Fardo

416 Words
Três anos se passaram desde aquele dia, mas o impacto daquele momento ainda me pesa no peito. Meu pai perdeu uma das pernas no acidente, e nossa vida desmoronou de uma maneira que eu nunca poderia ter imaginado. Ele sempre foi o alicerce da casa, trabalhando de sol a sol para garantir o mínimo para nós. Quando ele não pôde mais trabalhar, tudo mudou. A situação ficou extremamente difícil, não só financeiramente, mas emocionalmente também. A força que ele sempre demonstrou, de repente, parecia se desvanecer, e eu tive que assumir uma responsabilidade que nunca pensei que teria tão cedo. Largar a escola não foi uma escolha, foi uma necessidade. Ele precisava de alguém por perto o tempo todo, e eu não tinha outra opção a não ser estar lá. As coisas que eu sonhava para mim — terminar os estudos, ter uma vida diferente — ficaram para trás. Cada dia era uma luta para garantir que ele estivesse bem, que a comida estivesse na mesa, e que as contas fossem pagas, mesmo que às vezes o dinheiro não desse para tudo. Viver com um deficiente físico na favela é um desafio diário. As ruas não foram feitas para pessoas como ele. São becos estreitos, escadarias íngremes e buracos em cada canto. Às vezes, só para levá-lo a uma consulta médica, eu já me via carregando parte do peso, ajudando-o a descer e subir as escadas com o pouco de força que me restava. Consegui alguns empregos durante esses três anos, mas nunca consigo ficar por muito tempo. Sempre tem um imprevisto, uma necessidade urgente dele, uma crise que me faz deixar tudo para trás e voltar para casa. Trabalhar de carteira assinada, ter uma rotina normal, isso parece um luxo distante. Eu pego o que dá — b***s, pequenos serviços — mas a instabilidade é constante. A culpa também me acompanha; às vezes penso que poderia estar fazendo mais, mas como fazer mais quando ele depende tanto de mim? Eu sei que ele se sente m*l por isso. Às vezes, o vejo olhando pela janela, o olhar perdido, como se estivesse revivendo tudo o que perdeu. Ele nunca diz, mas sei que dói não poder ser o homem forte que sempre foi, não poder sustentar a casa ou caminhar sozinho pelas ruas. E eu, embora tente ser forte, também sinto o peso dessa nova realidade. A vida é dura, e às vezes parece que estamos presos em um ciclo do qual não há como escapar.
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