Cheguei no morro já perto da hora do almoço.
O sol estava forte e a rua cheia de gente indo e vindo. Crianças correndo, motos passando devagar pelas vielas, música tocando em alguma casa mais abaixo.
Mas eu sabia que estava diferente.
Sentia isso nos olhares.
Meu cabelo estava mais claro, bem tratado, caindo solto pelos ombros. As unhas feitas, a pele lisa depois da depilação.
Jéssica tinha conseguido o que queria.
Eu parecia… outra pessoa.
Antes de subir para casa, passei na padaria da dona Juju.
O cheiro de pão e frango assado vinha forte da porta.
— Oi, dona Juju.
Ela levantou os olhos do balcão e abriu um sorriso.
— Ô Cristal! Como você tá bonita hoje, menina.
Sorri educadamente.
— Dona Juju, me vê um frango assado?
— Claro.
Enquanto ela pegava o frango, fui até a geladeira e peguei uma garrafa de Coca-Cola.
Voltei para o balcão.
— Quanto deu? — perguntei.
Antes que ela pudesse responder, ouvi uma voz atrás de mim.
— Deixa que eu pago a conta da moça.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Eu conhecia aquela voz.
Virei devagar.
Barão.
Encostado perto da porta da padaria, um cigarro entre os dedos, soltando fumaça devagar.
Como se estivesse ali há um tempo.
— Claro — respondeu dona Juju imediatamente, quase automática.
No morro ninguém recusava quando Barão falava.
Eu ia negar.
A palavra quase saiu.
Mas segurei.
Sabia que, se fizesse isso na frente das pessoas… ele poderia ficar irritado.
E irritar Barão nunca era uma boa ideia.
— Obrigada — murmurei.
Peguei o frango e a garrafa.
Quando passei por ele, senti o olhar dele me percorrendo da cabeça aos pés.
Sem pressa.
Avaliando cada detalhe.
O cabelo.
As unhas.
O vestido simples.
— Tá diferente — comentou baixo.
Não respondi.
Tentei continuar andando.
Mas antes que desse dois passos, senti a mão dele segurar meu braço.
Firme.
Me parando no lugar.
Meu coração bateu mais forte.
Virei o rosto para ele.
Os olhos dele estavam atentos.
— Te espero mais tarde.
A frase saiu baixa, quase tranquila.
Mas não era um convite.
Era uma ordem.
Fiquei alguns segundos olhando para ele.
Depois apenas assenti.
Ele soltou meu braço.
Dei mais um passo e saí da padaria.
Sentindo o olhar dele nas minhas costas enquanto caminhava pela rua.
E eu sabia…
que mais tarde…
Barão estaria esperando.
Subi a rua devagar, segurando o frango assado em uma mão e a garrafa de Coca-Cola na outra.
O sol do meio-dia batia forte no morro, deixando o chão quente e a rua cheia de gente indo e vindo.
Mas minha cabeça estava em outro lugar.
No olhar dele.
No jeito que ele tinha me analisado dentro da padaria.
Eu não entendia.
De verdade.
Não entendia o que Barão tinha visto em mim.
No morro tinha tantas garotas.
Garotas bonitas.
Descoladas.
Daquelas que vivem na rua, que dançam no baile, que sabem conversar com todo mundo, que gostam de chamar atenção.
Eu não era assim.
Não que eu não fosse bonita.
Eu sabia que era.
Mas era diferente.
Eu era quieta.
Sempre fui.
Preferia ficar em casa.
Ler.
Cuidar do meu pai.
Assistir televisão.
Minha vida nunca foi sobre baile, bebida ou homens armados andando pela rua.
Passei em frente a um grupo de meninas conversando.
Elas me olharam quando passei.
Sussurros.
Risos baixos.
Eu já sabia.
A fofoca tinha começado.
A nova amante do Barão.
Continuei andando.
Subi os últimos degraus da viela e cheguei em casa.
Meu pai estava sentado na cadeira de plástico na porta, tomando sol como sempre fazia depois do almoço.
— Cheguei.
Ele levantou os olhos.
E parou.
Ficou me olhando por alguns segundos.
— Ué…
A expressão dele mudou.
— Você tá diferente.
Sorri de leve.
— Fui no salão.
Ele riu.
— Tá parecendo artista de televisão.
Entrei na cozinha e coloquei o frango na mesa.
— Trouxe comida.
Meu pai levantou devagar e entrou atrás de mim.
— Cheiro bom isso aí.
Peguei os pratos enquanto ele sentava.
Mas minha cabeça continuava longe.
Em Barão.
Na forma como ele me olhava.
Como se tivesse descoberto algo em mim que nem eu mesma sabia que existia.
Sentei à mesa.
Meu pai já começava a cortar o frango.
— O morro anda falando muito desse baile — comentou.
Assenti.
— Vai ser grande.
— Você vai?
Parei por um segundo.
— Talvez.
Ele me observou por alguns segundos.
— Só toma cuidado, filha.
Olhei para ele.
— Eu sempre tomo.
Mas enquanto comíamos em silêncio…
uma coisa não saía da minha cabeça.
Por que eu?
Por que Barão…
entre todas as mulheres do morro…
tinha escolhido justamente a garota quieta que preferia ficar em casa?