Instinto

493 Words
Ele ficou alguns segundos me olhando em silêncio. Como se estivesse organizando alguma coisa na cabeça. Então falou. — É o seguinte… A voz dele era calma, mas firme. — Eu quero você no baile. Levantei os olhos para ele. — No aniversário do Batuca. Assenti devagar. — Eu imaginei. Ele encostou na mesa e cruzou os braços. — Jéssica vai te ajudar. — Ajudar com o quê? — Roupa… cabelo… essas coisas. Deu de ombros. — Quero você bonita. Meu estômago apertou. — Barão… Ele continuou como se eu nem tivesse falado. — Quero você do meu lado. Silêncio. — No camarote. Meu coração começou a bater mais rápido. Ele caminhou até a carteira que estava na mesa, abriu e tirou algumas notas. Não eram poucas. Colocou na minha frente. — Compra o que quiser. Olhei para o dinheiro. — Barão… — Eu pago. A forma como ele disse aquilo não parecia um convite. Parecia uma decisão. — Quero você cheia de ouro — continuou ele. — Vestido bonito… tudo. Fiquei parada olhando para o dinheiro. Aquilo não era apenas sobre roupa. Era sobre posição. Ele queria que todo mundo visse. — Entendeu? Levantei os olhos para ele. Aquela expressão firme no rosto. Como se aquilo já estivesse decidido. Balancei a cabeça devagar. — Entendi. Mas por dentro meu peito estava apertado. Porque eu sabia exatamente o que aquilo significava. No baile. No camarote. Ao lado dele. Cheia de ouro. Todo mundo no morro ia ver. Todo mundo ia entender. Cristal… era a amante do Barão. O silêncio entre nós ficou pesado. Barão ainda estava perto da mesa, me observando daquele jeito que sempre me deixava sem saber o que pensar. Levantei devagar. Caminhei até ele. O olhar dele acompanhou cada passo. Quando parei na frente dele, a mão dele veio automaticamente para meu cabelo, segurando leve, como se estivesse acostumado com aquele gesto. — Você é doida — murmurou baixo. Não respondi. Só fiquei ali, perto demais. A respiração dele estava pesada, misturada ao cheiro da maconha que ainda pairava no ar da sala. Barão passou os dedos devagar pelo meu cabelo. — Continua — disse entre os dentes. A voz rouca. Mas não era carinho. Era desejo bruto. Controle. Para ele aquilo não tinha nada de romântico. Era físico. Instinto. Alguns minutos depois ele soltou meu cabelo e encostou a cabeça para trás na cadeira. Respirando fundo. A sala voltou a ficar silenciosa. Barão pegou outro cigarro na mesa, acendeu devagar e deu uma tragada longa. — Sábado — disse soltando a fumaça. Olhei para ele. — Não esquece. — Eu não vou esquecer. Ele assentiu. — Porque quando você entrar naquele baile comigo… Os olhos dele voltaram para mim. Pesados. — Todo mundo vai entender quem você é. Senti um arrepio subir pelas minhas costas. Não era apenas um baile. Era um anúncio. No morro inteiro. E depois daquela noite… ninguém mais iria olhar para mim da mesma forma.
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