Capítulo 1

916 Words
📖 Capítulo 1 Vitória Meu nome é Vitória dos Santos, tenho vinte e cinco anos… e sou filha de uma usuária de drogas. Não é bonito de dizer, mas é a verdade. E a verdade, por mais suja que seja, é a única coisa que eu tenho. Nunca ouvi minha mãe dizer “eu te amo”.
Nunca senti um abraço de boa noite.
Nunca tive alguém penteando meu cabelo antes de ir pra escola.
Nunca soube como é ter alguém pra se preocupar comigo. Cresci num barraco de dois cômodos, enfiado no meio de uma das ruas mais estreitas do morro. Um sofá que afunda, um fogão que vive com duas bocas queimadas e uma geladeira que grita toda vez que liga. E a minha mãe… sempre com o olho vermelho, rindo de coisa nenhuma ou berrando por coisa nenhuma. Aprendi cedo que carinho não era pra mim.
Aprendi cedo que dependia só de mim pra sobreviver. Eu sempre quis estudar. Sempre. Olhava as meninas com mochila nova, livros na mão, falando sobre faculdade, e sentia um aperto no peito. Mas a vida nunca me deu essa escolha. Aos quatorze anos já trabalhava. Primeiro lavando roupa pra vizinha, depois cuidando de duas crianças que não eram minhas, e agora… agora sou faxineira num mercado aqui mesmo no morro. O salário é pouco, mas paga o arroz, o feijão e, de vez em quando, o botijão de gás. O resto… a gente improvisa. Moro só eu e a minha mãe. Digo “moro” porque é a palavra certa, mas a verdade é que a gente divide o mesmo teto como estranhas. Ela vive no mundo dela, cercada por amigos que só aparecem com pedra no bolso e nóia no olhar. Homens que entram e saem da minha casa sem nem perguntar meu nome. Homens que me fizeram aprender a me esconder. Sempre usei roupas largas, feias, masculinas até. Camisetas de homem, calça de moletom, tênis velho. Não por gosto, mas por medo. Por proteção. Eu sei que meu corpo chama atenção… e não é o tipo de atenção que eu quero. Eu nunca namorei.
Nunca saí pra dançar.
Nunca tive um homem me olhando de verdade.
E não porque eu não queira… mas porque o mundo onde eu vivo não é seguro pra isso. O que eu cuido é da minha saúde. Sempre tento comer direito, beber água, dormir quando posso. É a única forma que encontrei de me manter inteira. Mesmo que por fora ninguém perceba, por dentro eu me esforço pra não me perder. O mercado onde eu trabalho fica no alto do morro, perto de onde os homens armados ficam, olhando quem sobe e quem desce. Eu já me acostumei com o som dos tiros. Já me acostumei a ver crianças brincando ao lado de homens com fuzil. Aqui, ou você se acostuma, ou enlouquece. O meu dia começa cedo. Acordo às cinco, arrumo a casa — ou pelo menos tento —, faço um café preto e passo pano no chão pra limpar as marcas de lama que a minha mãe deixa. Depois, visto o uniforme azul do mercado e começo a subir a ladeira. No caminho, todo mundo me conhece, mas ninguém realmente me vê. Sou só “a filha da Marlene”, aquela que vive de cabeça baixa e roupa larga. Eu carrego essa rotina como uma cruz. Não reclamo, não peço nada, não espero nada. Mas às vezes, quando estou sozinha, me pego sonhando. Sonhando que um dia vou conseguir guardar dinheiro, entrar numa faculdade, sair desse lugar. Sonhando com uma vida que eu nunca tive. O problema é que no morro, sonhar é perigoso.
Aqui, um sonho pode ser roubado no mesmo ritmo de um celular na esquina.
E, naquela semana… o meu foi arrancado de mim à força. Tudo começou numa quarta-feira. Era começo do mês, dia de entrega no mercado, e eu estava exausta. Passei a manhã inteira carregando caixas, limpando corredor, ouvindo música r**m no rádio que o açougueiro deixava ligado. Quando o turno acabou, eu só queria chegar em casa, tomar um banho e comer qualquer coisa. Mas quando dobrei a viela que leva ao meu barraco, vi algo diferente. Dois homens armados estavam na porta. Reconheci um deles: Léo, um dos vapores do Ricardo. O outro eu nunca tinha visto. Eles me olharam como se já soubessem quem eu era. Meu coração acelerou. Subi os últimos degraus com as pernas pesadas. O som da minha respiração era alto demais. No corredor, vi a porta de casa aberta e, lá dentro… ele. Ricardo. O nome dele corre pelo morro como um aviso. Dono da Maré. Dono da vida e da morte. Frio. Implacável. Um homem que ninguém ousa olhar nos olhos por muito tempo. Ele estava sentado na minha cadeira, de boné preto, barba cerrada, fuzil encostado na parede ao lado. O olhar fixo na minha mãe, que estava desleixada, rindo, com o corpo mole. Eu sabia que aquilo não ia terminar bem. — Você tá devendo demais, Marlene — ele disse, com a voz calma, mas cortante. — E você sabe como eu resolvo dívida. Minha mãe não respondeu. Só pegou um copo e virou o resto de cachaça.
Foi então que ela olhou pra mim e disse, sem tremer:
— Leva ela. Resolve aí. Eu gelei.
Olhei pra ela, esperando que fosse uma piada.
Não era. E naquele momento… eu soube que a minha vida ia mudar pra sempre.
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