A noite tinha caído pesada sobre a cidade.
Não era uma noite qualquer.
Era daquelas em que tudo parecia mais silencioso do que deveria, como se até o vento tivesse decidido não interferir no que estava prestes a acontecer.
Na cobertura, o ambiente seguia o padrão de sempre.
Luzes baixas.
Música instrumental quase imperceptível.
O tipo de cenário que transmitia controle.
E Abner…
Estava exatamente como sempre esteve naquele espaço.
Sentado no sofá.
Postura relaxada.
Copo de whisky na mão.
Olhar perdido na imensidão da cidade através do vidro.
Por fora…
Nada tinha mudado.
Por dentro…
Também não.
Ou era o que ele queria acreditar.
A porta se abriu sem cerimônia.
Killian entrou com a mesma presença de sempre.
Impecável.
Elegante.
E completamente à vontade.
— Já tava achando que você tinha desistido de mim.
A voz veio leve, com aquele tom debochado característico.
Ele caminhou direto até o bar, como se estivesse na própria casa, já servindo uma bebida para si.
— Ou arrumou outro favorito.
Abner não olhou.
— Senta.
Simples.
Direto.
Killian sorriu de lado.
— Ai, que romântico.
Mas obedeceu.
Se jogou na poltrona à frente, cruzando as pernas com naturalidade, enquanto pegava o tablet que tinha trazido.
— Vamos lá, então.
A voz mudou.
Mais profissional.
Mais focada.
— Controle da semana.
Ele deslizou o dedo pela tela, abrindo o sistema.
— Temos alguns atrasados, mas nada fora do padrão.
Começou.
— João Henrique, dois dias além do prazo. Já mandei recado.
— Carlos Mendes, esse aqui tá enrolando, mas acho que resolve sem precisar quebrar nada.
Olhou rapidamente para Abner.
— Ainda.
Abner permaneceu em silêncio.
Apenas ouvindo.
Absorvendo.
Funcionando.
Como sempre.
Killian continuou.
Nome por nome.
Valor por valor.
Situação por situação.
Era uma rotina.
Fria.
Organizada.
Eficiente.
Cada devedor não era uma pessoa.
Era um número.
Um prazo.
Um resultado.
— Tem também aquele da zona norte…
Killian rolou a tela.
— Esse eu acho melhor a gente ir pessoalmente.
Abner assentiu levemente.
Sem interesse real.
Era só mais um.
Como todos os outros.
Mas então…
Killian parou.
Por um segundo.
O olhar fixo na tela.
— Ah.
A palavra saiu diferente.
Mais leve.
Mais carregada de intenção.
Abner não reagiu de imediato.
Mas percebeu.
— O que foi?
Killian levantou o olhar devagar.
Um sorriso pequeno surgindo no canto da boca.
— Temos uma especial aqui.
Abner levou o copo à boca.
Tomou um gole.
Sem pressa.
— Fala.
Killian virou o tablet na direção dele.
E disse o nome.
— Marcela Dias.
O tempo não parou.
Mas quase.
O movimento da mão de Abner cessou por um segundo.
Imperceptível para qualquer outra pessoa.
Mas não para Killian.
O gelo no copo tilintou baixo.
E então ficou imóvel.
Fazia dias.
Dias inteiros.
Sem pensar nela.
Sem lembrar.
Sem sentir nada.
Nem curiosidade.
Nem irritação.
Nem interesse.
Nada.
Como se tivesse simplesmente… apagado.
Mas bastou o nome.
Só o nome.
Para tudo voltar.
De uma vez.
Sem aviso.
A imagem veio rápida.
O olhar dela.
A voz firme.
A forma como enfrentou ele.
A forma como não cedeu.
A forma como… não teve medo.
Abner apoiou o copo na mesa.
Devagar.
— Continua.
A voz saiu normal.
Controlada.
Mas Killian já tinha percebido.
— Dívida alta. Você emprestou bastante dinheiro pra essa estranha viu?
Ele continuou, observando Abner de canto.
— Prazo tá chegando.
— Não estourou ainda.
— Mas já tá naquela fase…
Ele inclinou levemente a cabeça.
— De começar a aparecer.
Silêncio.
— Eu posso ir lá.
Killian disse, naturalmente.
— Fazer a abordagem padrão.
— Nada pesado ainda.
— Só lembrar ela de onde tá se metendo.
Abner ficou em silêncio por alguns segundos.
Pensando.
Mas não como pensava normalmente.
Não era cálculo.
Não era estratégia.
Era outra coisa.
E então…
Falou.
— Não.
Killian levantou uma sobrancelha.
— Não?
Abner olhou diretamente para ele agora.
— Eu vou.
Simples.
Direto.
Sem explicação.
O silêncio caiu pesado no ambiente.
Killian encostou no sofá.
Observando.
Analisando.
Um sorriso lento começou a surgir.
— Você… vai?
Abner não desviou o olhar.
— Eu.
Killian soltou uma risada curta.
— Interessante.
Levantou o copo.
Tomou um gole.
— Muito interessante.
Ele cruzou as pernas novamente.
Mais relaxado agora.
— Normalmente você não faz isso.
A voz leve.
Mas carregada de significado.
— Ainda mais em dívida que nem venceu.
Abner não respondeu.
Killian inclinou levemente o corpo para frente.
— Quer me contar o motivo?
O tom era provocativo.
Curioso.
Divertido.
— Não tem nada.
A resposta veio seca.
Final.
Killian sorriu mais ainda.
— Claro que não.
Recostou-se novamente.
— Mas tudo bem.
Levantou as mãos em rendição.
— Quem sou eu pra questionar o grande chefe?
A ironia veio leve.
Natural.
Mas ele não era burro.
Nunca foi.
— Só toma cuidado.
Disse depois de alguns segundos.
Agora com um tom mais baixo.
Mais sério.
— Porque você nunca se envolve assim.
Silêncio.
Abner pegou o copo novamente.
Girou o líquido.
— Eu não tô me envolvendo.
A resposta veio automática.
Rápida demais.
Killian não respondeu.
Só sorriu.
De lado.
Como quem já entendeu tudo.
— Claro que não.
Murmurou.
Baixo.
Mais para si mesmo do que para Abner.
Ele levantou.
Ajustou o terno.
— Então tá.
— Marcela Dias…
Repetiu o nome com um leve ar de entretenimento.
— Atendimento VIP.
Caminhou em direção à saída.
Mas antes de abrir a porta…
Parou.
Virou o rosto.
— Só uma coisa.
Abner não respondeu.
Mas ouviu.
— Se você for lá…
Killian disse, com aquele sorriso afiado.
— Não vai ser só uma cobrança.
Silêncio.
E então ele saiu.
A porta se fechou.
E o apartamento voltou ao silêncio.
Abner ficou sozinho.
Novamente.
Mas dessa vez…
Não estava em paz.
O nome ainda estava ali.
Marcela.
E agora…
Não tinha mais como ignorar.
Ele ia até ela.
Pessoalmente.
E no fundo…
Sabia.
Que aquilo não era só sobre dinheiro.
Nunca mais tinha sido.