Capítulo 12,

1049 Words
Naquela manhã, acordei com a luz dourada do sol atravessando as frestas da cortina. O canto dos pássaros me saudava, como se o dia me pertencesse de alguma maneira. Era estranho como, aos poucos, a fazenda começava a parecer menos como um exílio e mais como um lugar onde eu poderia me reinventar. Eu ainda sentia medo, claro. Ainda chorava em silêncio quando ninguém via. Mas, de algum jeito, havia uma esperança tímida florescendo dentro de mim. E eu sabia — Juliano era parte disso. Depois do café da manhã, ele apareceu na porta da casa, com aquele chapéu surrado na cabeça e o olhar calmo de sempre. — Quer dar uma volta comigo? — perguntou, sorrindo. — A cavalo? — brinquei, arqueando uma sobrancelha. — Ainda não. Mas quem sabe um dia? Hoje só pensei em te levar até o lago. É tranquilo, e tem uma sombra boa pra conversarmos. Assenti, animada. Já não precisava inventar desculpas para passar tempo com ele. Meus pais trocaram um olhar cúmplice ao nos verem sair juntos, e, por um segundo, senti uma pontada de receio. Estaria me expondo demais? Dando esperança demais? Mas afastei o pensamento. Eu não queria mais viver paralisada — não só fisicamente, mas emocionalmente também. Juliano empurrou minha cadeira com cuidado pela trilha de cascalho. A cada curva, ele fazia comentários sobre as árvores, os pássaros, o tempo — como se aquele simples passeio fosse um ritual de reconexão com o mundo. — Aqui é meu lugar favorito — disse, quando finalmente chegamos ao lago. A água refletia o céu, tão límpida que parecia mágica. Havia uma grande árvore na margem, com raízes que pareciam abraçar a terra, e Juliano ajeitou minha cadeira ali, na sombra fresca. — Quando tudo desandava, era aqui que eu vinha. Pra pensar. Pra respirar. — E agora? Ainda vem? Ele me olhou de lado. — Agora, venho quando quero dividir isso com alguém especial. Minhas bochechas arderam, e desviei o olhar. O silêncio que se instalou entre nós não era desconfortável, mas carregado de expectativa. — Eu estava pensando ontem à noite — comecei, depois de alguns minutos. — Em como a gente nunca para pra se conhecer de verdade enquanto está tudo bem. É só quando o chão desaparece que percebemos quem somos. Juliano assentiu, sério. — Quando perdi tudo, me vi no espelho e me odiei. Me achei fraco. Ingênuo. Eu me prendi à ideia de que homem de verdade não sofre, não chora. Bobeira. — Eu me prendi à ideia de que minha beleza era tudo o que eu tinha — confessei, sentindo um nó na garganta. — Que meu valor estava na imagem que os outros viam. Quando ela desapareceu, eu achei que não sobrava mais nada. Ele se abaixou diante de mim, tocando de leve minha perna coberta pela manta de algodão. — A beleza ainda está aí, Liz. Só mudou de lugar. Agora ela brilha nos seus olhos quando você fala com paixão. Nos seus sorrisos tímidos. Na força que você tem pra levantar da cama todos os dias, mesmo com dor. Fechei os olhos, sentindo as lágrimas se formarem. Não chorei. Apenas absorvi. — Eu tenho medo de me apegar a você, Juliano. — Por quê? — Porque você é luz. E eu ainda tenho muita escuridão dentro de mim. Ele sorriu, tocando meu rosto com a ponta dos dedos. — Sabe o que eu acho? Que a gente não precisa estar inteiro pra amar. A gente só precisa estar disposto. E eu tô. Se você também estiver, mesmo que devagar, mesmo que doído... eu tô aqui. A emoção me pegou de surpresa. Engoli em seco, tentando organizar a avalanche de sentimentos. Tudo em mim gritava que eu devia me proteger, levantar muros, me manter distante. Mas havia algo nele — uma honestidade que desmontava minhas defesas. — Você não imagina o quanto essas palavras significam pra mim — murmurei. — Eu passo tanto tempo fingindo força que às vezes esqueço que posso ser frágil também. — E ser frágil não é fraqueza — ele completou, como se lesse meus pensamentos. — É humano. Ficamos ali por horas. Falamos da vida, da infância, dos sonhos. Ele me contou sobre o avô que o criou, sobre o medo que sentia de perder as pessoas que ama. Eu falei sobre as passarelas, sobre os bastidores cruéis do mundo da moda, onde ninguém se importava com a alma — só com a aparência. Pela primeira vez, abri o coração sem me sentir julgada. E ali, naquele cenário bucólico, sob a árvore centenária, algo dentro de mim mudou. Como se os laços entre nós se estreitassem, não com promessas vazias, mas com presença. Com verdade. Ao voltarmos para casa, senti uma leve exaustão no corpo — não pelos exercícios físicos, mas pela intensidade emocional do dia. Ainda assim, sorri. Me sentia viva. Mais viva do que em muito tempo. Na varanda, minha mãe nos esperava com um bolo de milho recém-saído do forno e suco de caju. O cheiro me fez lembrar da infância, das tardes em que corria por ali descalça, sem me preocupar com a próxima sessão de fotos ou com o número da balança. Juliano cortou o bolo para mim, e minha mãe observou, sorrindo de canto. — Acho que faz tempo que não vejo você tão bem, minha filha — disse ela, acariciando meu ombro. — Eu também não, mãe — respondi, com sinceridade. Ela se afastou, deixando-nos a sós. Juliano se sentou ao meu lado, observando o pôr do sol que tingia o céu de laranja. — Sabe — ele começou — tem uma coisa que eu queria te mostrar amanhã, se você topar. — O quê? — Surpresa. Mas envolve coragem. — E você acha que eu sou corajosa? — Acho que você é a mulher mais corajosa que eu já conheci. Sorri, levando o copo de suco aos lábios. — Então estou dentro. Naquela noite, demorei a dormir. Revivia cada palavra, cada olhar. E sentia algo crescer dentro de mim. Algo que eu tinha esquecido que existia: esperança. Não pela cura completa, não por milagres. Mas pela chance de recomeçar, mesmo com as cicatrizes. Mesmo com meus medos. Eu não estava mais sozinha no processo. E isso fazia toda a diferença.
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