Cedro do Abaeté acordou com burburinhos. Na padaria, no salão da Dona Rita, até no grupo de mensagens da igreja, todos comentavam a mesma coisa: “Lucas Bueno apareceu em sites de fofoca ao lado de uma modelo internacional.”
Gisele chegou à farmácia e foi recebida com olhares curiosos e sorrisos disfarçados. Dona Neide, com o semblante preocupado, entrou pouco depois com o celular na mão.
— Gisele… eu não queria te mostrar, mas acho que você precisa ver isso.
Era uma foto de Lucas em Paris, saindo de um restaurante com uma mulher alta, loira, vestida com um casaco de grife. A legenda dizia: “Novo galã da moda brasileira janta com supermodelo francesa. Romance à vista?”
Gisele sentiu o chão sumir sob os pés.
— Isso não pode ser verdade... — Disse ela, com a voz trêmula. — Ele me ama. Ele me prometeu…
Leonor e Iva chegaram às pressas, já sabendo da notícia.
— Gi, calma. Essas revistas inventam coisas. Ele pode ter ido jantar com a equipe, com colegas…
— Mas ele não atende as minhas ligações. — Interrompeu Gisele, mostrando o histórico no celular. — Eu liguei ontem. Hoje de manhã. Nada.
— Talvez ele esteja ocupado. — Disse Iva, tentando consolar. — Ou sem sinal, todos nos conhecemos o Lucas, desde criança.
— Ou talvez… ele esteja mudando. — Completou Gisele, com os olhos marejados.
Ela saiu da farmácia e foi até a praça, onde costumava se encontrar com Lucas. Sentou-se no banco de madeira, o mesmo onde ele havia prometido voltar. O celular tremia na sua mão, mas ela tentou mais uma vez.
Chamando…
Chamando…
Caixa postal.
— Lucas… sou eu. Gisele. Eu vi as fotos. Eu li os comentários. Mas eu ainda acredito em você. Só me diz que tá tudo bem. Só me diz que ainda lembra de nós.
Ela desligou, com o coração apertado. As palavras dele, antes tão presentes, agora eram apenas ecos distantes.
Naquela tarde, Cedro do Abaeté parecia frio e sem vida. E Gisele, mesmo cercada de amigos, sentia-se sozinha lutando contra rumores, contra o silêncio, contra a dúvida.
Mas no fundo, ela ainda esperava. Porque o amor verdadeiro não se apaga com manchetes. E o coração dela ainda batia por Lucas Bueno.
O sol já havia se escondido atrás das montanhas de Cedro do Abaeté quando o celular de Gisele finalmente tocou. Era Lucas.
Ela atendeu com o coração acelerado, entre a esperança e a raiva.
— Até que enfim! — Disse ela, sem esconder o tom seco.
— Gi… me desculpa. Eu tô num ritmo insano aqui. Fotos, reuniões, eventos. Eu queria ter te ligado antes, mas não deu, me perdoa amor.
— Mas não ligou. E enquanto isso, eu vi você em sites de fofoca, jantando com uma modelo que parece saída de um filme. E eu aqui… preparando o nosso casamento.
Lucas suspirou do outro lado, como se estivesse exausto.
— Aquilo foi um jantar de trabalho. A Margarete organizou. Eu nem sabia que iam tirar fotos, e muito menos postar na rede, se soubesse não tinha permitido amor.
— Mas você lembra ainda que eu existo. Que tem alguém aqui esperando por você. E mesmo assim… você sumiu.
— Eu não sumi. Eu tô tentando segurar tudo, Gi. Esse mundo é diferente. É rápido. É c***l. Eu tô fazendo isso por nós.
— Por nós? Ou por você?
Houve um silêncio tenso.
— Você mudou, Lucas. A sua voz mudou. O seu jeito. Até o seu olhar nas fotos… parece que você tá em outro planeta.
— E você acha que é fácil? Que eu tô aqui me divertindo? Eu tô lutando pra manter a minha cabeça no lugar. Pra não me perder!
— Mas já tá se perdendo. E o pior… é que nem percebe.
Lucas elevou o tom, sem querer.
— Eu tô fazendo o que posso! Eu tô tentando salvar meu pai, garantir o nosso futuro, honrar tudo que prometi. E você só reclama! Parece até que não confia no amor que eu sinto por você Gisele,
— Porque eu tô aqui, Lucas! Sozinha! Lidando com fofoca, com olhares, com dúvidas! E você… você tá aí, vivendo uma vida que não me inclui mais!
— Isso não é justo, Gisele.
— Não é justo? Então me diz: você ainda quer casar comigo?
Lucas hesitou. E esse segundo de silêncio foi como uma facada.
— Eu… eu não sei se agora é o momento.
Gisele sentiu o chão sumir.
— Então é isso.
— Não, Gi. Eu te amo. Mas eu tô confuso. Tô pressionado. Tô…
— Tô cansada, Lucas. Cansada de esperar por alguém que já foi embora. E esqueceu das suas raízes.
Ela desligou antes que ele pudesse responder. E ali, no silêncio da noite, Gisele chorou não pela ausência, mas pela certeza de que o amor deles estava se desfazendo, palavra por palavra.
Margarete estava encostada na porta do corredor do hotel, ouvindo cada palavra da briga entre Lucas e Gisele. O tom elevado, a dor nas frases, o silêncio que se seguiu. Ela sorriu discretamente.
— Era só questão de tempo. — Murmurou.
Na manhã seguinte, ela apareceu no quarto de Lucas com um convite.
— A marca quer fotos espontâneas com a modelo francesa. Nada de estúdio. Só vocês dois, num café charmoso. Natural. Íntimo.
Lucas hesitou.
— Eu não tô bem. Marga. Ontem foi pesado.
— Justamente. Nada cura uma briga, como uma boa distração. E ela tá encantada com você Lucas. Aproveite você é jovem lindo pode ter a mulher que quiser.
Horas depois, Lucas estava sentado com a modelo, Camille, num café parisiense. Ela era linda, segura, provocadora. Margarete havia desaparecido, deixando os dois sozinhos.
— Você parece triste. — Disse Camille, tocando a mão dele.
— Só cansado. E com a cabeça longe.
— Então deixa ela aqui. Comigo.
Ela se aproximou, os olhos fixos nos dele. Lucas tentou resistir, mas estava vulnerável, confuso, ferido. E quando percebeu, já estava no quarto dela, envolvido num momento que não parecia o seu.
Na manhã seguinte, acordou com o peso da culpa. Sentia-se um impostor. Um traidor. Um caco.
O céu de Paris amanhecia com tons acinzentados. Lucas estava sentado à beira da cama do hotel, os olhos fixos no celular. A noite anterior pesava na sua consciência como um fardo que ele não sabia como carregar. A culpa o corroía, mas a vergonha por ter traído algo tão puro o impedia de dizer a verdade.
Ele respirou fundo e ligou para Gisele.
Do outro lado, em Cedro do Abaeté, Gisele atendeu com a voz baixa, ainda ferida pela briga do dia anterior.
— Alô.
— Gi… sou eu.
— Eu sei.
Silêncio.
— Eu queria te ouvir. Queria te dizer que… que eu sinto muito pelo que aconteceu ontem. Pela forma como falei com você, eu não sou assim, amor.
— Você não me respondeu. Não me procurou. E agora aparece como se nada tivesse acontecido?
— Não é isso. Eu tô confuso. Tô cansado. Mas eu te amo. E não quero mais brigas. Eu sei que você é a minha casa, e a mulher da minha vida.
Gisele hesitou.
— Você tá diferente, Lucas. Sua voz tá diferente. O seu jeito. Parece que tem algo que você não tá me contando.
Lucas engoliu em seco.
— É só o cansaço. O ritmo aqui é insano. Margarete me pressiona o tempo todo. Eu tô tentando manter a cabeça no lugar.
— E o coração?
— O coração… ainda é seu, sempre será seu amor.
Ela fechou os olhos, tentando acreditar.
— Então me diz que ainda quer casar comigo. Que ainda somos nós.
— Claro que quero. Em breve, a campanha termina. Eu volto. E a gente casa. Como sonhamos, e você vem comigo, não importa pra onde.
Gisele respirou fundo.
— Tá. Mas eu preciso que você seja sincero comigo. Porque eu tô aqui, segurando tudo sozinha. E se você me deixar cair, eu não sei se consigo levantar de novo.
Lucas sentiu um nó na garganta. Queria dizer a verdade. Queria confessar a traição com Camille. Mas a vergonha o paralisava.
— Eu não vou te deixar cair. Eu prometo.
— Então volta logo. Porque cada dia que passa, parece que você tá mais longe.
— Eu volto. E quando eu voltar, tudo vai ser como antes, eu prometo amor.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos. Depois, Gisele desligou, sem dizer adeus.
Lucas ficou olhando para o celular, sentindo-se um impostor. Não por mentir com palavras, mas por esconder com silêncio.
E ali, em Paris, ele entendeu que o amor que o trouxe até ali estava por um fio. E que, talvez, o preço da fama fosse mais alto do que ele imaginava.