O som do g**o cantando bem cedo não me incomodava mais. Pelo contrário. Era quase um lembrete de que um novo dia tinha começado e que eu tinha mais uma chance de fazer diferente. De seguir em frente.
Naquele dia, ao acordar, a primeira coisa que fiz foi abrir o notebook. O curso de agricultura estava cada vez mais interessante. As aulas começavam a fazer sentido prático, porque eu via tudo ao meu redor. As árvores frutíferas no pomar, o gado no pasto, os trabalhadores colhendo o que havíamos plantado meses atrás. Era como se o aprendizado me devolvesse um senso de pertencimento, como se cada detalhe da terra estivesse me chamando para fazer parte daquilo.
Meu pai entrou no quarto no meio da manhã, com um olhar curioso.
— Vi que você tem estudado bastante — disse, puxando uma cadeira e se sentando ao meu lado. — E ouvi do Juliano que andou perguntando sobre o planejamento da próxima colheita.
Sorri, um pouco sem graça.
— É... eu achei que talvez pudesse ajudar. Eu sei que vocês sempre deram conta de tudo, mas... talvez eu consiga contribuir de algum jeito. Mesmo daqui da cadeira.
— Liz... você não tem ideia do quanto é bom te ver assim. Interessada, viva. A gente teve tanto medo de te perder — ele suspirou, emocionado. — Não só por causa do acidente, mas por te ver... desistindo.
As palavras dele me atingiram com delicadeza e força ao mesmo tempo. Eu sabia que havia me fechado. Que, por semanas, fui apenas uma sombra do que já fui um dia. E agora, ouvir dele aquele reconhecimento... me fez sentir que eu estava mesmo mudando.
— Pai, obrigada por não desistirem de mim — respondi, com a voz embargada.
Ele se levantou, beijou minha testa e saiu sem dizer mais nada. E aquele gesto valeu mais do que qualquer discurso.
Na parte da tarde, Juliano apareceu com dois copos de suco natural e um sorriso que me desmontava.
— Tava pensando que você devia tirar a tarde de folga do curso. O tempo tá bonito e... bom, eu queria te levar a um lugar.
— Um lugar?
— Confia em mim?
Sorri, já pegando minha jaqueta.
— Sempre.
Me levou até um ponto mais afastado da fazenda, onde os pastos se encontravam com uma pequena elevação de terra. A vista de lá era deslumbrante. Dava pra ver o horizonte todo, o sol tocando a vegetação e o céu num azul límpido, sem uma nuvem.
— Esse era o meu lugar preferido quando eu era moleque — disse, enquanto estendia uma manta no chão e se sentava ao meu lado. — Quando tudo tava difícil... eu vinha pra cá e ficava olhando pro céu. Parecia que os problemas encolhiam.
Ficamos em silêncio por um tempo, apenas ouvindo os pássaros e o vento suave. Era como se o mundo tivesse desacelerado só para nos dar esse momento de paz.
— Você sempre foi assim? — perguntei. — Tão calmo, tão... firme?
— Nem sempre. Eu já fui muito impulsivo. Já briguei demais. Já perdi oportunidades por orgulho. Mas a vida vai ensinando a gente a respirar antes de reagir.
— Eu invejo isso em você. Essa paz que você tem.
Ele se virou pra mim, os olhos castanhos buscando os meus.
— Você também tem essa paz, Liz. Só ainda não percebeu.
Fechei os olhos por um momento, absorvendo aquelas palavras.
— Às vezes, eu ainda me sinto quebrada. Ainda dói olhar no espelho e ver quem eu me tornei. Não por estar na cadeira... mas por ter deixado que isso me definisse por tanto tempo.
— Você não está quebrada. Só está se reconstruindo. E, pra mim, você é mais forte agora do que era antes.
Aquelas palavras mexeram comigo de um jeito profundo. Ele via valor onde eu ainda via falhas. Ele me olhava com amor, não com compaixão. Era isso que fazia meu coração bater tão forte perto dele.
Me aproximei, devagar, e segurei sua mão.
— Juliano... eu tô com medo.
— De quê?
— De me entregar. De amar de novo. De me machucar. Mas também tô com medo de perder você se eu não tentar.
Ele acariciou meu rosto com o dorso da mão, gentilmente.
— A gente pode ir devagar. Eu não tenho pressa. Só quero estar ao seu lado. Com todos os seus medos, suas dúvidas... e seus sonhos.
Me inclinei e o beijei. Um beijo mais profundo dessa vez, mais seguro. E ele correspondeu com a mesma intensidade, como se aquele gesto fosse a confirmação de tudo o que sentíamos, mas que ainda não tinha sido completamente dito.
Ficamos ali por um tempo, abraçados, vendo o sol começar a se pôr no horizonte. O céu se tingia de laranja e rosa, e naquele cenário de filme, eu me permiti sonhar outra vez.
Nos dias seguintes, continuei me dedicando aos cursos. Agora também fazia parte de um grupo online de mulheres do campo. Trocávamos experiências, ideias, desafios. Era incrível ver quantas mulheres estavam transformando suas histórias com coragem.
Juliano, como sempre, me apoiava em cada passo. Montamos uma pequena horta adaptada para que eu pudesse trabalhar com as mãos na terra. Ele construiu tudo com cuidado, com caminhos largos o suficiente para minha cadeira, e bancadas na altura ideal.
— Achei que você fosse gostar de mexer com isso — disse, com um brilho no olhar.
— Você não para de me surpreender.
— E eu ainda nem comecei.
Naquela noite, depois do jantar, estávamos na varanda observando as estrelas quando Juliano se aproximou por trás da minha cadeira e me envolveu com os braços.
— Você já pensou em dar aulas?
— Aulas?
— Sim. Sobre o que você tá aprendendo. Sobre superação, sobre resiliência. Aposto que tem muita gente que adoraria ouvir sua história.
Sorri, emocionada.
— Talvez um dia. Por enquanto... ainda tô escrevendo ela.
Ele beijou meu pescoço com ternura e sussurrou:
— E é a história mais bonita que eu já li.
Naquele instante, eu soube. Mesmo com os desafios, com os medos, com as limitações... eu estava renascendo. E Juliano era parte essencial dessa nova versão de mim mesma.
(...)
Fazia algumas semanas desde que comecei os cursos online e, surpreendentemente, eu estava gostando. Sentia-me útil, ativa, e isso reacendia algo dentro de mim que eu achava perdido. O rancho já não me parecia uma prisão, e sim um campo fértil onde eu podia recomeçar.
Eu e Juliano estávamos mais próximos do que nunca. Havia um cuidado novo em cada gesto, uma i********e que crescia sem pressa, como quem aprende a amar pela primeira vez com receio, mas também com esperança.
Mas a tranquilidade, percebi, é sempre um estado provisório.
Era uma manhã morna, o céu meio nublado, quando ouvi vozes estranhas vindo do pátio. Curiosa, fui até a janela do quarto e vi uma caminhonete parada na entrada. Uma mulher desceu. Ela era alta, bonita, usava botas de montaria e óculos escuros. Havia algo de familiar no modo como ela caminhava com confiança.
Não precisei de muito para entender: ela conhecia o lugar. Mais do que isso, ela conhecia Juliano.
Minutos depois, ouvi batidas na porta e o som da voz da minha mãe:
— Liz, querida, temos visita. Uma antiga amiga do Juliano... Lorena.
O nome acendeu um alarme dentro de mim.
Respirei fundo e me dirigi à sala, tentando parecer natural. Lá estava ela, sentada com as pernas cruzadas, sorrindo para meus pais, como se fosse parte da família. Juliano, ao lado, parecia desconfortável.
Assim que entrei, ela me olhou com curiosidade. Tirou os óculos, revelando olhos verdes penetrantes, e sorriu.
— Você deve ser a Elizabeth — disse, com a voz suave. — Já ouvi muito falar de você.
— Espero que tenha ouvido coisas boas — respondi, tentando manter a cordialidade.
— Só elogios — ela sorriu, mas havia algo de afiado naquele sorriso.
Juliano se aproximou e segurou minha mão com delicadeza.
— Lorena morou aqui por um tempo, antes de ir pra capital. Trabalhamos juntos por alguns anos — ele explicou, com um tom neutro.
— E mais do que isso, fomos grandes amigos — completou ela, enfatizando a palavra "grandes".
Fiquei em silêncio, observando a dinâmica. Juliano estava tenso, evitando contato visual com ela. E, embora eu soubesse que ele tinha um passado, aquela visita inesperada me desestabilizou. Porque, pela primeira vez, eu me perguntei: e se ele ainda sentisse algo por ela?
Depois de um almoço desconfortável, Juliano me acompanhou até a varanda. Sentei-me em silêncio, sentindo a tensão apertar meu peito.
— Você tá bem? — ele perguntou, se sentando ao meu lado.
— Só surpresa. Ela sempre aparece assim?
— Nunca. Desde que foi embora, a gente se falava muito pouco.
— E vocês... foram só amigos?
Ele hesitou. Bastou aquele segundo de silêncio para minha mente se encher de suposições.
— Tivemos algo, sim. Mas foi há muito tempo. Acabou de forma natural. Eu segui em frente. Ela também.
— E por que voltou agora?
— Não sei. Ela disse que queria rever alguns amigos, que tava com saudade da fazenda...
Assenti, tentando controlar o incômodo. Não era raiva. Era insegurança. Era a lembrança de todas as vezes em que eu fui deixada para trás. Por Arthur. Pela vida. E agora, o medo de que Juliano pudesse também se afastar.
Ele se aproximou e pegou minha mão.
— Liz, olha pra mim.
Obedeci, ainda com o coração apertado.
— Não existe espaço pra mais ninguém aqui dentro — ele apontou para o próprio peito. — Eu te escolhi. Eu tô com você. E se Lorena tiver outra intenção, ela vai perceber logo que chegou tarde demais.
Aquilo me acalmou. Um pouco. Mas não completamente. Porque algumas feridas, mesmo com amor, ainda ardem quando tocadas.
Naquela noite, não consegui dormir direito. Fiquei pensando na presença de Lorena, no jeito como ela olhava Juliano, como se ainda houvesse algo ali. Mesmo que ele dissesse o contrário, minha mente, traiçoeira, alimentava dúvidas.
No dia seguinte, resolvi ocupar a cabeça. Voltei para as aulas online, revisei anotações, escrevi algumas ideias de como aplicar técnicas sustentáveis na fazenda. E, para minha surpresa, até desenhei um esboço de projeto de hortas comunitárias adaptadas.
No fim da tarde, Juliano veio me chamar para dar uma volta.
— Preparei algo pra você — disse, com um sorriso misterioso.
Ele me levou até um galpão antigo que havia sido reformado. Quando entrou, acendeu as luzes. Meus olhos se arregalaram.
Era uma pequena sala de estudos. Com uma mesa adaptada, estantes com livros de agricultura, administração, e até alguns romances. Tinha um quadro branco, uma cafeteira, uma janela com vista para o pomar.
— Aqui é seu cantinho — ele disse. — Pra estudar, criar, sonhar... o que você quiser.
Fiquei sem palavras. Literalmente. Só consegui sorrir e segurar as lágrimas.
— Você fez isso por mim?
— Claro que sim. Você tá se dedicando tanto. Merece um espaço que seja só seu.
Segurei seu rosto entre minhas mãos e o beijei. Um beijo cheio de emoção, de gratidão, de desejo. Ele me abraçou com força, e naquele abraço havia mais do que carinho. Havia entrega.
— Fica comigo essa noite? — sussurrei.
Ele me olhou, surpreso, os olhos brilhando.
— Tem certeza?
Assenti, com o coração acelerado. — Eu quero você, Juliano. E não é por medo de perder. É porque eu finalmente entendi que te ter ao meu lado me faz forte.
— Como você quiser Elizabeth.
Naquela noite, em meu quarto, não houve pressa. Ele me tocou com cuidado, com respeito, com amor. Cada beijo, cada carícia, era como uma promessa silenciosa. Não importava meu corpo, minhas limitações. Ele me via inteira. Me via mulher. Me via viva.
Depois, deitados lado a lado, entrelaçados, ficamos em silêncio. Apenas ouvindo o som dos grilos, o vento nas folhas. E meu coração, enfim, calmo.
— Eu te amo — ele disse, baixinho, quase como se estivesse testando o som daquelas palavras.
Meus olhos se encheram de lágrimas.
— Eu também te amo, Juliano.
E pela primeira vez, amar não me assustava.