capitulo 2

1164 Words
Ramos é o tipo de informante barato, o X9 de quinta categoria que acredita que o dinheiro vai durar mais que a própria vida. O o****o foi pego com as mensagens ainda quentes no Telegram, negociando a entrega do nosso armazém. E se tem uma coisa que eu tenho um asco visceral, é de rato que quer ganhar em cima do meu suor e da segurança do meu bonde. As mãos dele tão presas atrás das costas com aqueles lacres de plástico industriais que já morderam a carne e deixaram os dedos dele roxos, sem circulação. O rosto tá banhado num suor frio que escorre e se mistura com a poeira e o óleo do chão onde ele foi arrastado sem dó. Ele tenta manter os ombros erguidos, tenta uma dignidade de fachada que ele nunca teve, mas os olhos... p***a, os olhos entregam a alma podre. Quem vive de mentira não aguenta sustentar o olhar de quem é a própria verdade brutal. Ele tá hiperventilando, o peito subindo e descendo num ritmo frenético, sabendo que a sentença já foi dada no momento em que ele encostou o dedo naquele teclado. Me aproximo sem pressa, o som das minhas botas riscando o concreto áspero é o único barulho que preenche o pátio, tipo um cronômetro avisando que o tempo da graça acabou. A minha faca de combate tá na bainha na cintura, o aço escuro esperando o momento de ser batizado no sangue morno. O ar ali fica tão denso que parece que a gente tá respirando óleo diesel puro. Todo mundo sabe: hoje não é só uma execução de rotina. Hoje é uma aula magna sobre o que acontece com quem tenta brincar de ser esperto no meu morro. — Quem te pagou, Ramos? — pergunto, a voz saindo baixa, quase um sussurro que corta mais que navalha nova em pele de bebê. — Ninguém... Feroz... eu juro por tudo que é mais sagrado... eu só me confundi... me deram uma ideia errada... — ele tenta, a voz falhando, as cordas vocais secas de tanto pavor, saindo aquele som arranhado de quem já tá com o pé na cova. Estalo a língua contra o céu da boca, num som que ecoa igual um estalo de chicote. — Primeira mentira, verme. Tu jura pelo que não tem. Santidade não entra nesse pátio. Tu traiu a família, vendeu o mapa da mina pros alemão do g**o e ainda quer meter esse caô de crente? Eu vou te ensinar que aqui o papo é reto e o castigo é torto. Faço um sinal curto, só um balançar de queixo. O Tuca arrasta uma cadeira de metal pesado, toda remendada de solda, e bate ela no chão com um estrondo metálico que reverbera nas paredes de zinco do galpão, soando como uma sentença de morte definitiva. Eles levantam o Ramos pelos sovacos e sentam ele no ferro frio, passando mais lacres pelo peito e pelos tornozelos, prendendo o infeliz na estrutura de forma que ele não consiga nem mexer o tronco. O pátio mergulha naquele silêncio de igreja em dia de enterro aquele silêncio grosso, pesado, carregado de um respeito que beira o pavor religioso. Começo pelo básico, porque eu gosto de ver o desespero criando raiz no olho do cara. Puxo um alicate de pressão da caixa de ferramentas enferrujada. Um objeto banal que qualquer pedreiro usa, mas na minha mão ele vira um instrumento de desconstrução humana. Pego a mão direita dele, os dedos trêmulos tentando desesperadamente escapar do meu aperto. Puxo o dedo médio, expondo a unha sob a luz fria e amarela dos faróis. — Sabe o que eu aprecio, Ramos? — falo bem perto do ouvido dele, sentindo o cheiro de medo azedo que emana de cada poro do corpo dele. — Gosto de começar devagar. Com a dor pequena, aquela que a mente tenta processar enquanto o o****o ainda tem um pingo de esperança de que vai sair daqui com vida. Tu achou que ia ficar rico às custas dos meus soldados? Tu achou que eu era o****o? Aperto o alicate na base da unha, sentindo a resistência do osso e da carne. O som do metal esmagando a queratina é seco, um "creck" que dá pra ouvir de longe. A unha estala, racha no meio e o sangue escuro brota instantaneamente, escorrendo pelos meus dedos. O Ramos range os dentes, um som animal escapando pela garganta, mas o grito ainda tá preso naquele resto de orgulho de merda. — Respeito é algo que se conquista com lealdade, Ramos. Não é mercadoria de feira. — digo, e com um movimento brusco, eu giro o alicate e puxo o dedo inteiro pra trás, quebrando a articulação. O estalo do osso rompendo ecoa igual um tiro de .38 no pátio. Aí ele desabou. O grito explodiu, agudo, dilacerando a madrugada e batendo nas paredes do galpão antes de se perder no vazio do morro. As lágrimas agora descem sem controle, lavando o sangue e a poeira que tavam na cara dele. Ele tá soluçando, o corpo todo tremendo na cadeira de metal. — Isso aqui é só o prólogo da tua agonia, seu rato. — murmuro, limpando o sangue do alicate na camisa social que ele comprou com o dinheiro da traição. — A verdadeira dor começa quando você percebe que a morte já tá sentada ali no canto, só esperando eu dar o sinal, mas eu não vou deixar ela te levar agora. Eu ainda tenho perguntas. No Império, X9 não morre de graça, ele paga com juros e correção monetária na carne. Pego o segundo dedo. O indicador. Aquele que ele usou pra digitar a morte do nosso bonde. Repito o processo com uma calma metódica, quase artística, como se eu tivesse esculpindo uma estátua de dor. O estalo do osso de novo, seguido por um urro ainda mais rouco, um som de quem já perdeu a humanidade. Ele tenta articular palavras, mas a dor é uma barreira intransponível que cega o raciocínio. Eu enfio o alicate na boca dele, puxando o lábio inferior até quase rasgar. — Fala logo, seu merda. Quem comprou o teu caráter de centavo? Foi o g**o ou foi alguém de dentro querendo fazer média? Eu não tenho a noite toda e o André ali já tá com o galão de gasolina no gatilho. Tu quer morrer como um homem ou quer virar churrasco de covarde? — Foi... foi o pessoal do Galo... — ele tosse, cuspindo uma saliva espessa, misturada com sangue e bile. — Eles disseram que o Império tava fraco... que tu tava perdendo a mão... disseram que iam me dar cobertura... me prometeram dez mil pra cada carga que eu entregasse... perdão, Feroz... pelo amor de Deus... Eu dou um soco seco no estômago dele, bem no plexo solar, fazendo o ar sumir dos pulmões dele num instante. Ele se dobra o quanto os lacres permitem, arquejando como um peixe fora d'água.
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