capitulo 4 Feroz

2105 Words
O celular no meu bolso vibra com uma insistência metálica que corta o clima de morte, aquela vibração desgraçada que parece um aviso do inferno vibrando direto na minha coxa. Número internacional no visor: +7 (Rússia). Um prefixo que eu não via há mais de dez anos, desde que eu era um moleque de rua com a cara suja de fuligem, a barriga roncando de fome e os olhos brilhando com a vontade doentia de ser o dono dessa p***a toda. Atendo. O meu silêncio é uma arma engatilhada, um vácuo de ódio esperando o outro lado dar o primeiro passo pra eu saber exatamente onde enfiar a faca. — Heitor "Feroz". — a voz vem pesada, carregada de um sotaque que cheira a gelo, pólvora e vodka barata, mas com aquela autoridade de quem já comandou exércitos e derrubou governos sem tremer o dedo. — Aqui é Don Volkov. — Prossiga, seu gringo de merda. — respondo, a voz gélida como o aço da minha Glock, sem demonstrar nem um pingo de surpresa ou qualquer emoção de bicha. No Império, eu não me curvo nem pra fantasma do passado, nem pra dono de máfia estrangeira que acha que o dinheiro compra o meu respeito. — Tenho um Pacto de Ferro com o seu passado, Heitor. Uma dívida que o tempo não apagou e que o sangue não lavou. Minha filha única, Kyra Volkov, está em perigo mortal. Os traidores do meu próprio conselho estão caçando a cabeça dela em Moscou. Quero ela sob sua proteção no seu morro. Quero ela intocável. Mate quem for preciso, queime a p***a da cidade se for necessário, mas mantenha ela viva até eu resolver as coisas aqui. Eu solto um riso nasal, seco, olhando para o sangue de Ramos que ainda escorre pelo concreto, formando poças escuras e nojentas entre as rachaduras do pátio, parecendo um mapa do inferno. O corpo do traidor m*l esfriou, a carne ainda tá soltando aquele cheiro podre de medo e bosta, e o destino já resolveu me jogar outra bucha explosiva no tabuleiro. — E se eu decidir que não quero essa responsabilidade e essa p**a gigante no meu colo, Volkov? — devolvo, cada palavra pesando como chumbo grosso de doze. — O meu morro não é p***a de hotel pra herdeira de máfia brincar de se esconder, tirar foto pra rede social e cheirar pó de luxo. Aqui o sistema é bruto, o papo é reto e o castigo é um balaço no meio do crânio. Eu não sou babá de princesa, eu sou o dono da p***a toda. O silêncio do outro lado é uma batalha de vontades, o som da respiração pesada do velho vindo lá da neve. Sinto o velho apertando o telefone lá na Rússia, buscando fôlego no meio da traição que ele tá vivendo. — Heitor... você conhece o peso da palavra empenhada. Você sabe que me deve a vida e o nome que tem hoje. Se não fosse por mim, você ainda seria cinza em alguma vala comum, sendo comido por bicho e esquecido por Deus. — Eu não devo a p***a da minha vida a ninguém, seu gringo do c*****o. — respondo, a voz endurecendo num tom que faz o André travar o fuzil e o Pingo recuar dois passos, sentindo a pressão do meu ódio. — Quem pisa no meu morro paga pedágio com a alma. Se você acha que pode me dar ordens como se eu ainda fosse o moleque miserável e faminto que você conheceu, vai aprender rápido que aqui o trono é meu e a coroa é de fuzil. No Império, eu não sou funcionário de nenhum arrombado lá de fora. Eu sou a p***a da lei, o juiz que condena e o carrasco que executa sem dó. Ele percebe que o tom mudou, que o cachorro que ele criou virou um lobo alfa com sede de sangue e os dentes afiados, e recua um passo na retórica, a voz ficando mais urgente, quase desesperada, como se o gelo de Moscou tivesse começando a derreter: — Cuidado com a arrogância, Feroz. Você pode ser o rei desse morro de tijolo, mas o mundo lá fora é muito maior que esse labirinto de zinco e barro... se eles pegarem a Kyra, eles vêm atrás de você também. Eles não brincam, Heitor. Eles trituram quem tá no caminho. — Fora do Império, o mundo é apenas um campo de caça pra mim, e eu sou o predador no topo da cadeia. — corto seco, sem paciência pra essa ladainha de vovô mafioso cansado. — Eu não peço licença pra entrar em lugar nenhum, e muito menos pra estourar o miolo de quem tenta cruzar a minha linha. Puxo um cigarro do maço no bolso da calça cargo e o acendo com o isqueiro Zippo, a chama iluminando por um segundo o sangue seco no meu braço, a cicatriz na minha cara que conta a minha história e o olhar de quem já morreu por dentro e só esqueceu de fechar a tampa do caixão. O André me observa de canto, com o dedo coçando no gatilho, atento a cada vírgula dessa treta internacional. — Escuta bem aqui, russo. — digo entre uma tragada longa e outra, soltando a fumaça cinza pro vento que agora sopra com força do oceano, trazendo o cheiro do sal e do asfalto quente. — Se a tua filha pisar no meu território, se ela cruzar a fronteira da minha favela, ela deixa de pertencer a você e ao seu mundo de luxo, seda e frescura. Ela vira minha responsabilidade e minha propriedade. Isso significa que quem encostar nela, tá declarando guerra direta ao Feroz. E eu não envio diplomata com cartinha de repúdio; eu envio o meu bonde pra varrer o mapa e não deixar nem o pó dos ossos desses filhos da p**a. Mas entenda o seguinte: se ela vier pra cá, ela vai seguir as MINHAS regras, vai comer a lavagem que eu mandar e vai dormir onde eu decidir. No meu morro, não existe princesa russa. Existe carne nova tentando não virar estatística no necrotério. Se ela não aguentar o tranco, o barulho do fuzil e o cheiro de pólvora, o problema é dela. Se ela chorar, eu mesmo dou um motivo pra ela gritar de verdade até perder a voz. O velho respira fundo do outro lado da linha, um som de resignação de quem sabe que entregou a própria filha pro único desgraçado no planeta capaz de mantê-la viva, mas também pro psicopata mais perigoso e vulgar que já sentou num trono de concreto. — É por isso que liguei pra você, Heitor. Porque eu sei que, apesar de tudo, você não recua nem se o d***o aparecer na tua frente pedindo arrego. Proteja a Kyra. O pagamento será o que você quiser, ouro, sangue ou o poder que você nem imagina que existe. Olho para o céu n***o, onde as nuvens escondem qualquer rastro de estrela ou esperança, apenas o reflexo das luzes da cidade lá embaixo, que eu pretendo engolir viva. Kyra Volkov. Uma herdeira de sangue estrangeiro, marcada pra ser fatiada por gente poderosa, vindo se esconder no coração da favela mais sangrenta do Rio. Mais um nome pra minha lista de problemas. Mais um jogo de vida ou morte onde eu sou o dono do cassino e as cartas tão todas marcadas com chumbo grosso. — Então que essa russa venha logo pra esse inferno. — finalizo, a voz soando como um veredito final e sem volta, um decreto de guerra que faz o ar em volta ficar pesado. — Mas avise a ela o seguinte: a partir do momento que ela passar pelo meu portão principal, a vida dela é minha. E aqui no morro, a minha lei é escrita com o sangue de cada filho da p**a que ousa respirar sem a minha permissão. Se ela vacilar, se ela tentar dar uma de espertinha, eu mesmo despacho ela de volta pro teu colo dentro de um saco preto costurado com arame farpado. A linha cai com um estalo seco, deixando aquele zumbido maldito no ouvido. O zumbido é a única resposta no meio do pátio onde o corpo do Ramos ainda decora o chão com o seu próprio interior espalhado. Puxo o cigarro uma última vez, sentindo o veneno da nicotina me deixando mais lúcido que nunca, e jogo a bituca no meio da poça de sangue e merda que sobrou do traidor. Encaro o André nos olhos, o brilho da loucura e do poder dançando nas minhas pupilas como brasas no inferno. — O tabuleiro mudou de figura, parceiro. — digo, ajeitando o meu boné e sentindo a adrenalina de uma nova guerra começando a ferver nas minhas veias igual lava. — O morro vai ficar pequeno pra tanta ambição. Agora temos sangue russo vindo se misturar com o nosso chumbo brasileiro. Avisa o bonde todo: quem tiver com o cu na mão, quem tiver com medinho de gringo, que peça pra sair agora, porque amanhã o Complexo do Império vai virar o epicentro do apocalipse. A caçada começou, e eu tô com uma vontade doentia de ver o mundo queimar até virar cinza. André apenas assente com a cabeça, o rosto de mármore, a mão firme no fuzil, pronto pra descarregar o ódio na direção que eu apontar. Ele sabe, assim como eu, que quando o Feroz decide que algo é dele, ninguém no mundo tem culhão pra tirar. A guerra agora cruzou o oceano, e eu sou o anfitrião dessa carnificina internacional. Vou mostrar pra essa tal de Kyra que o gelo de Moscou não é nada perto do calor do meu inferno particular. Vou quebrar essa princesa no meio se ela pensar que o meu morro é playground de luxo. Olho pro corpo do Ramos uma última vez, aquele monte de carne inútil. — Limpa essa porcaria aí, Pingo. — ordeno, chutando a cabeça do traidor pra longe com um nojo visceral. — Quero o pátio limpo de sujeira de rato. Temos visita internacional chegando e eu quero que ela sinta o cheiro de limpeza... ou de sangue novo. Tanto faz. O que vier, a gente tritura. Eu subo a viela com o passo firme, cada pisada minha sendo um aviso pro Complexo: o dono tá com fome, e a próxima refeição vem da Rússia. Quem tentar se meter no meu caminho vai virar carvão antes de conseguir pedir perdão. Porque aqui, no topo do Império, a misericórdia foi fuzilada faz tempo e eu enterrei o corpo num lugar que ninguém vai achar. Se prepara, Kyra. O teu castelo de gelo caiu e o teu novo rei é um demônio de boné, tatuagem de espinho e fuzil no peito. O morro não perdoa vacilo, e eu muito menos. Vou fazer dessa gringa a minha sombra, ou o meu troféu de guerra. De qualquer jeito, ela vai aprender que o Rio de Janeiro não é pra amadores, e o Complexo do Império é o estômago do inferno que digere qualquer um. E eu? Eu sou a p***a do capeta que manda no fogo. Amanhã a pista vai ficar pequena pra nós, e o g**o que se cuide, porque agora eu tenho mais um motivo pra transformar o setor dele num cemitério a céu aberto. A diversão tá só começando, e eu já sinto o gosto metálico da vitória misturado com a promessa de um m******e inesquecível. Se o mundo quer guerra, eu vou dar um genocídio. Aqui é o Feroz, p***a! E no meu reino, até o d***o tem que pedir licença pra passar se não quiser levar um tiro na cara! Eu sinto o poder vibrando em cada beco, em cada laje. Essa gringa vai entrar no meu mundo e eu vou mostrar pra ela o que é a dor de verdade, o que é o medo que faz o cara perder o controle do próprio corpo. Se o pai dela acha que mandou ela pro paraíso, ele se enganou feio. Mandou ela pro matadouro, e eu sou o dono da faca. A cada passo que eu dou subindo esse morro, eu sinto que o destino tá preparando um banquete de sangue, e eu sou o convidado de honra. Kyra Volkov, você não tem noção de onde se meteu. No meu Império, o sol não brilha, ele queima. E eu vou queimar cada vestígio dessa tua vida de princesa até não sobrar nada além de submissão ou morte. O jogo começou, e eu já dei o xeque-mate antes dela pisar no aeroporto.
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