Ele ficou alguns segundos me olhando em silêncio.
Como se estivesse organizando alguma coisa na cabeça.
Então falou.
— É o seguinte…
A voz dele era calma, mas firme.
— Eu quero você no baile.
Levantei os olhos para ele.
— No aniversário do Batuca.
Assenti devagar.
— Eu imaginei.
Ele encostou na mesa e cruzou os braços.
— Jéssica vai te ajudar.
— Ajudar com o quê?
— Roupa… cabelo… essas coisas.
Deu de ombros.
— Quero você bonita.
Meu estômago apertou.
— Barão…
Ele continuou como se eu nem tivesse falado.
— Quero você do meu lado.
Silêncio.
— No camarote.
Meu coração começou a bater mais rápido.
Ele caminhou até a carteira que estava na mesa, abriu e tirou algumas notas.
Não eram poucas.
Colocou na minha frente.
— Compra o que quiser.
Olhei para o dinheiro.
— Barão…
— Eu pago.
A forma como ele disse aquilo não parecia um convite.
Parecia uma decisão.
— Quero você cheia de ouro — continuou ele. — Vestido bonito… tudo.
Fiquei parada olhando para o dinheiro.
Aquilo não era apenas sobre roupa.
Era sobre posição.
Ele queria que todo mundo visse.
— Entendeu?
Levantei os olhos para ele.
Aquela expressão firme no rosto.
Como se aquilo já estivesse decidido.
Balancei a cabeça devagar.
— Entendi.
Mas por dentro meu peito estava apertado.
Porque eu sabia exatamente o que aquilo significava.
No baile.
No camarote.
Ao lado dele.
Cheia de ouro.
Todo mundo no morro ia ver.
Todo mundo ia entender.
Cristal…
era a amante do Barão.
O silêncio entre nós ficou pesado.
Barão ainda estava perto da mesa, me observando daquele jeito que sempre me deixava sem saber o que pensar.
Levantei devagar.
Caminhei até ele.
O olhar dele acompanhou cada passo.
Quando parei na frente dele, a mão dele veio automaticamente para meu cabelo, segurando leve, como se estivesse acostumado com aquele gesto.
— Você é doida — murmurou baixo.
Não respondi.
Só fiquei ali, perto demais.
A respiração dele estava pesada, misturada ao cheiro da maconha que ainda pairava no ar da sala.
Barão passou os dedos devagar pelo meu cabelo.
— Continua — disse entre os dentes.
A voz rouca.
Mas não era carinho.
Era desejo bruto.
Controle.
Para ele aquilo não tinha nada de romântico.
Era físico.
Instinto.
Alguns minutos depois ele soltou meu cabelo e encostou a cabeça para trás na cadeira.
Respirando fundo.
A sala voltou a ficar silenciosa.
Barão pegou outro cigarro na mesa, acendeu devagar e deu uma tragada longa.
— Sábado — disse soltando a fumaça.
Olhei para ele.
— Não esquece.
— Eu não vou esquecer.
Ele assentiu.
— Porque quando você entrar naquele baile comigo…
Os olhos dele voltaram para mim.
Pesados.
— Todo mundo vai entender quem você é.
Senti um arrepio subir pelas minhas costas.
Não era apenas um baile.
Era um anúncio.
No morro inteiro.
E depois daquela noite…
ninguém mais iria olhar para mim da mesma forma.