Aprendendo a Jogar

1250 Words
O tempo não curou nada. Ele só ensinou Abner a esconder melhor. O corpo cicatrizou. Os ossos colaram. As marcas sumiram da pele… Mas por dentro, alguma coisa tinha endurecido de um jeito que não voltava mais. E o pai percebeu. Claro que percebeu. Ele sempre percebia. — De novo. A voz veio seca, como sempre. Sem “por favor”. Sem “você consegue”. Sem incentivo. Era ordem. Abner estava na calçada outra vez. Mas agora… Era diferente. Não tinha mais o mesmo tremor nas mãos. O coração ainda acelerava — mas não era medo puro. Era outra coisa. Adrenalina. Cálculo. Antecipação. Ele já sabia o que fazer. Já sabia como cair. Já sabia como proteger certas partes do corpo. Já sabia como gritar. Até o desespero… já era ensaiado. — Aquele ali. — o pai apontou. Um carro branco. Importado. Brilhando. Perfeito. Alvo ideal. Abner respirou fundo. Uma vez. Duas. E então… Foi. Dessa vez, ele não hesitou. O impacto veio. Forte. Mas não como antes. Agora ele sabia como absorver. Como girar o corpo. Como bater de um jeito que parecia pior do que realmente era. O grito veio automático. Alto. Dolorido. Convincente. Pessoas correram. O motorista desceu desesperado. Tudo igual. Mas Abner… Já não estava perdido. Deitado no chão, com o gosto de sangue na boca, ele abriu os olhos devagar — calculado — procurando a reação ao redor. — MEU DEUS, ELE TÁ MACHUCADO! — CHAMA SOCORRO! — SENHOR, O QUE VOCÊ FEZ?! O homem estava tremendo. E foi aí… Que Abner entendeu de verdade. O poder não estava na dor. Estava no medo dos outros. Dias depois, sentado em uma cadeira desconfortável dentro de um escritório caro, Abner observava o homem à sua frente. O mesmo motorista. Agora bem vestido. Mas suando. Nervoso. O pai falava por ele. — Meu filho podia ter morrido. Calmo. Controlado. Perfeito. — A gente não quer problema… só quer resolver isso da melhor forma. O homem assentia rápido demais. — Claro, claro… eu entendo… eu pago o que for necessário… Abner ficou em silêncio. Observando. Aprendendo. Absorvendo cada detalhe. A forma como o pai falava. A pausa no momento certo. O olhar firme. A pressão invisível. Aquilo não era só um golpe. Era arte. Quando saíram de lá, o pai entregou um maço de dinheiro na mão dele. Sem aviso. Sem cerimônia. Abner olhou. Notas altas. Muitas. — Sua parte. Ele franziu a testa. — Minha? O pai deu um meio sorriso. — Aprendeu rápido. E saiu andando. Como se aquilo fosse óbvio. Como se fosse natural. Como se aquilo fosse… Trabalho. Abner ficou parado por alguns segundos. O dinheiro na mão. O peso dele. O significado dele. E pela primeira vez… Ele não sentiu culpa. Sentiu… algo próximo de satisfação. Os anos passaram. E Abner evoluiu. Rápido. Assustadoramente rápido. A escola virou território. Não de aprendizado. Mas de oportunidade. Ele observava tudo. Todo mundo. Cada detalhe. Cada fraqueza. Cada segredo m*l escondido. E as pessoas eram previsíveis. Ridiculamente previsíveis. O primeiro professor foi fácil. Professor de matemática. Casado. Imagem impecável. Respeitado. Mas… descuidado. Abner percebeu primeiro pelos olhares. Depois pelos horários. Depois pelos “atrasos” frequentes de duas pessoas específicas. O professor. E a professora de biologia. Começou com suspeita. Virou certeza quando viu os dois saindo da sala vazia depois do horário. Arrumando a roupa. Evitando contato visual com qualquer um. Erro básico. Eles achavam que ninguém via. Mas Abner via tudo. Ele não agiu na hora. Esperou. Sempre esperava. Porque o golpe perfeito… Não é o mais rápido. É o mais bem preparado. Durante uma semana inteira, ele seguiu o padrão deles. Anotou horários. Rotina. Dias específicos. Até ter certeza absoluta. E então… Agiu. Era final de tarde. A escola praticamente vazia. Corredores silenciosos. Abner já sabia onde eles estariam. E estavam. Sala dos professores. Porta fechada. Luz apagada. Mas não trancada. Erro grave. Ele abriu devagar. Sem fazer barulho. E viu os professores transand0 em uma mesa. Não foi surpresa. Já esperava. Mas mesmo assim… Ficou alguns segundos observando. Não por curiosidade. Mas por confirmação. Prova. Controle. Pegou o celular. Tirou fotos. Sem flash. Sem som. Rápido. Preciso. E saiu. Como se nunca tivesse estado ali. No dia seguinte, o professor encontrou um envelope dentro da gaveta. Sem remetente. Sem explicação. Só fotos. E um papel. Com poucas palavras: “Conversa comigo. Sozinho.” O encontro foi depois da aula. Sala vazia. O professor estava pálido. Suando. Desesperado. — O que você quer? A voz falhou. Abner encostou na carteira. Calmo. Tranquilo. Quase entediado. — Dinheiro. Direto. Sem rodeio. O professor passou a mão no rosto. — Isso é loucura… você é só um garoto… Abner inclinou levemente a cabeça. — E o senhor é um homem casado traindo a esposa dentro da escola. Silêncio. Pesado. Cortante. — Imagina isso chegando nela… — ele continuou, com a voz baixa — …ou na direção. O professor fechou os olhos por um segundo. Derrotado. Acabado. — Quanto? E foi ali… Que Abner teve certeza. Não era sobre força. Nunca foi. Era sobre controle. O dinheiro começou a vir de vários lados. Pequenas extorsões. Pequenos golpes. Pequenas manipulações. Mas constantes. Sempre crescendo. Sempre evoluindo. Ele fingia se machucar em empresas, começava a trabalhar, excelente funcionário, mas aí sofria um pequeno acidente de trabalho... Processava. Ganhava indenizações. Aprendeu a cair de escada. A forçar torção. A simular dor. A convencer médicos. A manipular relatos. Tudo calculado. Tudo ensaiado. Tudo frio. Teve uma vez… Que ele passou duas semanas frequentando uma loja específica. Sempre educado. Sempre discreto. Observando. Esperando. Até o momento certo. Um dia, derrubou uma prateleira inteira “sem querer”. Vidro. Barulho. Confusão. E claro… Um corte bem feito no braço. Nada profundo. Mas impressionante. Sangue suficiente pra causar impacto. Pouco o suficiente pra não causar dano real. O gerente entrou em desespero. Clientes olhando. Funcionários nervosos. Perfeito. Dias depois… Processo. Indenização. Dinheiro. E cada vez que funcionava… Algo dentro dele reforçava. Validava. Confirmava. “Isso funciona.” E quando algo funciona… Você repete. Aprimora. Domina. O pai observava. Sempre. Mas agora… Intervinha menos. Porque não precisava mais. Uma noite, sentado na mesa da cozinha, o pai soltou: — Você não precisa mais de mim pra isso. Abner não respondeu. Só continuou comendo. — Isso é bom. Uma pausa. — Mas também é perigoso. Ele levantou os olhos. — Por quê? O pai apoiou os cotovelos na mesa. — Porque quando você começa a ganhar sozinho… Você começa a achar que é invencível. Silêncio. — E é aí que as pessoas erram. Abner sustentou o olhar. Sem piscar. — Eu não erro. O pai sorriu. De verdade dessa vez. Pequeno. Mas sincero. — Ainda não. Mas lá no fundo… Abner já não se via como alguém que poderia errar. Porque ele não jogava como os outros. Ele via antes. Pensava antes. Agia antes. E o mais importante… Ele não sentia. Enquanto os outros hesitavam… Ele avançava. Enquanto os outros se culpavam… Ele lucrava. Enquanto os outros escondiam segredos… Ele transformava em dinheiro. E foi assim… Entre golpes pequenos, chantagens discretas e manipulações cada vez mais refinadas… Que Abner deixou de ser só um garoto obedecendo o pai. Ele virou algo novo. Algo mais perigoso. Alguém que não precisava mais ser mandado. Porque agora… Ele queria. E quando o desejo entra no jogo… Não existe mais limite. Só crescimento. Só ambição. Só poder. E aquilo… Ainda estava longe de ser o pior.
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