O cheiro foi a primeira coisa que ele percebeu.
Antisséptico.
Forte.
Limpo demais.
Errado demais.
Abner ainda não tinha aberto os olhos, mas o corpo já sabia: aquilo não era rua. Não era asfalto quente. Não era barulho de gente gritando.
Era silêncio.
Controlado.
Frio.
Ele tentou puxar ar.
O peito respondeu com uma dor s***a, pesada, como se tivesse um bloco de concreto pressionando cada respiração. Não era aquela dor aguda do impacto — era pior.
Era constante.
Insistente.
Impossível de ignorar.
Um som fino começou a se destacar no ambiente.
Bip.
Bip.
Bip.
Ritmo regular.
Máquina.
Monitor.
Hospital.
A consciência veio aos poucos, como se alguém estivesse ligando ele de volta, pedaço por pedaço.
Primeiro o som.
Depois o cheiro.
Depois a dor.
E por último…
A memória.
O carro.
O impacto.
O chão.
O sangue.
E o olhar do pai.
Aquilo fez o estômago dele revirar.
Não de enjoo.
De algo mais profundo.
Mais estranho.
Ele abriu os olhos devagar.
A luz branca invadiu tudo de uma vez, fazendo ele franzir a testa imediatamente. Demorou alguns segundos até conseguir focar.
Teto branco.
Lâmpadas fortes.
Tudo limpo demais.
Organizado demais.
Frio demais.
Ele tentou virar a cabeça.
Errou.
Uma fisgada atravessou o pescoço até as costas, arrancando um som baixo da garganta dele — um quase gemido, involuntário.
— Ei… calma, calma…
Uma voz feminina.
Suave.
Mas firme.
Uma enfermeira apareceu no campo de visão dele, se aproximando rápido.
— Não tenta se mexer agora, tá? Você sofreu um trauma forte.
Abner piscou, ainda meio perdido.
A garganta estava seca.
Arranhando.
— …água…
A voz saiu falhada, quase inaudível.
A enfermeira entendeu.
Molhou um pedaço de gaze e passou nos lábios dele com cuidado.
— Ainda não pode beber direto, mas isso ajuda um pouquinho.
Ele assentiu de leve — ou tentou.
A dor veio de novo.
Tudo doía.
Tudo.
Como se o corpo inteiro tivesse sido desmontado e montado errado.
— Onde… — ele parou, respirando com dificuldade — …onde eu tô?
— Hospital. — ela respondeu simples. — Você foi atropelado.
Silêncio.
Ele já sabia.
Mas ouvir aquilo em voz alta…
Tornava real de outro jeito.
Mais pesado.
Mais definitivo.
— Faz quanto tempo…?
— Algumas horas. Você apagou no local. Te trouxeram direto pra cá.
Algumas horas.
Parecia mais.
Parecia uma vida inteira.
Ele ficou em silêncio.
Os olhos vagando pelo quarto.
Parede branca.
Equipamentos.
Soro.
Tudo tão… distante da realidade dele.
Aquilo não combinava com a vida que ele levava.
Com o que ele fazia.
Com o que ele era obrigado a fazer.
— Tem alguém com você, um homem, você sabe quem é? — a enfermeira perguntou.
Pergunta simples.
Resposta complicada.
Abner demorou alguns segundos.
Não porque não sabia.
Mas porque sabia exatamente.
— …meu pai.
Ela assentiu.
— Ele tá aí fora. Quer que eu chame?
O coração dele falhou um batimento.
Um segundo de silêncio dentro do peito.
A imagem veio na hora.
O olhar.
O sorriso.
A aprovação.
Algo apertou dentro dele.
Mas não era medo.
Também não era alívio.
Era… outra coisa.
Difícil de nomear.
Ele virou o rosto levemente, olhando pro lado oposto da porta.
— Pode chamar.
A enfermeira deu um sorriso pequeno e saiu.
E aí…
O silêncio voltou.
Só o bip da máquina.
Só a respiração difícil.
Só os pensamentos.
E eles vieram.
Todos de uma vez.
Bagunçados.
Confusos.
Pesados.
“E se eu tivesse morrido?”
A pergunta surgiu sem pedir permissão.
Fria.
Direta.
Sem emoção.
Ele não sentiu medo ao pensar nisso.
O que veio foi pior.
Indiferença.
Porque, no fundo…
Ele sabia a resposta.
Nada mudaria.
O pai seguiria.
Outro plano.
Outra forma.
Outro jeito de ganhar dinheiro.
Ele não era filho.
Nunca foi.
Era ferramenta.
Era peça.
Era investimento.
O som da porta abrindo cortou os pensamentos.
Passos.
Firmes.
Controlados.
Sem pressa.
Abner não precisou olhar pra saber quem era.
Sentiu.
O ar mudou.
Ficou mais pesado.
Mais tenso.
Mais… real.
O pai entrou no campo de visão dele.
Terno escuro.
Impecável.
Relógio caro.
Nenhum sinal de preocupação no rosto.
Nenhum.
Ele parou ao lado da cama.
Observou.
Analisou.
Como se estivesse avaliando um produto.
Ou um resultado.
Ou um investimento.
— Sobreviveu.
A voz saiu neutra.
Sem emoção.
Sem calor.
Sem nada.
Abner não respondeu.
Só olhou.
Esperando.
Porque sempre vinha mais.
Sempre.
O pai cruzou os braços, inclinando levemente a cabeça.
— Foi f**o.
Um leve aceno com o queixo.
— O carro era bom.
Uma pausa.
E então, um quase sorriso.
— Vai render. Eu já conversei com o cara. Vai pagar bastante pra não abrir denúncia.
Ali.
Naquele momento.
Deitado.
Quebrado.
Dolorido.
Ligado a máquinas.
Abner entendeu.
Não de forma consciente.
Não em palavras.
Mas em sensação.
Algo dentro dele… desligou.
Não foi revolta.
Não foi tristeza.
Não foi raiva.
Nada disso.
Foi ausência.
Como se alguma parte dele tivesse simplesmente decidido parar de existir.
Porque sentir aquilo…
Era pior do que não sentir nada.
— Você demorou pra ir. — o pai continuou, como se estivesse dando uma bronca comum. — Hesitou.
Os olhos dele ficaram mais duros.
— Isso não pode acontecer de novo.
Abner respirou fundo.
Ou tentou.
O ar raspou.
— Eu… fiquei com medo.
Silêncio.
Curto.
Pesado.
O pai soltou uma risada baixa.
Sem humor.
— Medo?
Ele se aproximou um pouco mais da cama.
Inclinou o corpo pra frente.
Os olhos fixos no filho.
— Medo não paga conta.
Cada palavra saía medida.
Fria.
Precisa.
— Medo não enche bolso.
Mais perto.
Mais baixo.
— Medo não serve pra nada.
Abner engoliu seco.
A garganta ardeu.
— Eu podia ter morrido.
Dessa vez, o silêncio foi diferente.
Mais longo.
Mais pesado.
O pai ficou olhando pra ele por alguns segundos.
Sem piscar.
Sem desviar.
E então respondeu.
— Não morreu.
Simples assim.
Como se isso encerrasse qualquer discussão.
E, pra ele…
Encerrava mesmo.
O pai se endireitou.
Deu um passo pra trás.
— O homem do carro já tá desesperado.
Pegou o celular, mexendo rápido.
— Seguro alto, nome a zelar… vai querer resolver isso rápido.
Guardou o aparelho.
Olhou pra Abner de novo.
— Descansa.
Virou de costas.
Indo em direção à porta.
E antes de sair…
Parou.
Sem olhar pra trás.
— Da próxima vez… não hesita.
E saiu.
A porta fechou com um clique seco.
E o quarto ficou em silêncio de novo.
Mas agora…
Era diferente.
Mais pesado.
Mais sufocante.
Abner ficou olhando pro teto.
Sem piscar.
Sem reagir.
Sem sentir.
A dor ainda estava lá.
Forte.
Constante.
Mas não era mais o que incomodava.
O que incomodava…
Era o vazio.
Porque, pela primeira vez…
Ele percebeu que não importava o que acontecesse com ele.
Se machucar.
Se sangrar.
Se quase morrer.
Nada daquilo mudava nada.
Nada daquilo significava nada.
A única coisa que importava…
Era o resultado.
Dinheiro.
Sempre dinheiro.
Ele fechou os olhos devagar.
E deixou os pensamentos irem.
Não porque resolveu.
Mas porque não fazia sentido ficar neles.
E foi ali…
Naquele quarto branco.
Com o corpo destruído.
E a mente começando a endurecer…
Que algo começou a nascer.
Ainda pequeno.
Ainda fraco.
Mas presente.
Uma ideia.
Simples.
Fria.
Lógica.
Se o mundo era assim…
Então ele ia jogar do mesmo jeito.
Sem medo.
Sem culpa.
Sem sentir.
Porque sentir…
Era o que tinha colocado ele naquela cama.
E ele não queria voltar praquele lugar nunca mais.
O bip da máquina continuava.
Regular.
Constante.
Marcando o tempo.
E, sem perceber…
Abner já não era mais o mesmo garoto que tinha se jogado na frente do carro.
Alguma coisa tinha ficado naquele asfalto.
Junto com o sangue.
E o que levantaria dali pra frente…
Seria outra coisa.
Muito pior.
Muito mais perigosa.
Muito mais fria.
E aquilo…
Era só o começo.