Cedro do Abaeté estava em festa. A praça principal foi decorada com flores do campo, luzes penduradas entre os galhos das árvores e mesas cobertas por toalhas bordadas pelas senhoras da cidade. Era a noite do noivado de Gisele e Lucas e ninguém queria perder.
A notícia havia se espalhado como brisa entre as montanhas. A filha de Antônio Ricci, a menina que enfrentou a dor com coragem, estava noiva do rapaz mais bonito da cidade, agora com um pé no mundo da moda. Mas ali, naquela noite, ele era apenas Lucas, o menino que cresceu entre os cedros e que amava Gisele com todo o coração.
As famílias estavam reunidas. Dona Cida, mãe de Iva, ajudava na cozinha com Dona Lurdes. O seu Joaquim ajeitava os bancos para os convidados. Antônio, emocionado, observava a filha com os olhos marejados.
— Ela tá tão linda, Maria. — Sussurrou ele, olhando para o céu. — Você ia se orgulhar tanto.
Gisele usava um vestido branco simples, com detalhes em renda. Os cabelos presos numa trança delicada, e o sorriso no rosto iluminava tudo ao redor. Lucas, de camisa clara e calça social, não tirava os olhos dela.
— Você parece um sonho. — Disse ele, ao encontrá-la no centro da praça.
— E você parece o meu destino. — Respondeu ela, com um brilho nos olhos.
Os amigos estavam todos lá. Leonor e Cassio dançavam ao som da banda local. Iva organizava os presentes, enquanto Junior tocava violão, embalando a noite com músicas que falavam de amor e raízes.
— Esse casal é a prova de que o amor nasce na infância e floresce com coragem. — Disse Leonor, erguendo um copo de suco de jabuticaba. — Um brinde aos noivos!
— Aos noivos! — Repetiram todos, em coro.
Lucas pegou o microfone improvisado e, diante de todos, fez o seu discurso.
— Eu não sei o que o futuro reserva. Talvez eu vá pra São Paulo, talvez o mundo me chame. Mas eu sei que o meu coração mora aqui. Mora nela. E onde quer que eu vá, Gisele é meu norte.
Gisele se aproximou, emocionada.
— Eu não quero promessas de fama. Quero promessas de presença. De verdade. De amor.
— E essas são as únicas que eu posso cumprir. — Disse ele, colocando o anel de noivado no seu dedo.
A praça explodiu em aplausos. As luzes pareciam brilhar mais forte, e a cidade inteira se uniu em celebração.
Mas, entre os sorrisos e abraços, o produtor da agência que havia sido convidado por Lucas observava tudo com atenção. Ele sabia que aquele rapaz tinha algo raro. E sabia também que o mundo lá fora não esperava.
Naquela noite, Cedro do Abaeté foi palco de uma promessa. Mas o destino, paciente e imprevisível, já começava a preparar o próximo ato.
O Susto e a Escolha...
A festa de noivado ainda ecoava nas ruas de Cedro do Abaeté. As luzes haviam sido recolhidas, mas os sorrisos permaneciam nos rostos dos moradores. Era como se a cidade inteira tivesse se envolvido na promessa de amor entre Gisele e Lucas.
Mas na manhã seguinte, o destino bateu à porta com urgência.
O seu Ademar Bueno, pai de Lucas, estava sentado à mesa tomando café quando levou a mão ao peito e empalideceu de repente. O copo caiu no chão, e Dona Neide, sua esposa, gritou por socorro.
— Lucas! Corre aqui! — Ela gritou, desesperada.
Lucas correu da varanda e encontrou o pai ofegante, suando frio, com os olhos semicerrados.
— Pai? Pai, olha pra mim! — Disse ele, segurando o rosto do pai com as mãos trêmulas.
Gisele, que estava na casa, ligou imediatamente para a ambulância. Em minutos, o pequeno hospital da cidade já havia feito os primeiros atendimentos, mas o médico foi direto:
— Ele precisa ser transferido para a cidade vizinha. Aqui não temos estrutura para exames cardíacos avançados.
A viagem até Divinópolis foi tensa. Lucas segurava a mão do pai o tempo todo, enquanto Dona Neide chorava baixinho no banco ao lado.
No hospital regional, após exames detalhados, o cardiologista veio com o diagnóstico.
— O seu Ademar sofreu um infarto silencioso. O coração está comprometido. Ele precisa de uma cirurgia de revascularização urgente.
— E o SUS cobre? — perguntou Lucas, aflito.
O médico hesitou.
— Infelizmente, não em tempo hábil. A fila é longa. E o caso dele não pode esperar. A cirurgia precisa ser feita em caráter particular. O custo é alto.
— Quanto? — Perguntou Dona Neide, com a voz embargada.
— Cerca de sessenta mil reais. Fora a, equipe médica e pós-operatório.
Lucas sentiu o mundo girar. Olhou para Gisele, que estava ao lado, com os olhos marejados.
— Eu não tenho esse dinheiro… — Disse ele, quase num sussurro.
— A gente vai dar um jeito. — Respondeu Gisele, firme. — Vamos falar com os amigos, com a cidade. Vamos fazer campanha, rifas, o que for preciso.
O médico assentiu.
— O tempo é curto. Quanto antes decidirem, melhor será para o seu Ademar.
Lucas saiu do hospital com o coração em pedaços. A alegria do noivado havia se transformado em angústia. E, sem saber, aquele momento seria o gatilho para decisões que mudariam tudo inclusive o rumo do seu amor por Gisele.
Escolhas de Amor...
A tarde em Cedro do Abaeté estava abafada, com nuvens pesadas no céu e um silêncio estranho pairando sobre a casa dos Bueno. Lucas estava sentado à mesa com Dona Neide, a mãe, os dois em silêncio, olhando para a papelada do sítio da família.
— Se a gente vender o sítio, conseguimos pagar a cirurgia. — Disse ela, com a voz embargada. — É tudo que temos, mas seu pai é mais importante.
Lucas passou a mão pelos cabelos, inquieto.
— E se não der tempo? E se ninguém quiser comprar rápido? E se a gente perder tudo e ainda assim não conseguir salvar o pai?
Dona Neide segurou a mão do filho.
— Eu não me importo com terra, Lucas. Me importo com a vida. Com ele.
Gisele, que estava na porta, escorada no batente, ouviu tudo em silêncio. Entrou devagar, com os olhos cheios de ternura e firmeza.
— Eu tenho uma ideia. — Disse ela, se aproximando. — Você lembra do produtor, o Paulo? Aquele da agência?
Lucas franziu a testa.
— Claro. Mas o que tem?
— Ele te ofereceu trabalho. Disse que você tinha potencial. Talvez… talvez ele possa te adiantar algum dinheiro. Você trabalha, faz os ensaios, e usa o que ganhar pra pagar a cirurgia.
— Gisele, isso é muito incerto. E rápido demais.
— Mas é uma chance. E você não vai estar sozinho. Eu vou com você, se precisar. Só não podemos ficar esperando um comprador que talvez nem apareça.
Lucas olhou para a mãe, depois para Gisele. Pegou o celular com mãos trêmulas e procurou o número no cartão que guardava desde Belo Horizonte.
— Paulo? Aqui é Lucas Bueno, ainda está em Minas?
— Sim, estou, rapaz. Estava esperando a sua ligação. E aí, decidiu entrar pro jogo?
Lucas respirou fundo.
— Meu pai tá doente. Precisa de uma cirurgia urgente. E eu… eu preciso de dinheiro. Pensei se você poderia me adiantar algo, em troca de trabalho. Ensaios, campanhas, o que tiver.
Do outro lado da linha, Paulo ficou em silêncio por alguns segundos, não era seu feitio adiantar por trabalhos, mas ele conheceu aquele rapaz, e havia honra ali. E o valor que ele pediu adiantado, era mínimo em relação ao que ele iria ganhar só com uma campanha.
— Você é direto. Gosto disso. Tenho uma campanha começando semana que vem. Preciso de alguém com o seu perfil. Posso adiantar metade do valor do contrato, e mais que o dobro do que você está me pedindo. Mas você tem que vir pra São Paulo amanhã.
Lucas olhou para Gisele, que assentiu com um sorriso encorajador.
— Eu aceito. — Disse ele. — Obrigado, Paulo. Você tá me dando mais do que um trabalho. Tá me dando esperança.
— Então se prepare, Lucas. O mundo vai te conhecer. E você vai salvar seu pai.
Ao desligar, Lucas abraçou Gisele com força. Dona Neide chorava baixinho, aliviada.
— Você é nossa luz, meu filho. — Disse ela.
Mas Gisele, mesmo sorrindo, sentia um aperto no peito. Sabia que aquele passo poderia mudar tudo. E que, para salvar uma vida, Lucas estava prestes a entrar em outra, onde o amor teria que lutar contra o brilho do mundo.
A Despedida...
O céu de Cedro do Abaeté estava nublado naquela manhã. A cidade parecia silenciosa, como se respeitasse o peso do momento. Lucas estava com a mochila pronta, o coração apertado e os olhos fixos no portão do hospital municipal, onde uma ambulância aguardava para levar seu pai até Divinópolis.
O seu Ademar, deitado na maca, segurava a mão do filho com força.
— Vai com Deus, meu filho. E não se preocupe comigo. Eu vou ficar bem.
Lucas engoliu o choro.
— Eu tô indo por você, pai. Por nós. Prometo que volto com tudo resolvido.
Dona Neide, ao lado, acariciava o rosto do marido e olhava para Lucas com um misto de orgulho e preocupação.
— Cuide de você também, meu filho. E não se deixe levar por promessas vazias. Lembre-se de quem você é.
Gisele se aproximou, segurando a mão de Lucas.
— Eu vou te esperar. E vou cuidar da sua mãe enquanto você estiver fora. Vai tranquilo.
— Você é minha força, Gisele. — Disse ele, com os olhos marejados.
Pouco depois, os amigos chegaram correndo, com os rostos sérios e os corações apertados.
— Então é isso. — Disse Junior, tentando sorrir. — O nosso galã vai pra São Paulo.
— Vai brilhar. — Completou Leonor, abraçando Lucas. — Mas não esquece da gente.
— Nunca. — Disse ele, abraçando Cassio e Iva em seguida. — Vocês são minha raiz.
Cassio entregou uma pulseira de couro simples.
— Pra lembrar da gente. E pra te dar sorte.
Lucas colocou no pulso e olhou para todos.
— Eu não sei o que me espera lá. Mas sei que tenho vocês aqui. E isso já me faz forte.
A buzina do ônibus soou ao longe. Era hora de partir.
Lucas se despediu com abraços apertados, olhares demorados e promessas silenciosas. Subiu no ônibus, sentou-se na janela e olhou para trás. Viu Gisele acenando, os amigos reunidos, e a ambulância partindo com seu pai.
Enquanto o ônibus se afastava, Lucas sentiu o peso da responsabilidade, mas também a força do amor que o acompanhava. E com o coração dividido entre o medo e a esperança, ele partiu rumo a São Paulo, onde o destino o esperava com luzes, desafios e escolhas que mudariam tudo.