O avião pousou em São Paulo com o céu limpo e o coração de Lucas em turbulência. A campanha em Paris havia terminado com sucesso: contratos assinados, fotos espalhadas pelo mundo, elogios da imprensa. Mas nada disso preenchia o vazio que crescia dentro dele.
Com alguns dias de folga antes do próximo trabalho, Lucas tomou uma decisão sem pensar duas vezes: voltar para Cedro do Abaeté.
O ônibus cortava as estradas mineiras como uma flecha voltando ao arco. A cada quilômetro, o coração de Lucas batia mais forte. Quando desceu na rodoviária da cidade, o cheiro de terra molhada e o som dos pássaros o envolveram como um abraço antigo.
O seu Ademar e Dona Neide estavam lá, esperando com olhos marejados.
— Meu filho! — Disse Dona Neide, apertando-o contra o peito. — Você tá mais magro… mas tá bonito demais.
— Tô com saudade de comida de verdade, mãe. — Brincou Lucas, abraçando o pai com força. — Como você tá, pai?
— Melhor. Graças a você. A cirurgia foi um sucesso. E agora, só repouso e fé.
Lucas sorriu, emocionado.
— Eu faria tudo de novo. Tudo.
Naquela tarde, Lucas caminhou pela cidade como quem reencontra partes de si. Passou pela praça, pelo campo de futebol, pela farmácia. Cada lugar tinha uma lembrança. Cada rosto, uma saudade.
Os amigos o receberam com festa improvisada no quintal de Junior.
— Olha quem voltou! — Gritou Leonor, correndo para abraçá-lo.
— O galã internacional! — Brincou Cassio, com um copo de refrigerante na mão.
— E aí, tá famoso demais pra gente? — Provocou Iva.
— Nunca. Vocês são meu chão. — Disse Lucas, sorrindo.
Mas havia um reencontro que doía mais que todos: Gisele.
Ela estava na farmácia, organizando os remédios, quando Lucas entrou. O sino da porta soou como um alerta.
Ela olhou para ele, surpresa, sem saber se sorria ou chorava.
— Oi! — Disse ele, com a voz baixa.
— Oi. — Respondeu ela, sem se mover.
— Posso falar com você?
Ela assentiu, e os dois saíram para a praça, onde tudo havia começado.
— Eu pensei em você todos os dias. — Disse Lucas, sentando-se ao lado dela.
— Eu também. Mas pensar não cura ferida.
— Eu sei que te magoei. Sei que falhei. Mas eu tô aqui. Porque ainda acredito em nós.
Gisele olhou para ele, com os olhos firmes.
— Você não me contou tudo. E eu senti. Mas mesmo assim… eu esperei. Porque o amor que eu sinto não é pequeno.
— Eu não sou mais o mesmo, Gi. Mas tudo que importa ainda tá aqui. — Disse ele, tocando o próprio peito. — Você, e a minha casa, o meu amor, a minha vida.
Ela respirou fundo.
— Então me prova. Não com palavras. Com presença. Com verdade.
Lucas segurou a sua mão.
— Me deixa voltar. Não pra Cedro. Pra você.
Ela hesitou, depois apertou a mão dele.
— Um passo de cada vez.
E ali, sob o céu de Cedro do Abaeté, o amor deles começou a se reconstruir não como antes, mas como dois corações que aprenderam que até as estrelas precisam de raízes.
A noite caiu sobre Cedro do Abaeté com um silêncio acolhedor. As estrelas brilhavam como testemunhas silenciosas, e a brisa morna trazia o perfume das flores do campo. Lucas caminhava ao lado de Gisele pela estrada que levava ao mirante o mesmo lugar onde, meses antes, haviam prometido amor eterno.
Nenhum dos dois falava. As mãos se tocavam com delicadeza, como se redescobrissem o caminho de volta um ao outro.
Ao chegarem ao topo, Gisele se sentou sobre a manta que Lucas havia trazido. Ele se acomodou ao lado, olhando para o céu.
— Você lembra da última vez que estivemos aqui? — Perguntou ele.
— Lembro. Foi antes de tudo mudar.
— E agora… tudo pode mudar de novo. Mas só se você quiser.
Gisele olhou para ele com olhos marejados.
— Eu esperei por você. Mesmo quando tudo dizia que eu devia desistir.
— Eu nunca deixei de te amar. Nem por um segundo.
Ela se aproximou, tocando o rosto dele com ternura.
— Então me mostra. Me mostra que ainda somos nós.
Lucas a envolveu num abraço demorado, como quem segura o tempo. Os lábios se encontraram com urgência e carinho, e ali, sob o céu de Cedro, os dois se entregaram à paixão e à saudade acumulada, ao amor.
Foi uma noite de reencontro, de pele e alma. Os corpos se buscaram com respeito e desejo, como se quisessem apagar a distância com cada toque. As palavras foram poucas, mas os olhares diziam tudo: ainda havia amor. Ainda havia nós.
Depois, deitados sob o céu estrelado, Gisele repousava a cabeça sobre o peito de Lucas, ouvindo o som tranquilo do seu coração.
— Você voltou... — Disse ela, num sussurro.
— E dessa vez… pra ficar.
Ela sorriu, com os olhos fechados.
— Então fica. Aqui, comigo pra sempre.
E naquela noite, entre o silêncio da cidade e o som das estrelas, Lucas e Gisele se reencontraram não como antes, mas como dois que sobreviveram à distância, à dor, e à dúvida. E que agora, finalmente, podiam recomeçar.
Os dias seguintes passaram como se o velho Lucas tivesse voltado. Aquele rapaz de sorriso fácil, que jogava truco na praça, que ria alto com Junior e que fazia Gisele se sentir única com apenas um simples olhar. Cedro do Abaeté parecia respirar mais leve com sua presença.
Na casa de Leonor, os seis amigos se reuniram para organizar a mudança, para capital, onde todos iriam morar, para fazer faculdade. A sala estava cheia de caixas, listas rabiscadas e roupas espalhadas.
— Isso aqui tá parecendo acampamento. — Disse Cassio, tentando fechar uma mala que não colaborava.
— É o caos antes da revolução. — Respondeu Iva, com um caderno de anotações sobre os cursos e horários.
— Eu ainda não acredito que a gente vai mesmo morar juntos em Belo Horizonte — Disse Junior, empolgado. — Faculdade, liberdade, miojo todo o dia!
— E boletos. — Completou Leonor, rindo. — Mas vai valer a pena.
Gisele entrou com uma caixa de livros e um sorriso tímido.
— Trouxe os meus materiais de Farmácia. Já tô estudando antes de começar.
Lucas olhou para ela com orgulho.
— Você vai ser a melhor farmacêutica que Minas já viu.
— E você? Já decidiu se vai estudar também? — Perguntou Iva.
Lucas hesitou.
— Tô pensando em fazer Publicidade. Ou talvez Administração. Quero entender esse mundo que me engoliu.
— E quer morar com a gente? — Perguntou Junior.
— Se tiver espaço pra mim… — Disse Lucas, olhando para Gisele.
Ela sorriu.
— Sempre vai ter.
Naquela tarde, entre caixas e planos, os amigos riram, sonharam e se abraçaram. Era o fim de uma fase e o começo de outra. A infância ficava para trás, mas a amizade seguia firme. E o amor, mesmo machucado, começava a florescer de novo.
Lucas sentia que, pela primeira vez em meses, estava exatamente onde devia estar. E que, com Gisele ao seu lado e os amigos por perto, o futuro podia ser leve mesmo com todos os desafios.