Ele sabe

485 Words
Cristal Voltamos para casa já tarde da noite. O médico disse que foi uma crise forte de pressão. Nada que não pudesse ser controlado, mas ele precisava de remédios, exames… cuidado. Tudo coisas que custavam dinheiro. Dinheiro que, até pouco tempo atrás, eu não tinha. Ajudei meu pai a sentar na cama devagar. Ele ainda parecia fraco, o rosto pálido sob a luz amarela do quarto. — Devagar… — murmurei. Ele respirou fundo, apoiando as muletas ao lado da cama. Fui até a cozinha pegar um copo de água e o remédio que o médico tinha receitado. Minhas mãos ainda tremiam um pouco. Quando voltei, ele estava me olhando. Não era o olhar cansado de sempre. Era diferente. Como se estivesse pensando em alguma coisa há muito tempo. — Toma — falei entregando o copo. Ele engoliu o remédio devagar. O silêncio ficou pesado no pequeno quarto. Até que ele falou. — Cristal… Parei. — Eu sei. Meu coração disparou. — Sabe… o quê? Ele suspirou fundo. — De onde está vindo esse dinheiro. Fiquei parada. Sem conseguir respirar direito. — Pai, eu… Ele levantou a mão, pedindo silêncio. — Você acha que eu sou cego? As palavras vieram calmas, mas doeram mais do que qualquer grito. Olhei para o chão. — Eu tentei arrumar trabalho — murmurei. — Mas ninguém quer contratar alguém que precisa sair toda hora… Minha voz começou a falhar. — A casa ia ser tomada… você precisa de remédio… eu não tinha mais o que fazer… As lágrimas começaram a cair antes que eu pudesse impedir. — Eu só… eu só queria que a gente ficasse bem… Meu pai ficou em silêncio por alguns segundos. Então estendeu a mão. Segurou a minha. A mão dele estava fria, mas firme. — Olha pra mim. Levantei os olhos devagar. Ele me encarava com uma tristeza profunda. — Você é minha filha. Engoli seco. — Eu te criei melhor do que isso. As palavras atravessaram meu peito. — Eu sei… — Mas eu também sei — continuou ele — que você está fazendo isso por mim. As lágrimas escorriam sem parar agora. — Pai… — E isso é o que mais me machuca. Ele apertou minha mão. — Porque você está se sacrificando por algo que não deveria. Abaixei a cabeça. — Eu não podia deixar a gente perder tudo. Ele ficou me observando. Depois puxou minha mão mais perto. — Você não precisa carregar o mundo sozinha, Cristal. Minha voz saiu quebrada. — Mas eu já estou carregando. O quarto ficou em silêncio. Só o barulho distante do morro lá fora. Música. Moto passando. Vida acontecendo. Meu pai passou a mão pelo meu cabelo, como fazia quando eu era criança. — Promete uma coisa pra mim. — O quê? — Não deixa esse homem destruir você. Meu coração apertou. Porque no fundo… eu já não sabia se ainda tinha controle sobre isso.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD