Capítulo 6

642 Words
📖 Capítulo 6 Vitória Eu estava sentada na beirada da cama, ainda tentando entender como a minha vida tinha virado de cabeça para baixo em tão pouco tempo, quando a porta se abriu devagar. Katy entrou carregando várias sacolas, parecia até que tinha vindo de uma dessas lojas chiques que eu só via pela vitrine. O cheiro veio antes mesmo de eu enxergar o que tinha lá dentro: perfumes doces, sabonetes com fragrância de fruta, cremes… coisas que eu nunca tinha usado na vida. — Coloca tudo aqui em cima da cama. — ela disse, pousando as sacolas. — O patrão mandou comprar tudo que uma mulher precisa. Olhei, sem saber o que dizer. Nas roupas, as etiquetas ainda estavam presas. Eram peças limpinhas, bonitas… blusas com cortes modernos, vestidos que eu jamais teria coragem de comprar, calças novas, e até lingerie de renda. Meus dedos tocaram um tecido macio, tão diferente das roupas velhas e ásperas que eu usava no dia a dia. — Isso aqui… — comecei, mas minha voz falhou. — É tudo pra mim? Katy deu de ombros.
— É. E tem mais. — Ela tirou de uma sacola um kit de shampoo e condicionador, sabonetes líquidos, desodorante, hidratante corporal… até um perfume pequeno, delicado, com uma embalagem de vidro. — Toma um banho. Eu vou preparar o jantar. Assenti devagar, sem coragem de dizer que não estava com fome. A verdade é que eu não sabia nem como reagir. Nunca ninguém tinha se dado ao trabalho de comprar algo pra mim que não fosse o básico. Entrei no banheiro e coloquei os produtos sobre a pia. Aquele cheiro invadiu o espaço pequeno, me deixando atordoada. Liguei o chuveiro e esperei a água esquentar. Enquanto a água caía sobre mim, pensei em como tudo era estranho… na manhã daquele mesmo dia, eu estava limpando o chão do mercado, cansada, mas livre. Agora, estava trancada numa casa que não era minha, com roupas e sabonetes caros, mas sem poder ir embora. Saí enrolada na toalha macia, algo que também não fazia parte da minha realidade. Katy tinha deixado sobre a cama uma muda de roupa: uma calça jeans novinha e uma blusa preta simples, mas bonita. Me vesti devagar, ainda me sentindo deslocada. No fundo, eu sabia que nada daquilo era presente. Eram apenas ferramentas para me moldar ao mundo de Ricardo. Quando terminei, Katy apareceu de novo na porta.
— Vamos. O jantar tá pronto. Segui em silêncio. Ainda tinha um nó na garganta — não de fome, mas de medo do que viria depois. Antes de seguir para a cozinha, parei no banheiro.
A porta estava entreaberta e o espelho embaçado pelo vapor do banho. Passei a mão, limpando a superfície, e por um instante fiquei encarando a minha própria imagem. Quase não me reconheci. Meu cabelo liso, ainda úmido, caía pesado sobre os ombros, o preto brilhando sob a luz amarelada. O jeans novo moldava a minha cintura fina, destacando ainda mais o formato de violão que eu sempre escondi sob roupas largas. Virei de lado e percebi como a calça realçava a curva da minha b***a — redondinha, empinada, coisa que antes eu disfarçava com camisetas enormes. O decote discreto da blusa deixava à mostra um pouco do meu colo, o suficiente para eu lembrar que, mesmo com s***s pequenos, eu ainda era… bonita. Suspirei, passando a mão pela própria cintura. Eu tinha esquecido disso.
Esquecido que era mulher.
Esquecido que, por baixo da poeira do trabalho e da vida dura, existia alguém que podia chamar atenção. Por um instante, me senti forte. E, ao mesmo tempo, vulnerável.
Aqui, beleza podia ser tanto um presente quanto uma maldição. Abaixei o olhar, me recompondo. Abri a porta e segui em direção à cozinha, tentando não pensar no que aquela nova versão de mim significaria para Ricardo.
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