paulo para agradecer. Subiu os três lances de escada com leveza, como quem carrega esperança.
— Lucas! — Disse Paulo, ao vê-lo entrar. — Justo agora. Margarete tá aqui. E… Camille também.
Lucas parou na porta. A modelo francesa, Camille, estava sentada no sofá, com os olhos fixos nele. Margarete, ao lado, com um sorriso tenso.
— Oi, Lucas. — Disse Camille, com a voz baixa e carregada no sotaque. — Precisamos conversar.
Ele sentiu o estômago revirar.
— Sobre o quê?
Camille se levantou, caminhou até ele com passos lentos.
— Eu estou grávida.
O mundo parou.
Lucas sentiu o chão sumir, o ar desaparecer, o coração disparar como se quisesse fugir do peito.
— O quê?
— Eu fiz o teste. Depois confirmei com exames. É seu.
Margarete cruzou os braços, impassível.
— Isso muda tudo, Lucas. E você precisa lidar com isso antes de correr pro altar, não pode deixar um filho desamparado.
— Não… não pode ser. — Lucas recuou, encostando-se na parede. — Isso… isso não tava nos planos. Eu… eu ia casar. Eu ia voltar pra ela.
Camille parecia sincera, mas firme.
— Eu não quero destruir nada. Mas eu não posso fingir que isso não existe, e não vou criar esse bebê sozinha, se você não assumir eu aborto.
Lucas passou as mãos no rosto, sentindo o peso da culpa esmagá-lo.
— Eu fui fraco. Eu fui um i****a. Eu traí a mulher que mais me amou. E agora… agora eu sou um traidor, e estou sendo castigado.
Paulo tentou intervir.
— Calma, Lucas. Vamos pensar com calma. Isso é sério, mas você não está sozinho.
— Eu tô sozinho, sim. — Disse ele, com os olhos marejados. — Porque quando eu olhar nos olhos dela… eu não vou ver amor. Vou ver somente a dor. Que eu mesmo causei.
Margarete se aproximou, fria.
— Você tem uma escolha. Pode enfrentar isso com maturidade. Ou pode fugir e perder tudo. Porem Lucas, você ainda não se casou, a sua namoradinha pode seguir a vida dela, fazer faculdade namorar de novo. E você assume seu filho e continua aqui, crescendo como tem que ser.
Lucas olhou para Camille, depois para Paulo, e saiu do escritório sem dizer mais nada.
Na rua, o barulho da cidade parecia distante. Ele caminhou sem rumo, com a mala esquecida no hotel, com o coração em pedaços.
E ali, entre carros, luzes e concreto, Lucas entendeu que o caminho de volta para casa seria mais difícil do que ele jamais imaginou.