O aeroporto de Guarulhos estava lotado naquela manhã. Lucas caminhava entre malas, vozes em línguas diferentes e anúncios que ecoavam pelos alto-falantes. Vestia um casaco elegante, presente da agência, e carregava uma pasta com contratos e roteiros de campanha.
Mas o que pesava mais não estava nas mãos, e sim estava no peito.
Antes de embarcar, ligou para Gisele. Ela estava na farmácia, organizando os medicamentos, mas parou tudo ao ver o nome dele na tela.
— Oi, Lu. — Disse ela, com a voz doce, mas contida.
— Tô no aeroporto. Embarco em meia hora.
— Eu sei. Tô contando os minutos desde ontem.
— Queria que você estivesse aqui. Ou que eu estivesse aí.
— Eu também. Mas agora… você tá indo. E eu tô ficando.
Houve um silêncio longo.
— Gi… Você ainda acredita na gente?
— Acredito. Mas tô com medo. Medo de que o mundo te leve pra longe demais. Medo de que o Lucas que voltar não seja mais o mesmo.
— Eu vou voltar. E vou casar com você. Isso não mudou.
— Mas o tempo muda tudo, Lucas. Inclusive as pessoas.
Ele respirou fundo, ele queria garantir o futuro deles.
— Eu te amo. E é por isso que tô indo. Pra garantir o nosso futuro. Pra pagar tudo que essa vida nos cobrou.
— Eu sei. Mas só te peço uma coisa.
— Qual?
— Não se esqueça de mim. Nem por um segundo.
Lucas fechou os olhos, tentando gravar a voz dela na memória.
— Nunca. Você é minha raiz, minha casa.
A chamada para o voo foi anunciada. Lucas desligou, com o coração apertado, e seguiu para o portão de embarque.
Enquanto o avião ganhava altitude, Gisele olhava para o céu de Cedro do Abaeté, tentando imaginar onde ele estava. E se, lá de cima, ele ainda pensava nela.
Naquele momento, dois mundos se formavam: o das luzes de Paris e o das estrelas do interior. E entre eles, um amor que tentava resistir à distância, ao tempo, e ao próprio destino.
Lágrimas e Abraços...
A ligação havia terminado, mas o silêncio que ficou era ensurdecedor. Gisele permaneceu sentada no banco da varanda da farmácia, com o celular ainda na mão, como se esperasse que Lucas voltasse a falar. Mas ele não voltaria. Não agora.
As palavras dele ecoavam na sua mente: “Paris. Três meses.” E mesmo com todas as promessas, ela sentia que algo estava se perdendo entre eles como areia escorrendo pelos dedos.
As lágrimas vieram sem aviso. Silenciosas no início, depois intensas. Gisele tentou conter, mas o peito doía demais. Ela se encolheu, abraçando os joelhos, como se quisesse se proteger do mundo.
Dona Neide, sua sogra, que passava pela praça com uma sacola de pão, viu a cena e correu até ela.
— Gisele, minha filha… — Disse, ajoelhando-se ao lado dela. — O que foi?
Gisele apenas balançou a cabeça, sem conseguir falar. Dona Neide a abraçou com força, como se fosse sua própria filha, pois amava aquela menina desde de sempre.
— Ele te ama, Gisele. Eu sei que ama filha. Mas esse mundo novo… é grande demais. E confuso. Ele tá tentando fazer o certo. Mesmo que esteja se perdendo um pouco no caminho.
Leonor e Iva chegaram logo depois, avisadas por uma vizinha que viu Gisele chorando.
— O que aconteceu? — Perguntou Iva, sentando-se ao lado.
— Foi o Lucas? — Disse Leonor, já com os olhos marejados.
Gisele assentiu, ainda em silêncio.
— Ele vai pra Paris. Três meses. E eu… eu tô aqui. Esperando. Preparando um casamento que talvez não aconteça.
Leonor segurou sua mão.
— Vai acontecer. Porque você é forte. E, porque o amor de vocês é de verdade. Mas se ele esquecer disso… a gente vai lembrar ele.
— E se ele não voltar? — perguntou Gisele, com a voz embargada.
— Então você vai seguir. Porque você é mais do que a noiva de Lucas Bueno. Você é Gisele Ricci. E ninguém apaga isso.
Dona Neide enxugou as lágrimas da jovem com carinho.
— Ele vai lembrar. Porque o coração dele mora aqui. E você é o mapa e a casa dele, filha.
Gisele respirou fundo, ainda entre lágrimas, mas agora cercada de afeto. E ali, entre abraços e palavras sinceras, ela encontrou forças para continuar mesmo que o amor estivesse longe, mesmo que o futuro fosse incerto.
Luzes de Paris, Sombras no Coração...
O avião pousou em Paris sob um céu cinza e elegante. Lucas desceu com os olhos arregalados, absorvendo cada detalhe: os prédios históricos, os cafés charmosos, os carros luxuosos. Era como entrar num filme e ele era o protagonista.
— Bem-vindo à capital da moda. — Disse Margarete, com um sorriso calculado, enquanto ajustava os óculos escuros. — Aqui, ou você brilha… ou desaparece.
Lucas carregava a sua mala, ainda com o casaco presente da agência, e tentava manter a postura. Mas tudo era novo demais. Intenso demais.
— Isso aqui é surreal. — Disse ele, olhando para a Torre Eiffel ao longe. — Nunca imaginei que estaria aqui.
— E é só o começo. — Respondeu Margarete, chamando um carro preto que os aguardava. — Mas para continuar, você vai ter que se adaptar. E rápido.
No trajeto até o hotel, Lucas tentava absorver tudo, mas Margarete não perdia tempo.
— Me diga uma coisa, Lucas. Você ainda tá com aquela menina… como é mesmo o nome?
— Gisele. — Respondeu ele, com um sorriso involuntário. — Sim. Ela é minha noiva.
Margarete soltou uma risada seca.
— Noiva? Aos 18 anos? Isso é burrice, meu querido. Você tem o mundo aos seus pés. E quer se amarrar a uma garota do interior?
Lucas franziu a testa.
— Gisele é mais do que isso. Ela é minha base. Me ajudou a chegar até aqui.
— Justamente. Ela te ajudou a sair de lá. Mas agora você está aqui. E aqui, ninguém quer saber de raízes. Querem asas. Querem mistério. Querem desejo.
Lucas olhou pela janela, desconfortável.
— Eu não sou só um rosto bonito. Eu tenho história. E ela faz parte disso.
Margarete se inclinou, com o tom mais frio.
— Escute bem: se você quiser campanhas internacionais, capas de revista, contratos milionários… vai ter que deixar essa história pra trás. Ninguém quer um modelo apaixonado por uma farmacêutica de cidade pequena. Isso não vende. Isso não seduz.
— Mas eu não quero perder quem eu sou. — Disse Lucas, com firmeza.
— Então decida. Ou você é Lucas Bueno, o fenômeno global… ou é Lucas, o noivo caipira. Mas os dois não cabem na mesma vitrine.
O carro parou em frente ao hotel cinco estrelas. Lucas desceu em silêncio, com o coração dividido entre o brilho das luzes e a sombra das palavras.
E ali, sob o céu de Paris, ele começou a entender que o maior desafio não seria posar para as câmeras seria manter vivo o amor que o trouxe até ali.