Jéssica chegou cedo.
Cedo demais.
Eu ainda estava na cozinha fazendo café quando ouvi a porta bater duas vezes e, sem esperar resposta, ela já entrou como se fosse dona da casa.
— Bom dia!
Levantei os olhos.
Ela estava usando um conjunto de academia — top e short colado no corpo — o cabelo preso em um r**o de cavalo alto, óculos escuros apoiados na cabeça.
Parecia que tinha saído de uma propaganda de academia.
— Você não cansa de acordar cedo assim? — murmurei.
Ela ignorou completamente minha pergunta.
Passou direto por mim e entrou no quarto do meu pai.
— Bom dia, tio!
Deu um beijo na testa dele.
Meu pai sorriu.
— Bom dia, minha filha… como você está linda hoje.
Jéssica adorava aquilo.
Deu uma voltinha no meio do quarto como se estivesse desfilando.
— Tô né, tio? — disse rindo. — Tô malhando.
Revirei os olhos da porta.
— Claro que tá.
Meu pai riu.
— E dá pra ver.
Ela saiu do quarto ainda sorrindo.
— Viu? — disse para mim. — Reconhecimento.
— Você vive por elogio.
— E qual o problema?
Suspirei e coloquei três xícaras na mesa.
— Senta logo.
Tomamos café juntos.
Pão com manteiga, café forte e algumas frutas que eu tinha comprado no dia anterior.
Jéssica falava sem parar.
Sobre academia.
Sobre as meninas do morro.
Sobre o baile.
Principalmente sobre o baile.
— Cristal… você tem noção do que vai ser aquela festa?
— Todo mundo já falou isso umas cinquenta vezes.
— Não, mas você não tá entendendo.
Ela apoiou os cotovelos na mesa.
— Você vai estar no camarote.
Meu pai levantou os olhos da xícara.
— Camarote?
Senti meu estômago apertar.
— É… — falei rápido. — Um lugar lá em cima do baile.
Meu pai não perguntou mais nada.
Mas percebi o olhar dele.
Sabia que ele estava juntando as peças.
Terminei o café rápido.
— Pai, vou sair com a Jéssica.
— Pra onde?
— Resolver umas coisas.
Ele assentiu.
— Mas não demora.
— Não vou.
Jéssica já estava pegando minha mão.
— Bora.
Saímos.
O sol da manhã já estava forte nas ruas do morro.
Descemos a ladeira conversando.
— Hoje a gente vai te transformar — disse ela animada.
— Eu não preciso de tudo isso.
— Precisa sim.
— Jéssica…
Ela parou no meio da rua e virou para mim.
— Cristal.
— O quê?
— Você vai aparecer do lado do Barão.
Silêncio.
— Todo mundo vai olhar.
Ela continuou andando.
— Então você precisa parecer alguém que merece estar lá.
Aquilo ficou na minha cabeça.
Pegamos uma van até o centro.
O movimento da cidade era completamente diferente do morro.
Carros.
Lojas.
Gente indo trabalhar.
Vida normal.
Entramos na primeira loja de roupas.
Uma daquelas cheias de espelhos.
— Bom dia — disse a vendedora.
Jéssica já estava olhando os vestidos.
— A gente quer coisa boa.
— Para uma festa — completei.
A mulher sorriu.
— Temos várias opções.
E começou.
Vestido vermelho.
Vestido preto.
Vestido dourado.
Jéssica me fez experimentar todos.
— Esse não.
— Esse também não.
— Esse parece roupa de casamento.
Eu já estava ficando cansada.
— Jéssica…
— Calma.
Ela puxou outro da arara.
Era preto.
Justo.
Com uma f***a na perna.
— Esse.
Entrei no provador.
Quando saí…
ela abriu um sorriso enorme.
— É esse.
Olhei no espelho.
Mal me reconheci.
O vestido desenhava meu corpo de um jeito diferente.
Mais adulto.
Mais… perigoso.
— Cristal — disse Jéssica atrás de mim.
— O quê?
— Agora você parece a mulher do Barão.
Meu coração bateu mais forte.
Porque no fundo…
era exatamente isso que eu estava me tornando.
E no baile de sábado…
o morro inteiro iria ver.