O som era tão alto que parecia fazer o chão tremer.
As caixas gigantes espalhadas pela quadra vibravam a cada batida do grave, fazendo o peito estremecer junto com a música. Luzes coloridas cortavam a multidão, iluminando rostos, garrafas erguidas e corpos dançando sem parar.
Eu me apoiei levemente na grade do camarote e olhei lá para baixo.
A quadra estava lotada.
Não era só gente do morro.
Tinha gente de todo lugar.
Meninos com motos alinhadas na rua, mulheres dançando em grupos, homens armados espalhados pelos cantos observando tudo.
Era enorme.
Muito maior do que qualquer baile que eu já tinha visto.
No palco principal, os MCs começaram a subir um atrás do outro.
Alguns eram famosos.
Eu reconheci alguns nomes que já tinha ouvido nas músicas que tocavam no morro.
A multidão foi à loucura.
Gritos.
Assobios.
Mãos levantadas no ar.
O DJ aumentou ainda mais o som e o grave bateu forte no peito.
Por um momento eu esqueci até de respirar.
— Gostou?
A voz de Barão veio perto do meu ouvido.
Olhei para ele.
— Eu nunca vi um evento assim.
Ele deu um meio sorriso.
— O Batuca gosta de fazer grande.
Olhei novamente para a festa.
O palco iluminado.
Os MCs cantando.
A multidão pulando.
— Parece show — murmurei.
Barão pegou uma garrafa na mesa e serviu bebida em dois copos.
— Pra muita gente aqui… isso é melhor que show.
Me entregou o copo.
Tomei um gole pequeno.
O gosto forte queimou na garganta.
Olhei novamente para a multidão lá embaixo.
Era hipnotizante.
— O morro inteiro está aqui — falei.
Barão encostou o braço na grade do camarote.
— Não só o morro.
Apontei discretamente para alguns homens que estavam em outra parte do camarote.
— Aqueles ali são de outro lugar?
— Outro morro.
— Todos convidados?
Ele deu um pequeno sorriso.
— Hoje é festa.
Olhei novamente para baixo.
A música continuava batendo forte, as pessoas dançando sem parar.
Nunca tinha visto nada assim.
E então percebi uma coisa.
Várias pessoas na multidão estavam olhando para cima.
Para o camarote.
Para mim.
Ou melhor…
para quem eu estava ao lado.
Barão percebeu também.
Ele passou o braço pela minha cintura novamente.
Aproximando meu corpo do dele.
O gesto foi natural.
Mas no morro…
aquilo significava muito.
— Relaxa — murmurou no meu ouvido.
Mas eu sabia.
Naquela noite…
todo mundo estava vendo exatamente onde eu estava.
— Vamos dançar!
A voz de Jéssica veio do nada.
Quando virei, ela já estava me puxando pela mão.
— Jéssica… espera!
Mas era tarde.
Ela já estava me arrastando para fora do camarote.
Descemos a escada rapidamente e entramos no meio da multidão. O som era ainda mais alto lá embaixo. O grave batia tão forte que parecia vibrar dentro do peito.
Por um segundo eu fiquei completamente perdida.
Gente dançando por todos os lados.
Corpos se movendo juntos, mãos levantadas, copos de bebida passando de um lado para o outro. As luzes coloridas piscavam sobre a multidão enquanto o MC gritava no microfone.
— Solta o grave!
A música mudou.
O ritmo ficou mais pesado.
Jéssica já estava no meio da roda, rebolando como se tivesse nascido para aquilo.
Ela olhou para mim e riu.
— Anda, mulher!
Balancei a cabeça, rindo nervosa.
Mas comecei a acompanhar.
No começo devagar.
Depois o corpo foi pegando o ritmo.
O vestido preto grudava no meu corpo enquanto eu me movia com a música. A f***a na perna deixava a pele aparecer a cada movimento.
Jéssica estava completamente solta.
Rebolando.
Girando.
Jogando o cabelo para trás.
— Isso! — gritou ela.
A música subiu mais.
O DJ aumentou o grave.
A multidão gritou junto.
Eu estava começando a me soltar também.
Até que senti.
Aquela sensação.
Como se alguém estivesse me observando.
Olhei para cima.
Para o camarote.
E lá estava ele.
Barão.
Encostado na grade.
Os olhos fixos em mim.
Não estava sorrindo.
Não estava conversando com ninguém.
Apenas olhando.
Observando cada movimento meu no meio da multidão.
Meu coração bateu mais forte.
Jéssica percebeu.
— Ih…
Ela seguiu meu olhar.
— O patrão tá de olho.
Voltei a olhar para cima.
Barão ainda estava ali.
Os olhos escuros fixos em mim.
Pesados.
Intensos.
Como se cada movimento meu ali embaixo…
pertencesse a ele.