Sangue no asfalto
O som veio antes da dor.
Um estrondo seco.
Metal amassando.
Freio cantando no limite.
E depois…
Silêncio.
Abner não entendeu na hora o que tinha acontecido.
Por alguns segundos, o mundo ficou mudo — como se alguém tivesse desligado tudo ao redor. Nenhum grito. Nenhum barulho. Nenhuma voz.
Só um zumbido fino dentro da cabeça.
Ele piscou devagar.
O céu estava estranho.
Azul demais.
Distante demais.
E então veio a sensação.
Quente.
Molhada.
Escorrendo.
Sangue.
O gosto metálico invadiu a boca dele, mesmo sem saber exatamente de onde vinha. O corpo não respondia direito. Era como se não fosse mais dele.
Ele tentou mexer o braço.
Não conseguiu.
Tentou falar.
Nada saiu.
O ar parecia pesado, difícil de puxar. Cada tentativa de respirar ardia como se tivesse vidro dentro do peito.
Foi aí que os sons começaram a voltar.
Primeiro… abafados.
Depois… caóticos.
— MEU DEUS!
— CHAMA UMA AMBULÂNCIA!
— ELE É SÓ UMA CRIANÇA!
— NÃO ENCOSTA! NÃO ENCOSTA!
Passos apressados.
Portas batendo.
Alguém chorando.
Alguém xingando.
Abner virou levemente o rosto — ou pelo menos tentou. A visão embaralhou, mas deu pra perceber o vulto de um carro.
Preto.
Luxuoso.
Impecável… exceto pela frente destruída.
O capô amassado.
O vidro trincado.
E um homem parado ao lado.
Bem vestido.
Desesperado.
— Eu não vi! Eu juro que não vi! Ele apareceu do nada!
A voz tremia.
Mas Abner não prestava atenção nele.
Porque tinha outra presença ali.
Mais distante.
Mais fria.
Observando.
Parado.
Sem se mexer.
Sem correr.
Sem ajudar.
O pai.
Encostado do outro lado da rua.
Braços cruzados.
Postura relaxada.
Como se estivesse assistindo a um espetáculo.
Abner piscou de novo, tentando focar melhor.
Queria entender.
Queria perguntar.
Queria gritar.
Mas só conseguiu olhar.
E foi aí que os olhos deles se encontraram.
O pai não parecia preocupado.
Não parecia assustado.
Não parecia arrependido.
Muito pelo contrário.
Ele… sorriu.
Um sorriso pequeno.
Contido.
Satisfeito.
Como quem vê algo dando certo.
Como quem vê um plano funcionando exatamente como deveria.
O mundo ao redor virou um borrão.
As vozes ficaram distantes outra vez.
Mas aquela imagem ficou.
Gravada.
Fixada.
O olhar do pai.
Sem emoção.
Sem culpa.
Sem pressa.
Aprovação pura.
Abner tentou entender aquilo.
Tentou juntar as peças.
Tentou lembrar.
E então…
Veio.
A memória.
Minutos antes.
— Vai.
A voz do pai era baixa, firme, sem espaço pra discussão.
— Eu não quero…
— Vai.
Mais forte agora.
Mais frio.
Abner estava na calçada, olhando o movimento da rua. Carros passando. Gente andando. Vida normal.
Menos pra ele.
— Eu posso me machucar de verdade…
— É justamente isso que precisa acontecer.
O pai agachou na frente dele, segurando o queixo do menino com força.
— Escuta bem o que eu vou te falar.
Os olhos dele eram duros.
Sem calor nenhum.
— Quanto pior parecer… mais dinheiro a gente tira.
Abner engoliu seco.
O coração batendo rápido demais.
— E se eu… morrer?
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
O pai soltou o queixo dele devagar… e deu um meio sorriso.
— Não morre.
Disse aquilo com uma certeza absurda.
Como se estivesse falando do tempo.
— E mesmo que morra…
Ele deu de ombros.
— Pelo menos vai servir pra alguma coisa.
Aquilo bateu diferente.
Pesado.
Confuso.
Errado.
Mas Abner já sabia…
Não adiantava discutir.
Nunca adiantava.
Então ele ficou ali.
Na beira da calçada.
Olhando os carros.
Esperando o momento.
O momento que o pai decidiu.
— Aquele.
Apontou.
Um carro caro.
Brilhando.
Lento o suficiente.
Perfeito.
— Agora.
E Abner foi.
Sem pensar.
Sem respirar.
Sem querer.
O impacto veio como um estouro dentro do corpo.
E agora…
Ali estava ele.
No chão.
Sangrando.
Com gente desesperada ao redor.
E o pai…
Orgulhoso.
De volta ao presente, Abner tentou puxar ar de novo.
Mais uma vez.
Mais uma.
O peito travou.
A visão começou a escurecer nas bordas.
Alguém segurou a cabeça dele.
— Fica comigo! Ei, olha pra mim! Não apaga!
Uma mulher.
Desconhecida.
Com lágrimas nos olhos.
Ela apertava o rosto dele com cuidado, tentando manter ele consciente.
— A ambulância tá chegando, tá? Vai ficar tudo bem…
Mentira.
Ele sabia.
Mesmo com 13 anos… ele sabia.
Nada ficava “tudo bem”.
Nunca ficava.
Porque aquilo não era acidente.
Aquilo era rotina.
Não era a primeira vez.
E não seria a última.
Ele queria dizer isso.
Queria avisar.
Queria falar:
“Isso foi de propósito.”
Mas a voz não vinha.
O corpo não deixava.
A única coisa que ele conseguiu fazer…
Foi mexer os olhos.
De novo.
Procurando.
E encontrou.
O pai ainda estava lá.
No mesmo lugar.
Agora… já não sorria.
Mas também não demonstrava nada.
Só observava.
Calculando.
Esperando.
E então, bem devagar…
Ele fez um gesto com a cabeça.
Um aceno quase imperceptível.
Como quem diz:
“Boa.”
Foi aí que alguma coisa mudou.
Não no corpo.
Mas dentro.
Uma rachadura silenciosa.
Algo que ainda era criança… tentando sobreviver.
Tentando entender.
Tentando sentir.
E falhando.
Porque naquele momento…
A dor deixou de ser o pior.
O pior…
Era perceber que aquilo era esperado.
Planejado.
E aprovado.
O som da sirene veio ao longe.
Crescendo.
Se aproximando.
Alguém gritou:
— ELA TÁ CHEGANDO!
Movimento ao redor.
Gente abrindo espaço.
Passos correndo.
Mas Abner já não conseguia focar em nada.
A visão escurecia rápido agora.
O corpo desligando.
O mundo sumindo.
Só restava uma coisa.
A voz.
A última coisa que ele ouviu…
Antes de apagar.
Antes de tudo ficar preto.
Antes de deixar de sentir.
A voz do pai.
Baixa.
Calma.
Sem emoção.
Sem pressa.
Como se estivesse comentando algo banal.
Algo cotidiano.
Algo… lucrativo.
E então, quase satisfeito:
— Desse jeito aí… isso aí é dinheiro.
E o mundo acabou.
Por enquanto.