Na manhã seguinte, acordei com o sol filtrando pelas cortinas e um sorriso no rosto. Juliano ainda dormia ao meu lado, com o braço envolto na minha cintura, como se me protegesse mesmo inconsciente. A respiração dele era calma, profunda, e seu rosto, sereno.
A noite anterior ainda parecia um sonho. Pela primeira vez em muito tempo, eu não me sentia incompleta. Não me sentia quebrada. E isso não era porque alguém me completava, mas porque alguém havia me enxergado inteira. Sem pressa, sem exigências, sem tentar me consertar.
Eu acariciei o rosto dele com a ponta dos dedos, e ele abriu os olhos lentamente, um sorriso preguiçoso brotando em seus lábios.
— Bom dia, minha flor do campo.
— Flor do campo?
— Ué, você acha que só você pode dar apelido? — ele riu e me puxou para perto, beijando minha testa.
— É que... você nunca tinha me chamado assim.
— É porque só agora você tá florescendo de novo.
Engoli em seco. Como alguém podia dizer essas coisas com tanta simplicidade e, ainda assim, me desmontar por dentro?
Passamos mais alguns minutos em silêncio, apenas apreciando a companhia um do outro. Depois, Juliano se vestiu e foi ajudar com os afazeres da fazenda, e eu fiquei ali, sozinha no quarto, ainda envolta por aquela paz nova que ele havia trazido.
Mas nem tudo em mim estava calmo.
Na noite anterior, no momento em que Juliano me abraçava, algo diferente aconteceu. Um formigamento leve percorreu minhas pernas. Eu não falei nada na hora, achando que talvez fosse impressão ou alguma reação nervosa sem importância.
Mas agora, acordada, mais alerta, resolvi testar.
Estiquei as mãos, respirei fundo e me concentrei.
“Por favor... só um sinal.”
E, então, com muito esforço, vi. Minúsculo, quase imperceptível: o dedão do meu pé direito se moveu.
Engasguei com o choro. Meu coração disparou como se tivesse corrido uma maratona. Tentei de novo. Lá estava ele mexendo-se, lentamente, mas com vida. Aquilo podia significar tudo... ou nada. Mas para mim, era um começo. Um sopro de esperança que eu não sentia havia meses.
Fiquei assim por longos minutos, olhando para os meus pés, chorando em silêncio.
Não contei a ninguém.
Nem mesmo a Juliano.
Talvez por medo de criar expectativas, talvez porque aquele pequeno movimento era algo que eu queria guardar só pra mim por um tempo. Um segredo entre meu corpo e minha alma. Um símbolo silencioso de que eu ainda estava aqui. Inteira. Viva.
Naquele dia, mergulhei nos meus cursos com mais vontade do que nunca. As aulas de administração me faziam enxergar o rancho de outra forma. Comecei a desenhar ideias de negócios, pensar em melhorias para a produção, formas de tornar o lugar mais sustentável e rentável.
No curso de agricultura, aprendi sobre irrigação, compostagem, rotação de culturas. E, em vez de ver aquilo como algo distante da minha realidade, eu comecei a me imaginar ali, de fato, fazendo parte de tudo aquilo.
No fim da tarde, Juliano apareceu com um sorriso largo e as mãos sujas de terra.
— Tenho uma surpresa pra você.
— Outra?
— Ué, você merece. Vamos?
Ele me levou até um pequeno terreno nos fundos do rancho. Estava demarcado com estacas e cordas.
— Aqui vai ser a sua horta. Você vai escolher o que plantar, como cuidar, e eu te ajudo com o que precisar.
Meus olhos brilharam.
— Você tá mesmo me dando um pedaço de terra?
— Não só isso — ele sorriu. — Tô te dando liberdade. Propósito. Vida.
E, mais uma vez, eu chorei.
— muito obrigado Juliano..
— Você merece.
À noite, Lorena apareceu.
Ela vinha com frequência agora. Dizia que queria passar uns dias na cidade, que precisava “desacelerar da correria urbana”, mas algo em seu tom soava falso. E minha intuição não mentia.
Ela se aproximava de Juliano com conversas nostálgicas, lembranças de infância, piadas internas que me deixavam de fora. Sempre com um sorriso nos lábios e um toque de mão prolongado demais.
Na terceira vez que isso aconteceu, eu já não consegui disfarçar meu desconforto. Juliano percebeu, é claro, e naquela noite, quando estávamos sozinhos, ele tocou no assunto.
— Liz... quero te pedir desculpas.
— Pelo quê?
— Por não cortar a Lorena antes. Eu achei que ela tava sendo só amiga, mas agora vejo que ela quer algo mais. E eu não quero que você sofra por isso.
— Eu não tô sofrendo — menti, baixando os olhos.
Ele tocou meu queixo e me obrigou a encará-lo.
— Eu te amo, tá? E não vou deixar que ela, ou qualquer outra coisa, estrague o que estamos construindo. Você confia em mim?
— Confio.
E eu confiava. Mas confiar nos outros era muito mais fácil do que confiar em mim mesma. Em meu corpo, minhas capacidades, minha força.
E, naquele momento, guardar o segredo do dedão mexendo era como segurar uma fagulha de coragem nas mãos, esperando que ela crescesse sem ser apagada pelo vento.
Na manhã seguinte, Lorena me abordou sozinha no jardim. Trazia um sorriso educado demais e um tom casual que não convencia.
— Elizabeth, posso te dizer uma coisa?
— Claro.
— Eu admiro muito sua força. Deve ser difícil passar por tudo isso... especialmente sabendo que Juliano é um homem que gosta de movimento. De mulheres... ativas, entende?
Mantive a expressão neutra.
— Entendo. E admiro muito sua coragem também, Lorena. Deve ser difícil saber que perdeu algo precioso e não poder recuperá-lo.
Ela piscou, surpresa.
— Como assim?
— Juliano. Ele já fez a escolha dele. E, sinto muito, não foi você.
Ela forçou um sorriso, mas os olhos não acompanharam.
— A vida é cheia de reviravoltas, Elizabeth. Nunca se sabe.
— Ah, eu sei sim. Sei que o que tenho com ele é verdadeiro. Sei que ele me vê por inteira. Sei que, com ele, até o impossível parece possível.
Ela não respondeu. Apenas se virou e foi embora.
E ali, naquele momento, percebi que algo dentro de mim havia mudado.
Não era apenas o dedão que tinha voltado a se mover. Era minha alma. Minha garra. Meu amor-próprio. Eu estava voltando para mim mesma. E nada nem Lorena, nem o passado, nem o medo ia me impedir disso.