Estranho

793 Words
Cristal O céu já estava escuro quando voltei da praia. A viagem de ônibus pareceu mais curta na volta. Talvez porque minha cabeça estivesse cheia demais para prestar atenção na cidade passando pela janela. O mar tinha me acalmado. Por algumas horas eu tinha conseguido esquecer tudo. Mas agora, conforme o ônibus se aproximava do morro, aquela sensação de peso no peito voltava. Desci no mesmo ponto. A rua estava mais movimentada agora. Música alta vindo de algum bar, gente conversando nas esquinas, motos subindo e descendo a ladeira. Comecei a subir devagar. Minhas roupas ainda estavam um pouco úmidas do mar e o vento da noite fazia minha pele arrepiar. Quando cheguei perto da primeira boca, os rapazes já estavam olhando na minha direção. Um deles soltou um assobio. — Ih… Outro riu. — Olha quem resolveu aparecer. Parei por um segundo. — O que foi? Eles trocaram olhares. Um deles levantou do banco de plástico. — Tu tá ferrada, Cristal. Meu estômago virou. — Por quê? O rapaz deu uma risada curta. — Tu sumiu. Outro completou: — O patrão mandou te chamar. Engoli seco. — Eu precisava sair. Eles balançaram a cabeça. — Barão não gosta quando alguém some assim. Um deles pegou o rádio na cintura e girou entre os dedos. — Ele já mandou perguntar de você umas três vezes. Meu coração começou a bater mais rápido. — E vocês falaram o quê? — Que não sabiam. O rapaz deu de ombros. — Mas agora sabemos. Outro menino, mais novo, riu baixo. — Quando ele souber que você apareceu… Ele fez um gesto com a mão, como se alguém estivesse perdido. — Já era. Olhei para cima do morro. A casa dele ficava lá. Iluminada. Sempre. Respirei fundo. — Ele tá lá? O rapaz assentiu. — Tá. Silêncio por alguns segundos. Então ele falou de novo: — Se eu fosse você… subia logo. — Por quê? Ele me olhou com um meio sorriso. — Porque quando o Barão fica irritado… Ele apontou com o queixo para o alto do morro. — Ele vai atrás. E todo mundo aqui sabe como isso termina. Senti um frio passar pela minha espinha. Olhei novamente para a subida. Sabia que não tinha para onde correr. No morro inteiro… todo mundo sabia quem mandava. E naquele momento… Barão estava atrás de mim. Subi o resto do morro com o coração batendo forte. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. As casas estavam cheias de gente nas portas, música tocando alto em algumas vielas, crianças ainda correndo pela rua mesmo já sendo noite. Mas eu m*l percebia. Minha cabeça estava em um único lugar. Barão. Quando cheguei na frente da casa dele, a porta estava aberta como sempre. A luz da sala iluminava a rua. Respirei fundo. Entrei. Ele estava sentado no sofá. As pernas abertas, o braço apoiado no encosto, um copo de bebida na mão. O olhar dele veio direto para mim. Pesado. Frio. — Onde você estava? A pergunta veio calma. Mas aquilo não era calma. Era pior. Fiquei parada perto da porta por alguns segundos. — Eu saí. Ele soltou uma risada curta. — Eu percebi. O silêncio ficou pesado na sala. — Perguntei onde você estava. Respirei fundo. Podia inventar alguma coisa. Podia mentir. Mas eu estava cansada demais para isso. — Na praia. Ele levantou uma sobrancelha. — Praia? Assenti. — Eu precisava respirar um pouco. Os olhos dele ficaram em mim por alguns segundos. — E resolveu desaparecer. — Eu não desapareci. — Desapareceu sim. A voz dele ficou um pouco mais firme. — Eu mandei te chamar. Engoli seco. — Eu sei. — Então? Olhei para ele. — Eu precisava sair. Mais silêncio. Barão ficou me encarando como se estivesse tentando entender alguma coisa. Ou talvez decidindo algo. Ele terminou o copo de uma vez só e colocou na mesa. — Vai embora. Pisquei algumas vezes. — O quê? — Você ouviu. Ele se levantou. — Vai pra casa. Aquilo não era o que eu esperava. — Barão… Ele levantou a mão, me interrompendo. — Hoje não. A voz dele voltou a ficar fria. — Vai. Fiquei parada por um segundo. Tentando entender. — Tá. Me virei devagar e caminhei até a porta. Antes de sair ouvi ele falar atrás de mim: — Cristal. Parei. — Não faz isso de novo. Olhei para ele. Mas o olhar dele já não estava mais em mim. Ele estava olhando para a rua. Como se eu já tivesse deixado de estar ali. Saí da casa dele com uma sensação estranha no peito. Não era alívio. Também não era medo. Era outra coisa. Como se algo entre nós tivesse mudado. Mesmo que eu ainda não soubesse exatamente o quê.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD