Se alguém me dissesse, há alguns meses, que eu estaria sentada em frente a um notebook, em uma varanda de fazenda, assistindo a uma aula online sobre técnicas de cultivo sustentável, eu teria rido. E muito. Mas ali estava eu, com uma caneca de chá quente ao lado, um caderno no colo e a mente mergulhada em um mundo que, de forma surpreendente, começava a fazer sentido para mim.
Era um curso de introdução à administração rural, com uma abordagem prática sobre gestão de pequenas propriedades agrícolas. Meu pai me ajudou a encontrar o link, e Juliano foi quem teve a ideia de instalar a internet com mais potência perto do meu quarto, para que eu pudesse estudar sem problemas. Eu nunca tinha me imaginado estudando algo tão... rural. Mas quanto mais eu aprendia, mais me sentia conectada àquele lugar.
Não era só sobre plantar e colher. Era sobre construir. Recomeçar. E, principalmente, provar a mim mesma que eu ainda podia ser útil, que minha vida não havia terminado.
— Vai fazer faculdade agora, doutora Elizabeth? — ouvi a voz familiar de Juliano atrás de mim, com aquele tom brincalhão que sempre me fazia sorrir.
— Faculdade não, mas quem sabe uma nova profissão? — respondi, virando a cabeça em sua direção. — Estou gostando mais do que pensei.
— Não duvido. Você tem jeito pra coisa. E cabeça boa. Isso aí é só o começo.
Ele se aproximou, sentando-se na cadeira ao meu lado. Trouxe um pacote com pães de queijo quentinhos — minha nova fraqueza — e colocou sobre a mesa.
— Você sempre aparece com comida quando eu mais preciso — comentei, pegando um.
— Minha avó dizia que alimentar alguém é uma forma de cuidar — respondeu, sério dessa vez. — E eu gosto de cuidar de você, Liz.
Houve uma pausa. Daquelas que dizem tudo. Nossos olhos se encontraram, e eu vi ali o que há dias tentava ignorar: o sentimento crescendo, amadurecendo, se tornando impossível de disfarçar.
— Você me assusta, Juliano — confessei, baixinho. — Porque você me vê. De verdade. E isso me desmonta.
— E eu? Você acha que não tenho medo? — ele respondeu, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Eu fico apavorado de dar um passo em falso, de te machucar, de não ser suficiente pra você.
Meus olhos marejaram. Aquele homem — tão forte aos olhos de todos — carregava inseguranças tão humanas quanto as minhas.
— Você já é suficiente, Juliano. Desde o começo. Foi você quem me puxou do fundo do poço, mesmo quando eu gritava pra te deixarem lá.
Ele tocou minha mão com delicadeza. E, dessa vez, eu não recuei. Deixei que seus dedos entrelaçassem os meus, que seu calor me invadisse, que sua presença me ancorasse.
— Sabe do que mais sinto falta? — murmurei. — De ser tocada sem que alguém tenha pena de mim.
Juliano me olhou, surpreso e tocado ao mesmo tempo.
— Eu nunca te toquei por pena. Nem por obrigação. Sempre foi... por desejo. Por carinho. Por respeito.
— Então me toca de novo — pedi, com a voz embargada. — Mas agora, sem medo.
Ele se aproximou lentamente, como se me pedisse permissão a cada movimento. Quando seus lábios encostaram nos meus, o mundo parou. Não havia dor, cadeira de rodas, feridas abertas. Só havia aquele momento, feito de ternura e desejo contido.
O beijo foi suave, exploratório. Depois, mais profundo, carregado de uma paixão reprimida que, enfim, se permitia existir. Eu me senti viva. Inteira. Mulher. Não importava que minhas pernas não respondessem — meu coração, meu corpo, minha alma, tudo em mim estava desperto.
Quando nos afastamos, ele encostou a testa na minha, ofegante.
— Eu esperaria mais mil dias por esse beijo — disse, num sussurro.
Sorri.
— Não foi preciso.
(...)
Mais tarde, naquela mesma noite, enquanto o céu se cobria de estrelas e o som dos grilos tomava conta da paisagem, eu voltei para o curso. Mas dessa vez, algo era diferente. Eu não estava mais aprendendo apenas por mim. Estava construindo algo. Um futuro. Um lar. E, quem sabe, um projeto que envolvesse também outras mulheres com deficiência. Talvez um dia eu pudesse abrir espaço para que elas também encontrassem suas raízes. Suas forças. Seu recomeço.
Mas, por agora, bastava o calor da lembrança daquele beijo, o som da voz de Juliano dizendo meu nome com ternura, e a certeza de que, mesmo entre feridas, é possível florescer.
Claro! Vamos continuar o Capítulo 14 – Raízes e Sonhos, ainda narrado por Elizabeth, com mais profundidade emocional e aproximadamente mais mil palavras para completar o capítulo com cerca de 2.000 palavras:
Depois daquele beijo, algo dentro de mim mudou. Como se uma parede invisível tivesse se desfeito, libertando partes minhas que estavam aprisionadas há muito tempo — não apenas pela cadeira, mas pelo medo, pela mágoa, pelas cicatrizes da alma que eu fingia não sentir.
Juliano não disse mais nada naquela noite. Apenas me acompanhou de volta ao quarto, empurrando a cadeira com a mesma delicadeza com que me beijou. Quando parou na porta, ele se abaixou e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Boa noite, Liz. Dorme com Deus.
Apenas assenti, incapaz de responder com palavras. Eu estava emocionalmente esgotada, mas não de tristeza — e sim de intensidade. Meu coração batia acelerado, mas pela primeira vez em muito tempo, isso era bom.
(...)
Na manhã seguinte, despertei cedo. O sol ainda se esgueirava pelas frestas da janela, e o som distante dos cavalos no pasto me trouxe uma sensação estranha de pertencimento. Eu não era mais uma estranha ali. Estava aprendendo a fazer parte daquele mundo de novo — e não por obrigação, mas por escolha.
Liguei o notebook, me conectei à aula de administração e passei a anotar cada ponto com atenção redobrada. O professor falava sobre planejamento de safra, controle de estoque, fluxo de caixa. Assuntos que antes pareceriam distantes, agora ganhavam uma importância real, concreta. Eu queria entender. Queria ajudar. Queria, quem sabe, reestruturar a fazenda dos meus pais com ideias modernas.
No fim da aula, peguei o celular e abri um bloco de notas com ideias para um projeto que começava a se formar em minha mente: um programa de capacitação para mulheres com deficiência que quisessem empreender no campo. Eu sabia que ainda estava longe de tornar isso real, mas só o fato de pensar nisso já me dava fôlego.
Quando fechei o notebook, Juliano apareceu na porta com um sorriso no rosto e um buquê improvisado de flores silvestres na mão.
— Bom dia, minha estudante preferida. Trouxe isso pra você.
Não resisti ao riso.
— Onde você arrumou essas flores?
— Atrás do celeiro. Elas estavam lá, sozinhas, no meio do mato. Lindas, mas esquecidas. Me lembraram você — disse, entregando o buquê.
— Esquecida?
— Antes, talvez. Mas agora, florescendo de novo.
Meu sorriso murchou um pouco com a sensibilidade do gesto. Juliano sempre sabia o que dizer, mesmo sem usar muitas palavras. Ele enxergava além da superfície. Me via com os olhos de alguém que amava, não de quem sentia pena. E isso era raro.
— Quer me ajudar a estudar hoje à tarde? — perguntei, querendo estender o tempo ao lado dele. — Tenho um exercício prático sobre manejo de pequenas propriedades.
— Você quer mesmo que eu te ensine algo sobre fazenda? — riu. — Elizabeth Vasconcelos me pedindo ajuda?
— Olha que honra, hein? — retruquei, sorrindo. — Mas sim. Eu quero aprender com você. E não é só isso... eu gosto da sua companhia, Juliano.
Ele se aproximou, devagar. Se ajoelhou ao lado da minha cadeira e colocou as mãos nos apoios, encarando meus olhos.
— Eu também gosto da sua. Mais do que posso explicar. Mas preciso saber se posso continuar — ele hesitou. — Se posso seguir me aproximando sem te machucar.
Respirei fundo.
— Pode. Mas vai ter que ter paciência com meus altos e baixos.
— Eu tenho. E vou ter, pelo tempo que for necessário.
Me aproximei e beijei-o. Foi um beijo tranquilo, sem pressa, mas cheio de promessa. Ali, naquela varanda cercada pelo som do campo, com flores nas mãos e esperança no peito, eu senti que estava construindo algo verdadeiro.
À tarde, sentamos juntos na varanda com cadernos e anotações. Ele me explicava como era feita a organização da lavoura, o cuidado com os animais, o planejamento das épocas de colheita. Eu tomava nota de tudo, encantada com o modo como ele falava — prático, mas cheio de paixão. O amor pela terra transbordava de cada palavra.
— Você fala da fazenda como se fosse parte da sua alma — comentei, admirada.
— É que, de certa forma, é. Eu cresci aqui. E tudo o que sou, devo a esse lugar. Mas agora, parece que tem mais cor com você aqui.
— Eu achava que tinha perdido tudo. Mas, talvez, só tenha encontrado o que realmente importa.
Juliano me olhou com ternura, e eu soube que ele compreendia exatamente o que eu queria dizer.
E assim, entre anotações sobre adubos, planejamento financeiro e sorrisos cúmplices, terminamos o dia. Um dia simples. Mas que, para mim, foi um dos mais significativos desde o acidente.
Talvez a vida não fosse mais como antes. Talvez eu nunca voltasse a andar como antes. Mas, ali, com Juliano, com os livros, os planos, e o coração batendo forte, eu finalmente sentia que estava — de novo — no caminho certo.