A mão de Juliano era quente. Firme. E havia algo naquele toque que me ancorava, como se ele dissesse, sem palavras, que eu podia parar de lutar contra o mundo e, principalmente, contra mim mesma. Não era piedade. Nunca foi. Juliano me olhava como se visse além do que eu tinha perdido. Como se, apesar de tudo, eu ainda fosse suficiente. O eu achava que não era.
Passamos a tarde sentados na varanda, observando os cavalos pastando ao longe. O céu estava limpo, o vento carregava o cheiro da terra molhada pela chuva da noite anterior, e pela primeira vez desde que cheguei ali, eu me permiti sentir... paz. Não aquela paz fria da resignação, mas uma calma morna, quase doce. De quem, talvez, começou a se encontrar novamente.
— Quando cheguei aqui — disse ele, após um longo silêncio — eu também estava quebrado.
Me virei para ele, surpresa. Juliano não era de falar sobre si. Era reservado, quase misterioso. Mas naquele instante, havia uma vulnerabilidade em sua voz que me fez prestar atenção.
— Quebrado? — repeti, baixinho.
Ele assentiu, os olhos ainda voltados para o campo.
— Eu tinha vinte e seis anos. Trabalhava como ajudante em uma fazenda no sul do estado. Era apaixonado por uma moça da cidadezinha onde cresci. A gente cresceu junto, sabe? Daquelas histórias que todo mundo achava que ia terminar em casamento.
Um sorriso triste cruzou seu rosto.
— Mas a vida... tem seus próprios planos. Ela engravidou. E eu achei que era o pai. Fiquei feliz. Queria formar uma família, dar tudo de mim. Fiz promessas, planos... E ela me fez acreditar que eram os mesmos dela também.
— E não eram?
Ele virou o rosto para mim então, e pela primeira vez vi uma sombra de dor profunda em seus olhos castanhos.
— O filho não era meu, Liz.
Senti um aperto no peito.
— Ela me enganou por meses. E quando descobri... foi como se tudo desabasse. Perdi a confiança nas pessoas. Me afastei da cidade, da minha família, de tudo. Vim parar aqui porque precisava começar de novo. Recomeçar do zero, mesmo sem saber por onde.
Me calei por um instante, absorvendo suas palavras. Era estranho — e doloroso — perceber que aquele homem que sempre parecia tão firme também carregava cicatrizes.
— Você ficou com raiva? — perguntei.
— Muito. Mas depois... veio a culpa. Por ter acreditado tanto. Por ter ignorado os sinais. E a vergonha... essa foi a pior.
Assenti lentamente, compreendendo cada palavra. Também carregava minha cota de vergonha. Pela cegueira com Arthur. Pela minha arrogância, pela recusa em aceitar ajuda quando mais precisei. Pela forma como afastei as pessoas que mais me queriam bem.
— Eu te entendo — murmurei. — Talvez mais do que você imagina.
Ele me olhou de novo, e seu olhar era caloroso, compreensivo.
— A dor muda a gente, Liz. Mas também mostra quem somos de verdade.
— E quem você acha que eu sou?
Juliano sorriu, inclinando-se um pouco mais na cadeira.
— Alguém que está descobrindo isso agora. Alguém que caiu feio, mas está tentando levantar. E isso... é mais corajoso do que qualquer desfile sobre um salto alto.
As lágrimas vieram antes que eu pudesse contê-las. Não de tristeza, mas de alívio. Porque, pela primeira vez, me senti vista. Não como uma vítima, não como uma ex-modelo destruída. Mas como uma mulher real, com forças e fragilidades.
— Eu quero tentar, Juliano. Não só a fisioterapia, mas tudo. Quero tentar viver de verdade de novo. Mas tenho medo... de decepcionar, de não ser suficiente.
Ele estendeu a mão outra vez, e dessa vez eu a segurei com convicção.
— Não existe “ser suficiente”, Liz. Você só precisa ser você. Com sua verdade, com seus erros, com sua coragem.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, as mãos entrelaçadas. Um silêncio confortável, como se nossos corações conversassem em um idioma que não exigia palavras.
— E quanto a ela? — perguntei, num sussurro. — A mulher que te machucou. Você... perdoou?
Juliano pareceu ponderar por alguns segundos.
— Eu precisei perdoar. Não por ela. Mas por mim. Porque enquanto eu alimentava o rancor, era como beber veneno e esperar que ela morresse. A dor só me prendia mais ao passado. Quando soltei, consegui seguir em frente.
Respirei fundo. Perdoar. Uma palavra que parecia tão distante e, ao mesmo tempo, necessária. Eu ainda carregava Arthur como uma sombra. Não só pelo que ele fez, mas pelo que eu permiti que ele representasse por tanto tempo. Um reflexo da minha própria vaidade, da ilusão de controle que eu acreditava ter sobre a vida.
Talvez fosse hora de começar esse processo também.
Na manhã seguinte, voltei à fisioterapia com mais garra. Rafael ficou surpreso com minha disposição, e confesso que eu mesma também. Conseguir mover o pé foi como acender uma fagulha. Agora eu queria mais. Queria descobrir o quanto ainda podia conquistar.
Durante os exercícios, Juliano apareceu na porta, recostado no batente, observando sem interromper. Nosso olhar se encontrou, e ele sorriu. Aquele tipo de sorriso que fazia meu peito aquecer.
Não era um sorriso de aplauso. Era um sorriso de apoio. De parceria.
No fim da sessão, quando me aproximei dele, ele se inclinou e sussurrou:
— Orgulho é pouco, Liz.
Senti minhas bochechas corarem. Ainda não sabia bem o que éramos. Amigos? Algo mais? Mas, por enquanto, bastava saber que ele estava ao meu lado.
Naquela noite, após o jantar, caminhei — ou melhor, rolei — até a varanda novamente. O céu estava estrelado, e a brisa carregava o cheiro de lavanda que minha mãe plantava perto da cerca.
Juliano apareceu minutos depois, trazendo dois copos com chá.
— Camomila, pra acalmar o coração — disse, entregando um para mim.
Sorri, aceitando o gesto. Ficamos ali, lado a lado, ouvindo os grilos, o vento, a noite.
— Eu acho que estou me apaixonando — murmurei, quase para mim mesma.
Ele não respondeu de imediato. Apenas se virou devagar e me olhou, com aquele olhar que parecia despir a alma.
— Eu estou — ele respondeu. — Desde o primeiro dia em que você chegou aqui com aquele olhar de quem queria engolir o mundo só pra não sentir nada.
Fiquei sem palavras. E, pela primeira vez em muito tempo, isso não me assustou. Porque estar sem palavras ao lado de Juliano era diferente. Era leve.
— A gente pode ir devagar? — perguntei, hesitante. — Um passo de cada vez?
Ele riu, baixinho.
— Do jeito que você quiser, Liz. Do seu tempo, do seu modo. Eu só quero estar aqui quando você der o próximo passo. E o seguinte. E todos os outros.
Encostei minha cabeça no ombro dele. Fechei os olhos.
Talvez eu ainda estivesse longe de estar inteira. Mas agora... pela primeira vez, eu acreditava que podia chegar lá.
E, no fundo, eu sabia: Juliano não veio pra consertar minhas pernas. Ele veio pra lembrar o quanto meu coração ainda podia caminhar.