Capítulo 17

1016 Words
Acordei com o coração batendo acelerado e os pensamentos fervilhando. Era como se meu corpo estivesse tentando me contar algo. A sensação no meu pé direito, aquela que havia aparecido de forma tímida dias atrás, agora se manifestava com mais nitidez. Quando me concentrei, senti um leve movimento. Não era imaginação. Era real. E isso me dava forças. Juliano ainda dormia ao meu lado, o rosto relaxado, uma expressão de paz que eu desejava guardar pra sempre na memória. Ele sempre dizia que acreditava em mim, mas agora, eu também acreditava em mim mesma. Era diferente. Desci da cama com a ajuda da cadeira, vesti uma blusa confortável e fui até o espelho. Encostei a mão no meu próprio reflexo. Ali estava uma mulher diferente da que chegou à fazenda meses atrás. Eu ainda tinha medo, ainda me sentia frágil às vezes, mas agora havia algo mais forte: determinação. Na sala de estar, abri o notebook e me inscrevi em um novo curso online: Fisiologia do Movimento. Eu queria entender o meu corpo, as etapas da recuperação. Queria mais do que esperar por milagres. Queria participar ativamente da minha cura. Mais tarde, encontrei Juliano na varanda. Ele lia um relatório enquanto tomava café. Assim que me viu, sorriu. — Dormiu bem? — Sim. E você? — Ainda melhor com você ao meu lado — disse, puxando uma cadeira para mim. — Hoje é dia de fisioterapia, lembra? Assenti. Mas, dessa vez, fui eu quem disse com convicção: — Quero me esforçar mais hoje. Estou sentindo progresso e não quero deixar isso esfriar. Ele me olhou como se estivesse vendo uma joia rara. — Eu tô tão orgulhoso de você, Liz. — Obrigada, Ju. Mas agora... preciso ser ainda mais forte A fisioterapeuta, Helena, chegou às nove em ponto. Uma mulher firme, mas gentil, que havia se tornado parte essencial da minha rotina. Ela ficou animada quando contei sobre o movimento que percebi no pé. — Isso é um excelente sinal, Elizabeth. Vamos intensificar um pouco hoje, mas sem ultrapassar seus limites. Começamos com alongamentos, estímulos nos músculos inferiores, movimentos passivos que exigiam mais concentração do que força. A cada exercício, eu sentia a dor latejar, mas não era a dor do sofrimento. Era a dor da reconstrução. Juliano assistia de longe, com os punhos cerrados, como se torcesse por mim em silêncio. Às vezes, ele sorria quando eu conseguia completar uma sequência. Às vezes, ele franzia a testa quando eu gemia de dor. Mas nunca me tirava os olhos de cima. — Respira, Liz — dizia Helena com calma. — Você está indo muito bem. — Eu quero mais — respondi. — Quero me levantar dessa cadeira. — E vai. Um passo de cada vez. A gente chega lá. Depois da sessão, me senti exausta. Cada músculo parecia gritar. Mas, por dentro, havia uma euforia que nenhuma dor conseguia abafar. Juliano me ajudou a voltar ao quarto. Sentou-se na beira da cama e passou a mão no meu rosto, afastando uma mecha de cabelo. — Você é a mulher mais corajosa que eu já conheci. — Eu só estou cansada de sobreviver, Juliano. Quero viver. De verdade. Ele me encarou, os olhos brilhando com um misto de admiração e desejo. — Você já tá vivendo, Liz. Você só não percebeu ainda que é maior do que tudo que te aconteceu. Nos encaramos em silêncio por um instante que pareceu eterno. E então, como se não houvesse mais dúvidas entre nós, ele se inclinou e me beijou. Foi diferente dessa vez. Não foi um beijo apressado, nem contido. Foi um beijo intenso, carregado de tudo o que vínhamos segurando por tanto tempo. Minhas mãos subiram por sua nuca, puxando-o para mais perto. Os dedos dele deslizaram pelas laterais do meu corpo com cuidado, mas também com desejo. — Me deixa cuidar de você — sussurrou, colando a testa na minha. — Eu quero você, Juliano. Inteiro. Agora. Ele me pegou no colo com delicadeza, como quem segura algo precioso, e me deitou no centro da cama. Seus olhos varreram cada pedaço de mim com respeito, ternura e fome. — Se tiver qualquer desconforto, me avisa — ele disse, enquanto suas mãos exploravam meu corpo. — Eu confio em você — respondi, puxando-o de volta para mim. O toque dele era mais do que físico. Era como se cada carícia apagasse uma cicatriz emocional. E, pela primeira vez desde o acidente, eu me senti mulher. Inteira. Desejada. O mundo lá fora desapareceu. Ficamos apenas nós dois, entre beijos, suspiros e gemidos abafados. Não havia espaço para culpa ou insegurança. Só havia entrega. Depois, ficamos deitados lado a lado, as mãos entrelaçadas, os corpos entrelaçados, os corações em compasso. — Você é meu lar, Juliano — sussurrei. — E você é minha força, Liz. Meu recomeço. Nos dias que seguiram, mantive uma rotina rígida. Pela manhã, estudava. À tarde, fisioterapia. À noite, lia, escrevia, sonhava. Aos poucos, comecei a testar novos movimentos. Um dia, consegui levantar levemente o pé. Outro dia, senti o músculo da coxa contrair. Juliano acompanhava tudo com entusiasmo, como se cada pequeno avanço fosse uma grande conquista. E, pra mim, era. Uma noite, recebi uma mensagem de Karina: “Você tá me inspirando, sabia? Tô morrendo de saudade. Qualquer dia desses, apareço aí!” Respondi com um sorriso nos lábios: “Você sempre foi meu porto seguro. Agora é minha vez de te mostrar que a gente pode renascer, mesmo depois de perder tudo.” A vida na fazenda já não era um exílio. Era um lar. Os silêncios agora eram confortáveis. A solidão tinha dado lugar à solitude. Eu me reencontrava em cada página estudada, em cada gota de suor da fisioterapia, em cada beijo compartilhado com Juliano. Naquele ritmo intenso, mas verdadeiro , minha alma voltava a florescer. E eu sabia, no fundo do peito, que o futuro ainda me reservava muito. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu estava pronta. Pronta para lutar. Pronta para amar. Pronta para caminhar com ou sem ajuda. Porque agora, eu era dona de mim mesma.
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