Jéssica me fez vestir um short jeans bem curto e um cropped que m*l cobria minha barriga. Me senti desconfortável assim que coloquei as roupas, era diferente de tudo que eu já havia usado. Não era o meu estilo, não era algo que me fizesse sentir eu mesma. Mas ali, naquela situação, minha opinião parecia ter pouco peso. Quando me olhei no espelho, m*l reconheci a garota que me encarava de volta. O reflexo parecia alguém decidido a encarar o mundo sem medo, mas, por dentro, eu ainda estava cheia de inseguranças.
— Amiga, você sabe dançar? — Jéssica perguntou, me olhando com expectativa.
— Um pouco — respondi, sem muita confiança. Eu gostava de música, mas dançar daquele jeito? Nunca tinha feito isso.
— Vamos treinar! — disse ela, cheia de energia, como se estivesse preparando uma grande transformação.
Ela ligou o som, e o ambiente foi tomado pelo batidão de “Baile de Favela”. A música alta vibrava pelas paredes, e Jéssica começou a se mover com naturalidade, os quadris balançando com o ritmo, como se o corpo dela fosse feito para dançar. Eu a observei por um momento, hesitante, enquanto ela fazia movimentos provocantes e confiantes, claramente à vontade com aquilo.
— Vem, amiga, tenta assim — disse, me puxando para o meio da sala. Seus olhos brilhavam, animada por me ensinar.
Ela me mostrou alguns movimentos, todos sensuais, com foco nos quadris e no rebolado. Eu tentei imitar, me sentindo completamente desajeitada. Meu corpo não estava acostumado àqueles passos, e a ideia de fazer aquilo na frente de outras pessoas me deixava ainda mais nervosa.
— Relaxe, Cristal. Sinta a música, deixa o corpo seguir o ritmo — ela encorajava, enquanto dançava ao meu lado, me guiando. — Você leva jeito, amiga! Tem gingado, só precisa se soltar mais.
Aos poucos, comecei a me soltar um pouco, tentando deixar a vergonha de lado. A música envolvia meus pensamentos, e por alguns momentos, consegui me deixar levar. Jéssica sorriu, orgulhosa, vendo que eu estava começando a acompanhar os passos dela. Ainda me sentia desconfortável, especialmente com a ideia de fazer aquilo em público, mas ali, na sala de Jéssica, tudo parecia um pouco menos intimidante.
— Isso! Tá vendo? Você tem o rebolado certo, só falta mais confiança. No baile, você vai arrasar, amiga. Confia em mim!
Sorri de volta, mas por dentro o nervosismo continuava. Eu estava entrando num mundo novo, e cada movimento que eu aprendia era um passo mais fundo nesse caminho desconhecido. Sabia que aquela dança era mais do que só diversão, era parte do jogo, e eu estava apenas começando a entender as regras.
Entrei no baile segurando firme no ombro de Jéssica, o coração batendo acelerado no peito. O lugar estava lotado, mais cheio do que eu imaginava, uma mistura de luzes piscantes e música tão alta que o chão vibrava sob meus pés. O som do batidão tomava conta de tudo, como se fosse a pulsação daquele mundo. Ao meu redor, meninas muito jovens com roupas curtas e provocantes riam, bebiam, fumavam, e algumas já estavam se perdendo nas drogas. O cheiro forte de álcool e cigarro se misturava com a fumaça que subia no ar, criando uma atmosfera densa e intoxicante.
Traficantes circulavam pelo espaço, alguns encostados nas paredes, com olhares atentos, como se observassem tudo de longe, enquanto outros exibiam suas armas com ostentação, sem medo ou preocupação. Aquilo parecia um universo paralelo, tão diferente da minha vida até aquele momento, que por um segundo, me senti uma intrusa.
Jéssica parecia em casa, como se aquele caos fosse sua zona de conforto. Ela me puxava para dentro da multidão, dançando ao som da música, rindo e gritando de felicidade. Eu, por outro lado, me sentia deslocada, como se tudo estivesse acontecendo rápido demais.
— Vamos beber! — gritou Jéssica no meu ouvido, a voz dela m*l superando o volume ensurdecedor da música.
Ela me puxou até uma barraquinha improvisada que vendia bebidas. Pegou dois copos e me entregou um, já cheio com uma mistura forte de alguma coisa que eu não consegui identificar de imediato. O cheiro do álcool era forte, e eu hesitei por um momento, mas com a insistência de Jéssica e o ambiente ao meu redor, acabei tomando um gole, sentindo o líquido queimar minha garganta.
Jéssica estava animada, dançando e bebendo, sem se preocupar com nada. Eu tentava acompanhar, mas a sensação de que algo estava fora do lugar não me deixava. Observava ao redor, vendo meninas rindo com traficantes, homens armados controlando o ambiente, e me perguntava até onde eu estava disposta a ir naquela noite. Estava ali para mudar minha vida, mas a que custo?
— Se solta, amiga! Hoje é a nossa noite! — gritou Jéssica, balançando os braços no ar enquanto a música batia mais forte.
Eu sorri para ela, tentando ignorar a ansiedade crescente no meu peito. Sabia que não tinha mais volta. Estava ali, no baile, cercada de gente que vivia daquela forma, e agora, a escolha era minha: me entregar completamente ou recuar. Só que recuar já não parecia mais uma opção.
No camarote no alto, cercados por mulheres, bebidas caras e pilhas de drogas, estavam os homens que comandavam o morro. Mesmo de longe, eu podia sentir o peso da autoridade deles no ambiente. CL estava lá, rindo e conversando, com o fuzil encostado ao lado, enquanto as mulheres ao redor o rodeavam com olhares de admiração. O poder que ele exercia sobre o lugar era evidente, e parecia que cada pessoa no baile sabia exatamente quem ele era e o que representava.
— Olha lá em cima — disse Jéssica, inclinando a cabeça na direção do camarote, enquanto dava mais um gole em sua bebida. — Tá vendo? O dono do morro tá lá, junto com o sub dele. A gente vai subir lá daqui a pouco. Sorria, seja fácil. Não complica. — Ela me olhou de lado, como se estivesse me preparando para o que estava por vir, e eu apenas balancei a cabeça, tentando processar a informação.
— Tá vendo aquele cara de cabelo preto? — Jéssica apontou discretamente. — É o Batuca, o atual dono daqui. Mas fica longe, a mulher dele é louca, e ele também. Não se mete com eles.
Olhei para onde ela indicava. Batuca estava cercado por um grupo grande de garotas, mas havia algo de ameaçador no jeito que ele as observava, um poder que ia além da violência. Ele era o dono de tudo ali, e todos sabiam disso. Mesmo sem querer, senti um arrepio percorrer minha espinha.
— Agora, tá vendo o outro? — Jéssica continuou, falando mais baixo. — Aquele de cabelão descolorido é o Barão, o sub dele. Ele é tranquilo, mas não dá muita bola pras meninas daqui, só pras novinhas que ele acha que valem a pena. Fica esperta, eles são perigosos. — Ela disse isso de forma casual, mas o aviso era claro. Havia um código a ser seguido, e eu teria que aprender rápido para sobreviver nesse ambiente.
— Mas o CL, meu coelhinho, é o terceiro no comando. — Jéssica sorriu, piscando de forma provocativa, claramente orgulhosa de sua posição ao lado dele.
Revirei os olhos involuntariamente. — Que apelido ridículo, Jéssica — disse, tentando disfarçar o nervosismo com humor. CL, o "coelhinho"? Era difícil levar isso a sério, considerando o contexto. Ele parecia tudo, menos um coelho.
Jéssica me lançou um olhar f**o, visivelmente irritada. — Respeito, hein? Se você der uma dessas na frente dele, eu te largo sozinha aqui. — Ela falava sério, e eu sabia que, por mais que fôssemos amigas, esse era um território que eu não deveria cruzar.
Sorri, tentando aliviar a tensão. Jéssica sempre conseguia me arrancar um sorriso, mesmo nas situações mais difíceis. Só ela poderia fazer aquilo parecer menos assustador do que realmente era. Mas, por dentro, eu sabia que estava entrando em um território desconhecido e perigoso, onde uma piada errada ou um olhar fora de lugar poderia custar caro.
Eu observava os homens no camarote, cada um com sua aura de poder, e tentava me preparar mentalmente para o que estava por vir. Estava claro que aquele mundo tinha suas regras, e eu precisava aprender a me mover dentro delas, rápido. Jéssica estava me guiando, mas, no fundo, eu sabia que, a partir do momento que subisse aquelas escadas, estaria sozinha, por minha conta.