capitulo 5 Lorenzo

986 Words
O quarto respirava em penumbra, só o abajur cansado mantinha o mundo de pé, projetando sombras que pareciam carrascos esperando o sinal. Cortinas pesadas de veludo rubro abafavam o som da chuva fina que batia no mármore do peitoril, e aquele cheiro conhecido da casa impregnava tudo: remédio esterilizado, conhaque envelhecido, couro antigo e o bafo metálico da morte. O gosto do veneno estava na minha língua um amargor persistente, gentil como um hóspede educado que entrou sem bater e decidiu que a casa agora era dele. Anos cheirando mentira em banquetes de gala me ensinaram a reconhecer a Dona Morte pelo passo; ela já estava na sala ao lado, ajeitando o vestido e esperando eu parar de lutar. Passei a vida inteira equilibrando a lealdade numa mão e o punhal na outra; sobrevivi ao caos porque aprendi a contar as respirações de quem sentava à minha mesa. Mas desta vez, o golpe veio de dentro da armadura. Não foi um estranho no escuro de um beco. Foi uma mão que eu apertei com confiança, um riso que dividiu o peso da minha história, um brinde que tilintou com o meu sob a luz de candelabros de ouro. O veneno andava comigo há semanas, discreto como um pecado de domingo; fez ninho no meu sangue, corrompeu minhas vísceras e agora cobrava o aluguel final com juros de agonia. A porta de carvalho maciço abriu sem um rangido. Kyra entrou. Meu maior orgulho caminhando com passos de pantera. Olhos que não apenas veem, mas pesam a alma e medem o perigo; gesto preciso, postura reta de quem nasceu com uma coroa invisível, mas pesada. Ela carrega o sobrenome Volkov como se fosse uma arma carregada e destravada. Foi criada com aço temperado, não com açúcar de salão. Sabe desmontar uma Glock em dez segundos de olhos fechados e desconfiar da própria sombra de olhos abertos. — Papai… — ela disse, a voz firme como uma corda de piano esticada ao limite. Controle absoluto. Só eu, que a esculpi no gelo, conseguia ouvir o tremor da tensão que ela lutava para esconder sob a pele pálida. Convidei a dor lancinante a sentar no canto e sorri, um movimento que rasgou meus lábios ressecados. — Kyra, você conhece a primeira regra do nosso mundo: a mesa muda, os jogadores mudam, o jogo muda... mas a lei? A lei é imutável. — A palavra “lei” saiu gélida, cortando o ar como um cutelo de açougueiro em carne fresca. — Lealdade é a única moeda que não desvaloriza. Traição... traição é sentença de morte escrita com chumbo grosso e assinada no inferno. Ela se aproximou, o farfalhar do seu casaco de couro ecoando como um aviso, e ajoelhou-se ao lado da minha cama. Minha mão trêmula, já perdendo o calor da vida e ganhando o cinza do necrotério, pousou sobre a dela. Quente. Pulsante. Viva. Ainda brilha o futuro do meu império quando a pele dela encosta na minha. — Fui envenenado, Kyra. — disse, sem teatro, sem as firulas patéticas que os covardes usam para mascarar o inevitável. — Não foi um ataque de fora. Foi o veneno dos ratos que eu alimentei com a minha própria mão, no meu próprio banquete. O relógio encurtou, e a areia da minha vida tá fugindo entre os dedos, tingida de sangue. Os olhos dela afiaram instantaneamente, duas lâminas de obsidiana. Nenhuma lágrima ousou cair. Uma Volkov não molha o chão com choro inútil — ela seca o campo de batalha no ódio puro e na sede de retaliação. — Quem? — perguntou, a voz saindo baixa, seca, como um tiro de silenciador disparado no meio da missa. — Calma pequena mafiosa— respondi, rindo curto, um som rouco que arranhou meu pulmão destruído — aquele que observa das sombras, que me viu construir esse castelo de ossos e quis herdar a coroa sem ter o culhão de carregar o peso do cetro. Não vou te dar nomes hoje, minha filha. Nomes limitariam sua caçada, e eu quero que você queime o jardim inteiro para achar a cobra. Vou te dar as ferramentas para triturar cada osso de quem pensou que eu estava vulnerável. Ela assentiu com uma frieza que me deu orgulho. Sabia que, se eu retive a informação, é porque o mistério é a sua maior armadura agora. Arma sem mira é só barulho para assustar passarinho; eu estava calibrando a visão dela. — Você vai procurar o Heitor. — falei tão baixo que o som parecia vir do chão. — Heitor, o "Feroz". Lá no Rio de Janeiro, no Complexo do Império, a palavra daquele homem vira decreto divino antes mesmo de sair da boca. Ele entende o preço da honra, sabe cobrar dívidas com juros de dor e sabe pagar favores com sangue. Se eu cair, ele é a muralha de concreto, aço e fuzil que vai te manter viva até que a sua vingança tenha pernas e garras para caminhar sozinha. Ela não gostou da ideia de depender de uma sombra estrangeira reconheci a curva da mandíbula travando, aquele vício de predador que ela herdou de mim. É minha herdeira, p***a. Sangue do meu sangue, gelo do meu gelo. — Papai, confiar em um senhor da guerra de morro brasileiro— — Confiar é um verbo proibitivo e caro, Kyra, — cortei, sentindo o veneno dar mais uma mordida profunda no meu esterno. — Hoje você não investe em confiança, investe em resultado bruto. Heitor não ama, não faz promessas de cavaleiro, não falha. Ele vai te proteger porque isso expande o poder dele. E porque ele me deve um acerto antigo, uma dívida de vida que nem o tempo e nem a distância conseguiram prescrever. Tirei o anel do meu dedo: ouro maciço, o brasão dos Volkov um lobo de três cabeças cravado no rubi escuro como vinho velho, manchado por décadas de decisões sangrentas.
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