— Chave um. — Coloquei o anel na palma dela, fechando os dedos dela sobre o metal frio. — Cofre Salazar 7, Armazém 3. Documentos falsos, dinheiro limpo o suficiente para comprar um exército pequeno, passaportes e as rotas de fuga que eu tracei no silêncio. Ali tá a tua sobrevivência comprada com a minha alma.
Puxei da gaveta um envelope pardo, lacrado com cera vermelha que parecia sangue coagulado.
— Chave dois. — Entreguei. — Contas-ponte e as localizações de casas frias espalhadas pela Europa e América Latina. Não confia no que tá escrito nos endereços: confia apenas na frase que está gravada no selo.
Ela leu, a voz sussurrando a herança que carregaria como um fardo de chumbo: “Pacto de Ferro.”
— É a senha. Quando você encarar o Feroz, quando o cheiro da pólvora dele queimar tuas narinas, você vai dizer exatamente isso: “Pacto de Ferro. Volkov honra dívidas.” Ele vai entender na hora que esse comando partiu do meu último suspiro e que não é um pedido de socorro de uma garota perdida, é um compromisso de guerra entre reis.
O veneno queimou meu esôfago, um ácido desgraçado que queria me calar. Fingi que era apenas o ardor do melhor conhaque da Rússia.
— Mais uma coisa: teu contato inicial no Brasil é uma mulher chamada Rosana Ferraz. Ela não é da família, é apenas um parafuso na engrenagem. Se ela começar com burocracia, se pedir protocolo ou assinatura, manda ela enfiar a etiqueta no inferno e liga direto pro Heitor. Quem tem ciúme do corredor acaba morrendo no corredor antes de ver a luz da sala principal.
— E aqui dentro dessa casa? — Kyra perguntou, a mão dela descendo instintivamente para a coronha da pistola escondida sob a aba do casaco. — Quem você quer que eu vigie primeiro antes de cruzar a fronteira?
Sorri com o canto da boca, o humor sendo a minha última trincheira.
— Vigia todo mundo. Do cozinheiro que prepara o caldo ao conselheiro que segura tua mão. Se alguém chegar perto demais e disser “eu cuidarei de você”, você pergunta no ato: “de quanto é a minha herança?”. A mentira fede de longe quando a cifra é bilionária e o dono do dinheiro tá com um pé na cova.
Ela apertou minha mão com uma força que eu já não possuía. Reconheci o brilho: o momento em que ela para de processar e começa a planejar o m******e. Em silêncio, Kyra Volkov arma bombas que o mundo só percebe quando o chão desaparece.
— Você não vai morrer hoje, papai… — ela disse, a voz sendo uma faca que ela girava no próprio peito.
— Eu vou. — Respondi sem qualquer pingo de ilusão. — E o barulho do meu corpo batendo no assoalho precisa ser o sinal pro teu primeiro tiro. Não desperdiça o meu fim, use-o como cobertura.
Apontei o retrato na parede: eu, vinte anos mais jovem, terno sob medida, o sangue no punho da camisa disfarçado estrategicamente pela sombra da moldura. Ao lado, a mãe dela, uma mulher que era uma obra de arte e uma arma de destruição em massa ao mesmo tempo.
— Lembra do metrônomo no treino de tiro, Kyra? — perguntei, sentindo a visão começar a embaçar. — Um, dois, três… respira… um, dois, três… atira.
Ela assentiu, os olhos queimando com a memória do chumbo e do cheiro de estande de tiro.
— Hoje o metrônomo é você. Você vai colocar essa cidade inteira no teu compasso. Quem errar o tempo, quem ousar sair do teu ritmo ou atravessar o teu caminho, você tira de cena sem hesitar. Sem piedade. Sem olhar para trás.
A dor deu o bote final, uma mão de ferro fechando meu peito, querendo desligar os motores. Respirei com raiva, com uma indignação que me mantinha consciente. A raiva é o único oxigênio que presta para um homem da máfia.
— Mais duas coisas, escuta bem que o tempo tá acabando.
Apontei a escrivaninha de carvalho pesado.
— Primeira: tem um pendrive preto escondido no fundo falso da gaveta direita. Não abre. Não seja curiosa. Entrega direto na mão do Heitor. Ele não faz perguntas inúteis, ele age. Aquilo é o gatilho político que ele precisa para explodir os inimigos dele lá e os teus aqui. É o mapa do submundo.
— Segunda: não aceita condolência, abraço ou beijo de nenhum desses arrombados do conselho. Quem vier com o toque demorado demais, com a mão esquentando a tua nuca, é quem tá medindo a distância exata para quebrar a tua coluna por trás. Morde antes de ser mordida. Mata antes de virar o alvo.
Ela sorriu de canto minha filha, meu demônio, minha continuação.
— E se esse tal de Heitor não quiser aceitar o acordo? — provocou, a voz desafiadora como a de uma rainha que não aceita o "não". — E se o Feroz achar que o trono dele não precisa do peso de uma Volkov marcada para morrer?
— Então você vai lembrar a ele que peso é exatamente o que se usa para esmagar a cabeça do inimigo no chão, — respondi, o sangue começando a borbulhar na minha garganta. — E que uma Volkov viva é o melhor investimento que ele fará na vida, mas o pior pesadelo se ele tentar te trair. Se ele hesitar, se ele tentar te diminuir, repete: Pacto de Ferro. E olha bem no fundo do olho dele como você olha para o alvo quando sabe que a bala precisa ser única e letal.
Os passos da morte ficaram colados aos meus ouvidos. A audição falhou, o quarto pareceu inclinar como um transatlântico afundando no gelo. A visão perdeu o brilho, as cores fugindo para o cinza. Segurei o pulso de Kyra com uma força desesperada, o último esforço muscular da minha existência, gravando nela o que importava.
— Sai agora, p***a. — falei, a voz sendo apenas um chiado de rádio quebrado. — Pelo corredor de serviço. Esquece os carros pretos na porta, esquece a entrada principal. A casa inteira já fede a traição e pólvora.
— E você?
— Eu fico. — Ri, cuspindo o veneno misturado com o meu próprio sangue. — Morrer dá um trabalho doentio. E eu sempre fiz questão de encerrar minha própria conta sem deixar troco para traidor.
Ela inclinou a testa contra a minha, um gesto rápido, bruto, carregado de uma promessa silenciosa — o rito de passagem de uma dinastia de sangue. Levantou-se. O casaco caiu nos ombros como uma armadura de combate. Guardou o anel, o envelope e o meu legado nos bolsos profundos.
— Vou caçar o traidor, papai. — disse ela, com a frieza que separa uma simples promessa de uma sentença de genocídio.
— Não encontra ele apenas. — corrigi, sentindo a escuridão me puxar pelos pés. — Estraçalha. E quando você pegar o desgraçado que fez isso, não seja misericordiosa. A misericórdia é o câncer da máfia, e você é uma Volkov, c*****o.
Kyra virou-se para a porta. A luz do abajur desenhou o contorno do rosto dela em ouro e sombra, a última imagem que eu levaria para o inferno. Por um instante, vi todas as versões dela: a menina que eu ensinei a não chorar quando caía, a adolescente desmontando fuzis sob a neve, a mulher que aprendeu a nunca desviar o olhar do abismo porque o abismo tem medo de quem não pisca. Quis dizer “perdão por ter te transformado nessa arma”. Mas engoli o arrependimento. Um Volkov não pede desculpas pela ferramenta que funciona com perfeição absoluta.
A porta fechou com um clique pesado, definitivo como um tiro na nuca.
Fiquei sozinho com a Dona Morte e com os móveis de luxo que sabem mais segredos do que qualquer padre. O relógio na parede arrastou um segundo que pareceu durar uma eternidade. Tentei alcançar o conhaque uma última vez, só para sentir o cheiro do carvalho, mas minha mão não respondeu mais. O veneno agora era o dono do meu peito, queimando como uma confissão malfeita. Ri de novo, internamente: até para me matar, esses covardes precisaram usar o anonimato de uma substância. Coerente nunca tiveram culhão para me encarar nos olhos enquanto eu ainda respirava.
Ajoelhei? Nunca. Caí? Jamais. Deitei como quem encerra um expediente longo e sangrento. O teto sumiu, virando um oceano n***o. Pensei nos homens que aplaudiram ao meu lado enquanto ajeitavam a adaga nas costas, nos jantares de gala onde o veneno era servido em taças de cristal, nas mãos que beijei porque o teatro do poder exige maquiagem e falsidade. Pensei nas cidades que pus de joelhos, nas balas que tinham meu autógrafo, nos pecados que batizei com o sobrenome Volkov.
Pensei nela, Kyra, atravessando a chuva pela porta errada a única que a levaria para a vida. Penso no Brasil, no morro do Império, no homem que manda naquele labirinto de zinco sem pedir licença para Deus ou para o d***o. Heitor. O Feroz vai odiar receber um problema com pernas e uma pistola na cintura no meio da madrugada. Mas ele vai aceitar. Porque ele sabe que o sangue Volkov, quando derramado do jeito certo, compra o mundo.
Minha mão formigou, meu peito chiou como uma rádio fora de sintonia, a luz do quarto morreu de vez. Senti a morte sentar na beira da cama, paciente, esperando eu terminar de ditar as regras do meu próprio fim. Tive vontade de perguntar a hora para ela, de cravar na agenda o minuto exato da minha partida. Não deu tempo.
Lorenzo Volkov morreria naquela noite de tempestade. Sem discursos heróicos, sem plateia de abutres fingindo luto, sem confissões inúteis para um céu que nunca me ouviu.
Mas a minha herdeira estava cruzando a fronteira com o meu anel no bolso, um fardo de fúria cravado nas costelas e um recado que faria o Rio de Janeiro tremer:
Pacto de Ferro.
Volkov honra dívidas.
E cobra cada gota de sangue com juros eternos.