Uma Semana

1123 Words
Faltava uma semana. Sete dias. Centenas de horas. Milhares de pensamentos. Marcela sabia exatamente quanto tempo restava. Não porque alguém lembrava. Mas porque aquilo já estava gravado nela. Como um relógio interno. Contando. Sem parar. Ela acordava pensando nisso. Trabalhava pensando nisso. Dormia pensando nisso. Quando conseguia dormir. Mas agora… Pela primeira vez desde que tudo começou… Ela tinha algo que mudava o cenário. Ela tinha o dinheiro. Não em mãos. Ainda. Mas garantido. Guardado. Seguro. Cada centavo. Cada esforço. Cada noite sem dormir. Cada plantão exaustivo. Cada lágrima engolida. Tudo estava ali. Convertido em um número. Um valor. Uma solução. Faltava pouco. Muito pouco. Mas mesmo assim… A paz não vinha. Porque ele ainda estava lá. Abner não tinha diminuído. Não tinha recuado. Não tinha aliviado. Pelo contrário. Ele parecia… Mais presente. Mais próximo. Mais perigoso. Como se o prazo se aproximando não estivesse deixando ele mais tranquilo… Mas mais instável. Marcela já tinha percebido isso. E não entendia. Se ela ia pagar… Por que aquilo estava piorando? A resposta… Ela ainda não tinha. Naquela tarde, o hospital estava cheio. Mais do que o normal. O ritmo acelerado, vozes se cruzando, passos apressados, o caos habitual de um lugar que nunca parava. Marcela estava saindo de mais um turno. Cansada. Mas não destruída como antes. Agora havia um limite. Um controle maior. Ela atravessou o corredor principal, cumprimentando alguns colegas, ignorando outros, a mente já voltada para casa, para a mãe, para o descanso que ela sabia que precisava. Mas, como já estava se tornando padrão… A paz não durou. Ela sentiu antes de ver. Aquele mesmo peso no ar. Aquela sensação de presença. Aquela intuição que já não falhava mais. Quando chegou à saída lateral do hospital… Ele estava lá. Encostado na parede. Braços cruzados. Observando. Como se aquele fosse o lugar mais natural do mundo para ele estar. Marcela parou por um segundo. Respirou fundo. E seguiu. Sem desviar. Sem fugir. — Você tem algum problema com limites? A voz saiu direta. Cansada. Mas firme. Abner não respondeu de imediato. Apenas acompanhou cada passo dela se aproximando. — Uma semana. Ele disse. Como se não tivesse ouvido a pergunta. Marcela parou a poucos passos. — Eu sei. Silêncio. Ele deu um passo à frente. — Eu também sei. Os olhos dele estavam diferentes. Mais intensos. Mais fixos. — E você? Ele continuou. — Sabe o que acontece quando o prazo acaba? Marcela cruzou os braços. — Sei. — Então me diz. Ela sustentou o olhar. Sem hesitar. — Você vem atrás de mim. Silêncio. Ele inclinou levemente a cabeça. — E? — E tenta me m***r. A resposta saiu seca. Sem emoção. Aquilo fez algo nele. Pequeno. Mas visível. — Não tento. Ele corrigiu. Baixo. — Eu faço. O silêncio pesou. Marcela respirou fundo. E então disse. — Não vai precisar. Ele estreitou levemente os olhos. — Por quê? — Porque eu já tenho o dinheiro. A frase ficou no ar. Por um segundo… Nada. Abner não reagiu. Não demonstrou surpresa. Mas o olhar… Mudou. Mais escuro. Mais atento. — Tem? Marcela assentiu. — Tenho. Silêncio. — Então paga. Simples. Direto. Mas ela não respondeu imediatamente. E quando respondeu… Foi de propósito. — Não. O impacto foi instantâneo. Abner travou. Por um segundo. — Como é? A voz saiu mais baixa. Mais perigosa. Marcela ergueu o queixo levemente. — Eu vou pagar. Pausa. — Mas não agora. O ar mudou. — Você tá brincando comigo? — Não. Ela respondeu. — Eu só vou pagar… Pausa. — Quando o prazo estiver acabando. Silêncio. Pesado. Denso. — Último segundo. Ela completou. Aquilo foi além. Muito além. Abner deu um passo à frente. Rápido. A mão dele foi até a cintura. E, antes que qualquer pensamento pudesse se formar completamente… A arma já estava na mão dele. Fria. Preta. Real. Ele encostou na perna dela. Sem esconder. Sem disfarçar. O metal pressionando através do tecido. Marcela sentiu. Claro que sentiu. O corpo reagiu. Instintivamente. Mas o rosto… Não mudou. — Não brinca comigo. A voz dele saiu baixa. Quase sussurrada. Mas carregada de algo muito mais pesado do que qualquer grito. — Você não faz ideia do que eu sou capaz de fazer. O mundo pareceu diminuir ao redor. Marcela manteve o olhar. — Eu sei exatamente. Silêncio. O coração dela batia forte. Rápido. Mas ela não desviou. — Então para de agir como se eu fosse fugir. Ela continuou. — Eu vou pagar. Pausa. — No prazo. Os olhos dele estavam cravados nela. A arma ainda pressionando. O momento estava por um fio. Até que… Uma voz cortou o ar. — Marcela? Os dois viraram ao mesmo tempo. A enfermeira. A mesma. Aquela que tinha indicado o caminho. Que tinha aberto a porta para tudo aquilo. Ela estava a poucos metros. Parada. Confusa. Preocupada. E viu. Não completamente. Mas o suficiente. Abner foi rápido. A arma sumiu. De volta à cintura. Como se nunca tivesse existido. A postura mudou. O olhar suavizou. O corpo relaxou. Era outra pessoa. — Algum problema? A enfermeira perguntou, se aproximando. Marcela demorou meio segundo. Mas respondeu. — Não. Abner deu um passo para trás. A distância voltou. — A gente tava conversando. Ele disse. Calmo. Educado. A enfermeira olhou de um para o outro. Sem acreditar totalmente. Mas sem prova. — Tudo bem então. Ela murmurou. Ainda desconfiada. Abner olhou para Marcela mais uma vez. Diferente. Mais sério. Mais carregado. — Uma semana. Disse baixo. Só para ela. E então… Foi embora. Sem olhar para trás. Sem dizer mais nada. O silêncio que ficou… Foi pesado. A enfermeira se aproximou rapidamente. — O que foi isso? A voz carregada de preocupação. Marcela respirou fundo. Tentando normalizar. — Nada. — Não foi nada. A enfermeira rebateu. — Eu vi você tensa. Marcela fechou os olhos por um segundo. Cansada. — É ele. A enfermeira ficou em silêncio. — O agiota? Marcela assentiu. — Tá na última semana. Disse. — Ele tá pressionando. A enfermeira franziu a testa. — Estranho. Marcela olhou para ela. — Por quê? — Porque comigo não foi assim. Silêncio. — Ele cobrou, mas não foi ele, foi um rapaz alto. Diferente. Ela continuou. — Mas não… assim. A palavra ficou no ar. Marcela não respondeu. Mas pensou. Pensou muito. Porque aquilo… Não fazia sentido mesmo. Mas não importava mais. Porque agora… Ela tinha o dinheiro. E isso mudava tudo. Ela respirou fundo. — Eu vou pagar. Disse. Mais para si mesma do que para a enfermeira. — E isso acaba. Pela primeira vez… Ela acreditou nisso de verdade. Só não sabia… Que algumas coisas… Não terminam quando a dívida acaba. E Abner… Não era o tipo de problema que se resolvia com dinheiro.
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