Quando me olhei no espelho naquela manhã, vi algo diferente nos meus olhos. Havia uma faísca ali pequena, mas insistente. Uma luz que eu julgava extinta. Era esperança, eu percebi. Não mais uma esperança silenciosa, escondida debaixo do medo, mas uma esperança que começava a ganhar forma.
Levantei as mãos e ajeitei o cabelo, como fazia nos velhos tempos antes de um desfile. Mas agora, não era vaidade. Era símbolo de resistência. De um retorno ao que eu era só que melhor. Mais inteira.
Na tela do computador, as aulas me chamavam. A de hoje era sobre gestão de custos em pequenas propriedades agrícolas. Anotei cada palavra, cada conceito, com o entusiasmo de uma aluna que finalmente entendia a importância do conteúdo.
Juliano apareceu na porta da sala com duas xícaras de café. O olhar orgulhoso dele ainda me desarmava.
— Vai dominar o mundo rural, hein, dona Elizabeth?
— Um passo de cada vez — respondi, sorrindo.
Ele se aproximou, me entregando o café. Seu olhar caiu sobre meu caderno cheio de anotações.
— Fico impressionado com a sua disciplina.
— Quando a gente quase perde tudo, Juliano, começa a valorizar cada segundo. Estudar é a forma que encontrei de construir um novo chão.
Ele se abaixou, beijou minha testa e sussurrou:
— Eu tô aqui pra construir esse chão com você.
Mais tarde, fui até a varanda com meu notebook no colo e um cobertor sobre as pernas. O sol estava mais tímido naquele dia, e o vento trazia o cheiro do pasto molhado da noite anterior. Era estranho como aquele cheiro, antes incômodo, agora me parecia familiar. Quase reconfortante.
Comecei a fazer um esboço de um pequeno projeto de cultivo para a estufa que Juliano pretendia ampliar. Escrevi, apaguei, refiz. Meus dedos deslizando pelo teclado eram como pincéis desenhando um futuro. Um futuro onde eu não era apenas a mulher quebrada por um acidente, mas alguém que se reinventava.
Foi quando ouvi passos se aproximando. Não precisei virar o rosto. O perfume de Lorena entregava sua presença antes mesmo que ela falasse.
— Está um dia bonito, não acha? — ela disse, encostando-se ao corrimão da varanda.
Mantive o foco na tela.
— Está sim — respondi, contida.
— Vim visitar sua mãe. Trouxe umas compotas que ela gosta. Aproveitei pra passar aqui também.
Ergui os olhos. Ela vestia uma blusa justa, o cabelo preso num coque perfeitamente bagunçado, maquiagem leve. Tudo nela parecia cuidadosamente calculado para parecer natural. Falsa naturalidade.
— Que bom — respondi, tentando manter a neutralidade.
Ela deu dois passos à frente, ficando ao meu lado.
— Eu e Juliano crescemos juntos, sabia? Ele era meu melhor amigo. Até que... bom, as coisas mudaram.
— Imagino que tenham mudado por um motivo — retruquei, calma.
— Ele sempre foi tão protetor. Tão doce. É fácil se apaixonar por ele.
Fechei o notebook devagar. Virei o rosto para encará-la.
— Lorena, se veio até aqui pra me lembrar do passado de vocês, perdeu o esforço. Eu sei quem Juliano é. E sei muito bem o que ele sente por mim.
— Claro. Mas eu só quis dizer que talvez, com o tempo, ele perceba que...
— Que o quê? — interrompi, firme. — Que sou um fardo? Que minha cadeira de rodas faz dele um mártir? Que ele merecia alguém que pudesse andar de mãos dadas no campo sem limitações?
Ela hesitou. E foi suficiente para que eu continuasse:
— Juliano não está comigo por pena. Ele está comigo porque escolheu estar. E se você ainda não entendeu isso, talvez esteja na hora de parar de vir aqui.
O silêncio dela foi a resposta mais eloquente.
No fim da tarde, Juliano me encontrou na pequena horta que havíamos plantado juntos. Estava regando algumas mudas com ajuda de um dos funcionários.
— Ouvi dizer que você teve uma conversa com a Lorena — ele comentou, sentando ao meu lado no banco de madeira.
— Tive. E foi a última. Pedi que ela parasse de aparecer por aqui.
Ele me olhou, surpreso.
— Achei que fosse querer que eu falasse com ela...
— Eu já passei tempo demais esperando que outros me defendessem, Juliano. Chega. Essa vida é minha. Essa luta é minha. E se alguém tentar diminuir o que a gente tem... vai ter que lidar comigo.
Um sorriso orgulhoso se formou no rosto dele.
— Meu Deus... como eu te amo.
Ele me puxou para perto, com todo o cuidado, e colou os lábios nos meus. Foi um beijo longo, profundo, carregado de tudo o que havíamos enfrentado até ali. A dor. A superação. O desejo contido. A esperança.
— Quero te mostrar uma coisa — ele disse, ainda com a voz rouca pelo beijo.
— O quê?
— Vem comigo. Confia em mim.
Me levou até o celeiro, onde eu achava que ele guardava apenas ferramentas. Mas ao entrar, vi uma parte isolada, com piso de madeira nova e uma estrutura diferente. Havia flores no canto. Uma pequena estante com livros. Uma cadeira confortável. Um mural com frases inspiradoras.
— O que é isso...? — perguntei, surpresa.
— Um lugar só seu. Pra estudar, criar, sonhar... ou só respirar.
A emoção me subiu como um rio represado. Aquilo era mais do que um espaço. Era uma prova de que ele via minhas necessidades. Minhas dores. Meus sonhos.
— Juliano, você fez isso tudo...
— Porque você merece. E porque quero que saiba que, mesmo que o mundo lá fora ainda tenha dúvidas, aqui você é livre. Aqui você é gigante.
As lágrimas desceram antes que eu pudesse impedir.
Ele se ajoelhou diante de mim, segurando minhas mãos.
— Não importa o que o futuro traga, Liz. Se você andar de novo ou não. Se voltar pra passarela ou se ficar aqui pra sempre. Eu tô com você. Por inteiro.
Eu queria dizer que sentia o mesmo. Que ele era meu porto seguro. Meu recomeço. Mas nenhuma palavra parecia suficiente. Então apenas me inclinei e o beijei de novo.
Dessa vez, sem pressa. Sem medo.
Naquela noite, deitada com ele ao meu lado, senti algo diferente. Um movimento discreto. Um formigamento no tornozelo. Era meu corpo dizendo que estava voltando. E, pela primeira vez, não me senti obrigada a esconder.
— Juliano... — sussurrei. — Preciso te contar uma coisa.
Ele se virou pra mim, os olhos atentos.
— Há alguns dias... comecei a sentir meu pé. Mexer o dedão. Sozinha.
Ele arregalou os olhos, incrédulo.
— Você tá falando sério?
Assenti, com lágrimas nos olhos.
— Eu queria ter certeza antes de te contar. Mas é real. Eu tô voltando.
Ele riu, me abraçando com força. Chorou comigo.
— Isso... isso é incrível, Liz. Você vai andar de novo. Eu sei que vai.
E naquele abraço, naquela noite, eu entendi que o amor verdadeiro não exige perfeição. Ele floresce nas imperfeições. Nas cicatrizes. Nos recomeços.
E esse amor... era meu.