Entre Luzes e Sombras

895 Words
A campanha publicitária foi um sucesso estrondoso. Em poucos dias, o rosto de Lucas Bueno estampava outdoors, vitrines e comerciais de TV. A marca de jeans que o contratou apostou alto na sua imagem de “beleza autêntica do interior”, e o Brasil inteiro quis saber quem era aquele rapaz de olhos verdes, sorriso tímido e 1,95 de carisma. — Ele é diferente. — Diziam os produtores. — Não é só bonito. Ele tem alma. As redes sociais explodiram. Entrevistas, convites, sessões de fotos. Lucas m*l conseguia respirar entre um compromisso e outro. Mas mesmo com toda a agitação, o seu coração continuava preso a Cedro do Abaeté, e a Gisele. Certa noite, após um evento em São Paulo, Lucas se sentou com Paulo, seu agente, num camarim improvisado. — Eu tô feliz, Paulo. Mas também tô dividido. — Dividido como? — Gisele. Ela é tudo pra mim. E eu sinto que tô me afastando. Que esse mundo aqui não tem espaço pra nós dois. Paulo olhou para ele com empatia. — Você tem que decidir o que quer, Lucas. Porque o mundo tá te chamando. Inclusive… chegou um convite hoje. Campanha internacional. Paris. Três meses. Lucas arregalou os olhos. — Paris? — É uma chance única. Mas exige foco. E desapego. Antes que Lucas pudesse responder, Margarete entrou no camarim. Alta, elegante, com olhar afiado e postura de quem não aceita “não” como resposta. Era a empresária responsável por cuidar da imagem de Lucas a partir daquele momento. — Desculpem interromper. — Disse ela, com um sorriso frio. — Mas ouvi a conversa. E preciso ser clara. Ela se aproximou de Lucas. — Você é uma estrela em ascensão. E estrelas não podem se prender a romances de cidadezinha. Isso atrapalha. Enfraquece a narrativa. O público quer mistério, quer desejo. Não um noivo apaixonado por uma farmacêutica do interior. Lucas se levantou, incomodado. — Gisele não é um obstáculo. Ela é minha base. Sem ela, eu não teria chegado até aqui. Margarete cruzou os braços. — Então decida. Porque se quiser Paris, se quiser o mundo, vai ter que deixar Cedro pra trás. Inclusive… Gisele. Paulo tentou intervir. — Margarete, calma. Podemos ajustar a imagem. Não precisa ser tão radical. — Ou ele é produto de desejo, ou é só mais um rostinho bonito com uma história rural, simples assim Paulo. — Disse ela, saindo do camarim. Lucas ficou em silêncio. O convite para Paris estava sobre a mesa. O seu coração, dividido entre o amor e a carreira, batia mais forte do que nunca. E naquele instante, ele soube: o próximo passo mudaria tudo. Vozes Que Se Afastam... O celular vibrou sobre a mesa da farmácia. Gisele atendeu imediatamente, o coração sempre acelerado quando via o nome de Lucas na tela. — Oi, meu amor! — Disse ela, tentando soar leve. — Oi, Gi. Que saudade da sua voz. — Respondeu Lucas, do outro lado da linha, com um tom cansado. — Você tá bem? Parece exausto. — Tô. Hoje foram três ensaios, uma entrevista e uma reunião com a equipe da marca nova. Mas tô aqui agora. Só queria ouvir você. Gisele sorriu, mas havia algo diferente. As ligações estavam ficando mais curtas. As mensagens, mais espaçadas. E a voz dele, cada vez mais distante, mesmo quando dizia que a amava. — E aí, como estão os preparativos pro nosso casamento? — Perguntou Lucas, tentando soar animado. — Estão andando. Dona Lurdes tá bordando os guardanapos, Leonor tá cuidando das flores. A praça já tá reservada. Mas… — Mas? — Às vezes parece que eu tô preparando tudo sozinha. Como se você estivesse… longe demais. Houve um silêncio do outro lado. Gisele sentiu o coração apertar. — Gi… eu preciso te contar uma coisa. — Fala. — Recebi um convite. Uma campanha internacional. Paris. Três meses. Ela fechou os olhos por um instante. — Três meses? — É uma chance enorme. A Margarete diz que pode abrir portas que nem imaginamos. Mas… o casamento é daqui a quatro. — E você vai? Lucas hesitou. — Eu ainda não decidi. Mas… talvez eu precise ir, amor, a grana vai ser muito boa vai nos dar independência e podemos comprar a farmácia que você tanto ama. Gisele respirou fundo, tentando manter a voz firme. — Você sempre disse que faria tudo por nós. Que esse trabalho era pra ajudar sua família, pra garantir nosso futuro. Mas agora… parece que o “nós” tá ficando pra depois. — Não é isso, Gi. Eu te amo. Você é tudo pra mim. — Então por que eu sinto que tô te perdendo um pouco mais a cada ligação? Do outro lado, Lucas não soube o que responder. O silêncio entre eles foi mais alto que qualquer palavra. — Eu só queria que você estivesse aqui... — Sussurrou ela quase chorando. — Eu também. Mais do que tudo. — Então volta. — Eu… eu não posso. Ainda não. Gisele mordeu os lábios, segurando as lágrimas. — Eu vou continuar preparando tudo. Mas, Lucas… se você for, só me promete uma coisa. — Qualquer coisa. — Não me deixa esperando por alguém que não vai voltar inteiro. Lucas sentiu o peso daquelas palavras. E, pela primeira vez, percebeu que o amor deles estava sendo testado por algo maior do que a distância: o tempo.
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