Capítulo 5

1955 Words
Acordando com uma brutal dor de cabeça, Lia ouviu os bipes dos aparelhos, instantaneamente também sentiu aquele cheiro único de hospital. Nada havia atingido o seu cérebro pois lembrava muito bem que tinha sido atropelada por alguém, apenas não teve chance de ver quem fora. — Oh, ela acordou. — disse o médico se aproximando da cama. — Bom dia, senhora Bartolomeu. — O que?! — foi a primeira pergunta espontaneamente confusa. — Está tudo bem, ele só vai fazer os últimos exames e saber se está realmente tudo certo com você. — Lia ouviu a voz de Lázzaro preencher seus ouvidos e quase sentiu-se derreter quando ele também se aproximou dela. É apenas uma voz Lia... Mal podia acreditar que ele estava lá, novamente em seu caminho. Tão bonito e elegante, até mesmo os fios do seu cabelo eram excitantes para ela, se contraiu disfarçadamente tentando ignorar o fato do meio de suas pernas estarem doloridos de repente. — Senhor Bartolomeu? O que está acontecendo aqui? — sabiamente ela sussurrou apenas para que ele ouvisse. — Você foi atropelada. Por mim. — revelou ele sem hesitação. Sinceridade era seu forte – em quase tudo. Preferia não omitir detalhes insignificantes. — De novo? — a menina indgnada tentou se levantar, ganhado logo um olhar de reprovação do médico. — Doutor Garcia, poderia me deixar sozinho com minha esposa? — o homem segurando uma risada olhou para Lia advertindo-a para que não protestasse. — Claro, quando terminarem é só apertar o botão que virei terminar os exames. — o simpático doutor se retirou. — Que história é essa?! — Precisei dizer isso já que aqui só atendem famílias e é o melhor hospital da região. — Lia entendeu. — Mas ainda acho que precisa parar de me atropelar! — zangada ela sentou-se na cama sentido a cabeça latejar. — Você falando assim, parece até que eu te atropelo todos os dias. — zombou e segurou novamente uma risada que lhe era extinta e naqueles instantes ele queria muito sorrir da situação. — Só duas vezes. — ironizou — Na primeira eu quase morri em um barranco, na segunda eu nem sei o que houve porque não posso nem imaginar que tipos de lesões eu tenho agora. — exclamou gesticulando. — Não seja dramática. Nas duas vezes eu te socorri. Pense bem que eu poderia ter deixado você lá, na primeira e na segunda vez. — Lázzaro implicou causando uma fúria súbita em Lia. — Olha aqui, Senh... — ele a interrompeu colocando um dedo em cima de seus lábios. Ela parou de falar imediatamente, não por ser obediente a ele e sim por não conseguir mais abrir a boca quando o simples toque dos dedos ásperos nos lábios sensíveis e macios, derreteu algumas células de Lia que se reconstruíram em segundos novamente. Sentiu a pele arder como da primeira vez que ele tocou-lhe. — Olha a boca. — repreendeu-a quando seu peito apertou num salto de seu coração ao tocá-la. Como da primeira vez, e também quando pegou-a no colo para levá-la ao hospital. — Eu não estava em alta velocidade senhorita Hamilton, e pessoas que não estão em alta velocidade, dificilmente atropelam outras. Bem, a não ser que essa pessoa esteja desnorteada entrando na frente dos carros. — disse perto do rosto dela, não conseguindo evitar olhar os olhos tão escuros mas o mesmo tempo tão puros. — Eu... — sentiu-se envergonhada pela desatenção, ao mesmo tempo que sabia no fundo do coração, que não queria ser salva. — Eu estava passando m*l, eu acho. Mas também, perdoe-me, pode parecer ingratidão, eu não queria que alguém me socorresse. — confessou e sentiu o choro subir a garganta. Era impossível não se lembrar de toda humilhação de dias atrás, doía tanto cada palavra, cada agressão, seu coração estava em pedaços e não conseguia passar mais de dez minutos sem relembrar a dolorida vida após a morte de Luzia, sua mãe. — Por que você não queria ser salva? Estava tentando se matar? — questionou enfurecido de repente. Lembrara de como ficou e ainda estava devastado com a notícia de que tinha uma doença incurável, morrendo assim aproximadamente dentro de um ano. — Não exatamente. Mas se acontecesse, seria um alívio. — respondeu com sinceridade. — Você sabe quantas pessoas estão lutando por suas vidas diariamente em todos os lugares? O mundo é cheio de pessoas ingratas que como você, não dão valor a saúde e a vida que tem. Talvez desse o devido valor se descobrisse que está com uma doença que te matará logo logo! — gritou com ela, enraivecido se afastando. — Você não pode dizer isso! Não imagina o porquê de eu não querer mais viver! Pelas suas roupas, carros, e este hospital que me trouxe, deve viver uma vida luxuosa e nada lhe faltar. Não precisa aguentar humilhações e agressões contantes. Fome, frio, dor, desilusão, solidão. Sabe o que é isso ou o seu dinheiro pode comprar tudo? — devolveu ela ferida com lágrimas já descendo. Lázzaro ficou atônito, por algum motivo – desconhecido por ele – sentiu-se abalado com as palavras. Que tipo de coisas aconteceu àquela menina? Mas nada tirava sua raiva por ela não dar valor a uma vida sadia que ele tanto queria continuar tendo. O celular do homem tocou e ele não pôde responder a altura. “Alô.” atendeu secamente ao telefonema. “Lazzáro, a audiência com a Joyce será amanhã às oito da manhã. Você já conseguiu resolver sobre para o nome de quem irá passar o dinheiro?” Marjorie começou sem rodeios.  “Merda, ainda não!” praguejou cerrando os punhos. “Cadê a senhorita Valêncio? Vocês não estavam se conhecendo melhor? Ela não é uma opção para você?” indagou desesperada. Não considerava perder casos, isso não fazia parte da sua vida. “Marjorie, você me disse de início que eu deveria passar para alguém fora do âmbito familiar. Me casar é mesmo a melhor opção?” indagou confuso. “Se for para o nome de alguém que não tem o sobrenome Bartholomeu, Joyce não poderá exigir direitos, no entanto os bens serão congelados e nada poderá ser utilizado. Já se for para a senhora Bartolomeu, poderá sim já que cumpre a exigência do seu pai. E a justiça não poderá reverter.” E foi quando de repente uma ideia surgiu dentro de sua cabeça. A famosa luz no fim do túnel ou o desesperado no deserto a ponto de morrer que achou uma lâmpada com um gênio dentro. Talvez fosse um tanto absurdo aquele pensamento, no entanto começou refletir sobre aquela moça deitada na cama daquele hospital. Havia dito para ele que não queria ser salva e que se morresse seria um alívio, não estava feliz, era muito pobre e vivia na rua. Lembrou-se também de quando ela disse que não tinha pai ou mãe. Lia não tinha nada a perder, só assinaria um papel colocando todos os bens em seu nome além de dar a ela uma vida muito melhor do que a que vivera até aquele dia. Lembrava-se muito bem de quando olhou profundamente dentro dos olhos puros da garota e enxergou que não havia maldade ou malícia. Lidando todos os dias com pessoas tóxicas e podres, sabia exatamente quem era quem apenas observando. Quem ajuda gatos abandonados mesmo sem ter onde cair morta, teria coragem de passar a perna em alguém? Lázzaro refletiu e teve certeza de que achara a pessoa certa. “Na verdade eu já encontrei. Providencie os papéis e mande para minha casa ainda hoje! Pague quanto for necessário para agilizar tudo. Depois acerto com você.” ditou sua ordem e desligou não dando tempo de ouvir os palpites ou questionamentos insignificantes de sua advogada. — Senhorita Hamilton, gostaria de fazer-lhe uma proposta. — sem nenhuma preparação ele disse. — Que proposta? — indagou curiosa. — Quero que se case comigo. — a naturalidade em sua voz fez Lia engasgar com a própria saliva e gargalhar em seguida. — Mas eu achei que já estávamos casados já que o médico me chamou de senhora Bartholomeu... — ironizou sorrindo alto. — Eu disse algo engraçado para que fique rindo da minha cara desta forma? Contei alguma piada senhorita Hamilton? — com o cenho franzido ele perguntou a ela irritado com sua reação. — Não sei se foi uma piada, mas... — ela não conseguia parar de rir — Desculpe senhor Bartholomeu, eu... — deu uma última gargalhada e suspirou parando quando o olhar de Lázzaro quase a fuminou — Acho que quem está zombando da minha cara é o senhor. — Por que estaria? — cruzou os braços sinceramente confuso. Ele pensou que ela deveria pular de alegria com o pedido, por mais inesperado que fosse. — O senhor se casando com alguém como eu? Não existe essa possibilidade. — disse lembrando-se da última conversa dos dois. — Eu ao menos expliquei. Será que posso ou vai ficar dando gargalhadas do palhaço aqui? — o tom saiu exasperado. Ela engoliu em seco quando viu a seriedade em seu olhar, mas também um misto de aflição. — Tudo bem, explique. — Estou com um problema na justiça. A ex-mulher do meu pai está querendo arrancar de mim metade do dinheiro que ele me deixou. Para isso não acontecer, preciso passar para o nome de alguém, assim ela não poderá intervir. — resumiu ele. — Mas o que um casamento tem a ver com isso? — seu questionamento fazia sentido para ele. — Foi a p***a de uma exigência do meu pai. Em uma das cláusulas do testamento ele disse que o dinheiro dele só poderia ser utilizado por mim ou pela nova senhora Bartholomeu. — Mas se isso está no testamento, a ex-mulher dele não pode tentar pegá-lo ué. — deu de ombros. Ele odiava explicar algo para alguém, a paciência era algo raro dentro dele. — Ela tem dois filhos, um mais velho e outro da época em que se envolveu com meu pai, com isso ela está alegando que é filho dele e pela lei tem direitos. Testes de DNA já deram negativo, mas ela insiste que fui eu quem sabotou e para acabar com essa alegação de uma vez por todas ela pediu ao tribunal para escolher o laboratório no qual será feito o novo exame. Não confio nessa mulher e sei que está tramando algo. Por isso quero estar um passo à frente. — ele tentou não soar tão desesperado no entanto o seu olhar não ajudou na tentativa. — E o que irá acontecer se eu disser sim? — perguntou cogitando. — Você assinará os papéis se tornando minha esposa e em seguida assinará um documento passando tudo para o seu nome. Você não poderá sair do meu lado, nunca. Irá morar comigo e sempre ter alguém te acompanhando quando quiser sair. — explicou — Não que eu desconfie que vá embora com tudo, eu te acharia em qualquer lugar do universo de qualquer forma. É apenas prevenção. — E por que eu senhor Bartholomeu? — Porque... Olhe para você, não tem nada a perder, vive nas ruas. Você só não estará me ajudando como também ajudará a si mesma. Lia não iria fazer um escândalo por ele dizer aquilo, não era mentira, ela realmente não tinha nada e contudo também não tinha nada a perder. Pouco tempo antes ela estava disposta até mesmo a desistir da própria vida. Olhara nos olhos de Lázzaro e não sentiu a maldade que costumava pressentir em algumas pessoas ruins que encontrava. Dessa maneira, olhando para ele vendo seu olhar de desespero disfarçado, ela concordou com a cabeça. — Tudo bem, eu me caso com o senhor.
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