Vida fora daqui

853 Words
A noite já tinha caído quando ouvi o barulho da moto parando na frente da casa. Eu estava sentada na mesa da cozinha, terminando de dobrar algumas roupas lavadas. Meu pai já tinha ido dormir cedo, cansado do dia. O som do motor era inconfundível. Levantei devagar e fui até a porta. Quando abri, ele já estava lá. Encostado na moto. — Boa noite, Cristal. — Boa noite, Cabeça. Cabeça era o apelido dele no morro. Um dos homens que trabalhavam direto com Barão. Magro, sempre de boné, olhar atento para tudo ao redor. Mas comigo ele sempre foi diferente. Gentil. Respeitoso. Talvez porque soubesse exatamente quem estava por trás de mim agora. — O patrão mandou te chamar — disse ele, tirando o capacete. Assenti. Já esperava. — Agora? — Agora. Ele olhou rapidamente para a casa. — Seu pai tá bem? — Tá. Ele deu um pequeno sorriso. — Que bom. Peguei minha bolsa no gancho da porta e saí. Antes de fechar, olhei para dentro. Meu pai dormia tranquilo no quarto. Fechei devagar. — Bora? — perguntou Cabeça. Subi na moto atrás dele. Diferente de quando era Barão pilotando, com Cabeça eu me sentia mais tranquila. Ele sempre dirigia com cuidado pelas ruas estreitas do morro. Enquanto subíamos, ele comentou: — O morro tá ficando doido por causa da festa. — Eu vi. — Vai ser grande. — Todo mundo está falando disso. Ele riu. — Claro… quarenta anos do patrão. O vento da noite batia no meu rosto enquanto a moto subia as ladeiras. — O Barão tá maluco organizando tudo — continuou ele. — Segurança, convidados, bebida… tá tudo nas costas dele. Isso não me surpreendia. Barão era assim. Controle total. — E ele ainda arruma tempo pra mandar te buscar — acrescentou Cabeça, meio brincando. Fiquei em silêncio. Ele percebeu e mudou de assunto. — Chegamos. A moto parou na frente da casa de Barão. As luzes estavam acesas. Diferente das outras noites, havia mais movimento ali. Dois homens conversavam na porta, armados. Provavelmente segurança. Desci da moto. — Valeu, Cabeça. Ele assentiu. — Depois eu te levo em casa. Como sempre. Caminhei até a porta. Antes mesmo de eu entrar, ouvi a voz dele lá dentro. — Pode entrar, Cristal. Barão já sabia que eu tinha chegado. Entrei. Ele estava sentado na mesa da sala, vários papéis espalhados, um rádio ao lado e o celular na mão. Parecia ocupado. Mas quando levantei os olhos… percebi que ele estava olhando direto para mim. Como se todo aquele trabalho ao redor simplesmente desaparecesse. — Chegou — disse ele. E pela forma como falou… parecia que ele já estava me esperando há algum tempo. Barão estava sentado na cadeira da mesa quando entrei. Um cigarro de maconha descansava entre os dedos dele, a fumaça subindo devagar no ar da sala. Aquilo, estranhamente, me tranquilizou um pouco. Pelo menos ele não estava chapado de **. Quando ele usava cocaína era diferente. Os olhos ficavam mais duros, os movimentos mais agressivos, o humor imprevisível. Quando estava assim… só fumando… as coisas costumavam ser mais fáceis. Ele soltou a fumaça devagar, observando ela subir até o teto. — Senta. A voz calma. Puxei uma cadeira e me sentei na frente dele. A mesa estava cheia de papéis, anotações, listas. Um rádio chiava de vez em quando ao lado do celular. — Organizando a festa? — perguntei. Ele soltou um pequeno sorriso de lado. — Tentando. Deu outra tragada no cigarro e me observou por alguns segundos. — O morro inteiro tá falando disso. — Eu sei. — Vai ser grande. — Tem que ser. Silêncio. Ele passou a mão pelo cabelo e apoiou o braço na mesa. — Batuca merece. Assenti. Era difícil alguém no morro falar m*l de Batuca. Ele era respeitado. Diferente de Barão. Barão era temido. Mas ainda assim… os dois juntos mantinham o morro forte. Barão olhou novamente para mim. — Você vai no baile? Dei de ombros. — Não sei. Ele levantou uma sobrancelha. — Não sabe? — Talvez. Ele soltou uma pequena risada. — Você deveria ir. — Por quê? Ele apoiou o cotovelo na mesa, inclinando o corpo um pouco para frente. — Porque vai ser a maior festa que esse morro já viu. Fiquei olhando para ele em silêncio. A fumaça da maconha continuava espalhada pela sala. — E também… — ele continuou — porque eu quero você lá. Meu coração bateu um pouco mais rápido. — Trabalhando? Ele riu. — Não. Deu mais uma tragada e apagou o resto do cigarro no cinzeiro. — Do meu lado. O silêncio caiu entre nós por alguns segundos. Barão ficou me observando com aquele olhar pesado de sempre. Então se levantou da cadeira. Caminhou até mim devagar. Parou bem perto. — Você anda sumida. — Eu tenho uma vida fora daqui. Ele deu um meio sorriso. — Tem? A pergunta ficou no ar. Mas dessa vez… ele não parecia irritado. Parecia curioso. E aquilo era até mais perigoso. Porque quando Barão ficava interessado demais em alguma coisa… geralmente significava que ele não ia largar tão cedo.
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