📖 Capítulo 3
Vitória
Eu nunca tinha subido tanto no morro.
A cada curva, a vista se abria, e eu podia ver toda a favela lá embaixo. Mas não dava tempo de admirar nada. Meus olhos estavam fixos na nuca de Ricardo, que caminhava à frente, firme, como se o mundo abrisse caminho pra ele. Atrás, dois homens armados. Eu estava cercada.
O medo subia junto com a ladeira.
Meu coração batia tão rápido que parecia que ia explodir.
A casa apareceu de repente, como se fosse de outro mundo. Alta, imponente, cheia de vidro, portão de ferro… completamente diferente dos barracos apertados que eu conhecia. Ali, dava pra ver que quem morava era importante. Era poderoso.
Assim que o portão se abriu, uma lufada de ar frio me atingiu. Entrei na sala… e meus pés começaram a ficar pesados. Acho que foi o cansaço, a fome, o medo… tudo junto. O mundo girou.
Apaguei.
Quando abri os olhos, estava deitada num sofá enorme, macio, que devia custar mais do que tudo que havia na minha casa. Meus sapatos estavam no chão, e os dois homens que vieram junto comigo não estavam mais ali.
Mas ele estava.
Ricardo.
Sentado à mesa, espalhados diante dele havia papéis, mapas, fotos. Eu reconheci alguns lugares — eram as rotas que o pessoal do morro usava. Ele segurava uma caneta, riscando pontos, como se estivesse organizando uma guerra. Talvez estivesse.
Meu corpo ficou tenso, mas eu não consegui me mexer. Só observei. Até que ele ergueu os olhos e falou, sem rodeio:
— Vai morar aqui.
Minha boca secou.
Eu não respondi.
Ele apoiou a caneta na mesa, o olhar firme em mim.
— Até a dívida da sua mãe estar paga, você fica comigo. — fez uma pausa curta, como quem decide se acrescenta mais alguma coisa — E não tenta fugir.
Meu coração acelerou ainda mais. Eu não sabia se chorava, se gritava ou se corria. Mas correr… não ia adiantar.
Ali, eu percebi que minha vida não me pertencia mais.
Ele se levantou devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo. Era alto, e cada passo que dava parecia ecoar na minha cabeça. O silêncio da sala só aumentava o som pesado das botas dele contra o chão.
— Aqui, ninguém me diz “não” — disse, parando a menos de um metro de mim. Sua sombra cobriu meu corpo. — Se eu mando, você faz.
Engoli seco.
Ele inclinou a cabeça para o lado, analisando minha reação. Não havia raiva no rosto dele… e talvez isso fosse pior. Ele não precisava gritar. Não precisava me ameaçar com uma arma na mão. O perigo estava na calma dele.
— Se fizer besteira, não vai ter segunda chance. — completou, e a frieza na voz me fez arrepiar.
Eu não respondi. Nem piscava.
Era como estar diante de um animal selvagem — o tipo que, se sentir cheiro de medo, ataca.
Ele deu um passo para trás e voltou à mesa, pegando um dos papéis e rabiscando algo como se eu já não estivesse ali. A indiferença dele me cortou mais que qualquer grito.
— Você não tá aqui como convidada, Vitória. Tá aqui porque a sua mãe não vale nada e achou que era melhor me entregar você do que perder a própria vida. — ele ergueu os olhos de novo, e o jeito que disse aquilo… parecia que estava me lembrando de qual era o meu lugar.
Senti vontade de chorar, mas segurei. Não ia dar a ele o prazer de me ver fraca.
Ele percebeu.
— Boa. — murmurou, quase imperceptível. — Aprende rápido.
Nesse momento, Katy apareceu na porta, segurando um pano de prato.
— Quer que eu leve ela pro quarto, chefe? — perguntou.
— Leva. E tranca. — respondeu sem olhar para mim.
Katy fez sinal para eu segui-la. Me levantei, as pernas pesadas, e comecei a caminhar.
Antes de sair da sala, senti o olhar dele queimando minhas costas. Não era desejo. Não era curiosidade. Era posse.
Ali, eu soube que, se quisesse sobreviver, teria que aprender todas as regras dele.