Solução

1067 Words
Avisei meu pai que não demoraria e saí de casa, acompanhando Jéssica até a casa dela. Conforme subíamos, eu ia pensando no que ela poderia ter para me oferecer. A verdade é que, naquele momento, qualquer ajuda seria bem-vinda, mesmo que eu não soubesse ao certo o que estava por vir. Quando chegamos, fiquei surpresa. A casa dela era boa, bem diferente do que eu lembrava. Mobília nova, tudo de primeira. Fiquei feliz por ela, afinal, Jéssica sempre foi minha amiga, e mesmo com o caminho que escolheu, ela merecia estar feliz. Ela me levou até a sala e se jogou no sofá com aquele jeito despojado de sempre. — Ganhei essa casa do CL. A gente tá ficando há uns meses, e ele tá caidinho por mim. Me bancando legal — disse, com um sorriso de quem sabe que está no controle. CL era conhecido no morro. Ele era o terceiro no comando, um dos chefes do tráfico. Tinha fama de mulherengo, e todo mundo sabia que ele tinha pelo menos uns oito filhos espalhados por aí, com várias mulheres diferentes. Ser amante dele poderia trazer vantagens, mas também riscos. Sentei na beira do sofá, meio desconfortável. Enquanto ela falava, minha cabeça já estava pensando em tudo que poderia dar errado. Jéssica era forte, mas eu sabia que essa vida que ela escolheu não era fácil. — Jéssica... — comecei, tentando achar as palavras certas. — Não se envolva demais. CL não é homem de se apegar a ninguém, você sabe disso. Ele pode estar te bancando agora, mas amanhã pode ser outra. Ela deu de ombros, com aquele ar de confiança que sempre teve. — Relaxa, Cristal. Eu sei jogar o jogo. Eu queria acreditar nisso, queria confiar que ela sabia o que estava fazendo, mas, no fundo, algo me dizia que esse caminho era cheio de armadilhas. Mesmo assim, eu não estava em posição de dar conselhos. Acabei ficando mais tempo com Jéssica do que tinha planejado. Ela fez pipoca, preparou suco e colocou uma série para assistirmos. Era bom ter um momento de distração, esquecer um pouco a vida complicada que me esperava do lado de fora. O tempo passou rápido, e quando me dei conta, já estava escuro. Foi então que ouvi um barulho na porta. CL entrou, chamando por Jéssica. Ele estava sem camisa, com um fuzil pendurado nas costas, como se fosse parte do corpo dele. Fiquei um pouco desconcertada com a cena. CL era magro e alto, a pele marcada por cicatrizes que eu preferia não saber a origem. Quando ele se aproximou de Jéssica, deu para perceber como os dois formavam um par, no mínimo, curioso. Ela, com o corpo robusto, pernas grossas e postura firme; ele, esguio e com aquele olhar duro de quem está sempre no controle. A coxa dela era três vezes mais grossa que a dele, e a imagem dos dois juntos, por um instante, me pareceu engraçada. Mas o que realmente me incomodou foi o jeito que ela olhou para ele. Jéssica, que sempre foi forte e independente, tinha aquele brilho nos olhos, aquele olhar de quem estava completamente envolvida. Quando ela o beijou nos lábios, não restou dúvida para mim. Ela estava perdida por ele, e eu sabia que esse tipo de envolvimento não tinha volta. CL era perigoso, e a vida ao lado de um homem como ele vinha cheia de consequências. Eu sabia que não adiantaria dizer mais nada. Ela já tinha feito sua escolha. Mas, no fundo, sentia um aperto no peito, uma preocupação por ela, por saber que uma vez mergulhada nesse mundo, seria difícil sair. Quando me aproximei de casa, já vi de longe seu Antunes, o dono da casa onde a gente mora. Ele estava parado na entrada, com uma expressão séria, e imediatamente soube o que ele queria. O aluguel atrasado. Aquilo vinha me consumindo há semanas, mas não havia o que fazer com o pouco que tínhamos. Respirei fundo e, tentando manter a calma, cumprimentei ele educadamente. — Boa noite, seu Antunes. Ele nem fez questão de ser cortês de volta. Seus olhos eram duros e impacientes, e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele foi direto ao ponto. — Preciso receber, Cristal. Vocês já estão com o aluguel atrasado faz tempo. Tem duas semanas pra resolver isso, ou vou ter que despejar vocês. Minha garganta secou. Não era surpresa, mas ouvir aquilo em voz alta, de forma tão fria, me deixou nervosa. O peso daquela ameaça era como uma pedra amarrada ao meu peito. A gente m*l tinha o que comer, como eu iria arrumar dinheiro para o aluguel? Sabia que meu pai não poderia fazer nada, ele já sofria o suficiente, e eu não queria preocupá-lo ainda mais. — Eu vou arrumar, seu Antunes, só preciso de um tempo... — tentei argumentar, mas ele balançou a cabeça, impaciente. — Duas semanas, Cristal. Depois disso, não tem conversa. Ele se virou e saiu antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, me deixando ali com aquele prazo que parecia impossível. Entrei em casa e guardei as coisas que Jéssica havia me dado, com um misto de alívio e vergonha. Era humilhante estar naquela situação, dependendo dos outros para coisas básicas, como comida. Já não havia mais nada de valor para vender. Tudo que um dia eu poderia trocar por dinheiro, já tinha sido vendido. Agora, estava só com as dívidas, o aluguel atrasado e a responsabilidade de cuidar do meu pai. A casa era pequena, apertada, e só tinha um quarto que dividíamos. Ele já estava dormindo quando me deitei ao lado dele. O som da respiração dele era o único barulho no silêncio da noite. Tentei fechar os olhos, mas o sono não vinha. O peso das palavras do seu Antunes martelava na minha cabeça. Duas semanas para resolver uma situação que parecia sem saída. Como eu iria conseguir dinheiro para o aluguel? E o pior, o que aconteceria se não conseguisse? Virei de um lado para o outro, sem conseguir acalmar a mente. Cada vez que olhava para o teto, era como se o tempo estivesse correndo mais rápido, e eu, sem saída, ficando cada vez mais presa nesse ciclo. O relógio parecia avançar lentamente, mas minha ansiedade fazia a noite parecer interminável. Não consegui dormir. Passei a noite inteira pensando, planejando, imaginando soluções que pareciam cada vez mais distantes.
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