Cedo

632 Words
Jéssica chegou cedo. Cedo demais. Eu ainda estava na cozinha fazendo café quando ouvi a porta bater duas vezes e, sem esperar resposta, ela já entrou como se fosse dona da casa. — Bom dia! Levantei os olhos. Ela estava usando um conjunto de academia — top e short colado no corpo — o cabelo preso em um r**o de cavalo alto, óculos escuros apoiados na cabeça. Parecia que tinha saído de uma propaganda de academia. — Você não cansa de acordar cedo assim? — murmurei. Ela ignorou completamente minha pergunta. Passou direto por mim e entrou no quarto do meu pai. — Bom dia, tio! Deu um beijo na testa dele. Meu pai sorriu. — Bom dia, minha filha… como você está linda hoje. Jéssica adorava aquilo. Deu uma voltinha no meio do quarto como se estivesse desfilando. — Tô né, tio? — disse rindo. — Tô malhando. Revirei os olhos da porta. — Claro que tá. Meu pai riu. — E dá pra ver. Ela saiu do quarto ainda sorrindo. — Viu? — disse para mim. — Reconhecimento. — Você vive por elogio. — E qual o problema? Suspirei e coloquei três xícaras na mesa. — Senta logo. Tomamos café juntos. Pão com manteiga, café forte e algumas frutas que eu tinha comprado no dia anterior. Jéssica falava sem parar. Sobre academia. Sobre as meninas do morro. Sobre o baile. Principalmente sobre o baile. — Cristal… você tem noção do que vai ser aquela festa? — Todo mundo já falou isso umas cinquenta vezes. — Não, mas você não tá entendendo. Ela apoiou os cotovelos na mesa. — Você vai estar no camarote. Meu pai levantou os olhos da xícara. — Camarote? Senti meu estômago apertar. — É… — falei rápido. — Um lugar lá em cima do baile. Meu pai não perguntou mais nada. Mas percebi o olhar dele. Sabia que ele estava juntando as peças. Terminei o café rápido. — Pai, vou sair com a Jéssica. — Pra onde? — Resolver umas coisas. Ele assentiu. — Mas não demora. — Não vou. Jéssica já estava pegando minha mão. — Bora. Saímos. O sol da manhã já estava forte nas ruas do morro. Descemos a ladeira conversando. — Hoje a gente vai te transformar — disse ela animada. — Eu não preciso de tudo isso. — Precisa sim. — Jéssica… Ela parou no meio da rua e virou para mim. — Cristal. — O quê? — Você vai aparecer do lado do Barão. Silêncio. — Todo mundo vai olhar. Ela continuou andando. — Então você precisa parecer alguém que merece estar lá. Aquilo ficou na minha cabeça. Pegamos uma van até o centro. O movimento da cidade era completamente diferente do morro. Carros. Lojas. Gente indo trabalhar. Vida normal. Entramos na primeira loja de roupas. Uma daquelas cheias de espelhos. — Bom dia — disse a vendedora. Jéssica já estava olhando os vestidos. — A gente quer coisa boa. — Para uma festa — completei. A mulher sorriu. — Temos várias opções. E começou. Vestido vermelho. Vestido preto. Vestido dourado. Jéssica me fez experimentar todos. — Esse não. — Esse também não. — Esse parece roupa de casamento. Eu já estava ficando cansada. — Jéssica… — Calma. Ela puxou outro da arara. Era preto. Justo. Com uma f***a na perna. — Esse. Entrei no provador. Quando saí… ela abriu um sorriso enorme. — É esse. Olhei no espelho. Mal me reconheci. O vestido desenhava meu corpo de um jeito diferente. Mais adulto. Mais… perigoso. — Cristal — disse Jéssica atrás de mim. — O quê? — Agora você parece a mulher do Barão. Meu coração bateu mais forte. Porque no fundo… era exatamente isso que eu estava me tornando. E no baile de sábado… o morro inteiro iria ver.
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