Dentro do Império

1211 Words
Alice demorou alguns segundos para falar novamente. Ela estava parada no meio daquela pequena sala que funcionava como escritório administrativo do bunker. As paredes tinham quadros. Planilhas. Mapas da cidade. Listas de números. Rotas marcadas. Regiões divididas em cores diferentes. Tudo organizado com uma precisão que ela não esperava encontrar. Quando Alice pensava em tráfico… Ela imaginava bagunça. Desorganização. Gente armada andando para lá e para cá. Caos. Mas aquilo… Aquilo parecia a sala de gestão de uma empresa. Uma empresa grande. Talvez até maior do que algumas empresas que o próprio pai dela administrava. Ela caminhou lentamente pela sala. O calçado dela fazia um som leve no chão de cimento polido. Valente estava encostado na mesa. Braços cruzados. Observando ela. Alice parou diante de um quadro grande preso na parede. Era um mapa da cidade. Vários pontos marcados. Linhas ligando diferentes regiões. Algumas áreas estavam destacadas. Ela inclinou a cabeça. — Isso aqui são… territórios? Valente respondeu calmamente. — Regiões de venda. Alice virou levemente o rosto. — Cada cor é uma equipe diferente? — Exato. Ela voltou a olhar o mapa. — E você controla tudo daqui? — Uma parte. Ela franziu a testa. — Uma parte? Valente deu de ombros. — Eu tenho outros pontos. Alice soltou um pequeno suspiro. — Claro que tem. Ela cruzou os braços. — Eu deveria ter imaginado. Ela continuou olhando o mapa. — E ninguém invade essas regiões? Valente respondeu com naturalidade. — Se invadir… Ele fez um pequeno gesto com a mão. — Dá problema. Alice olhou para ele. — Problema tipo… conversa? Valente soltou uma risada curta. — Às vezes. Ela estreitou os olhos. — E às vezes? — Às vezes não. Alice ficou alguns segundos em silêncio. Pensando. Depois voltou a olhar para os quadros. — Quantas pessoas trabalham para você? Valente pensou por um instante. — Diretamente? — É. — Algumas centenas. Alice virou o rosto devagar. — Você está brincando. — Não. Ela apoiou as mãos na mesa. — Centenas? — Somando vendedores, transporte, segurança, produção… Ele inclinou a cabeça. — Dá bastante gente. Alice passou a mão pelos cabelos. — Isso é absurdo. Valente sorriu. — É gestão. Ela apontou para as planilhas. — E isso aqui? — Controle. Alice pegou uma folha. Leu rapidamente. — Comissão. — Quantidade vendida. — Metas semanais. Ela levantou o olhar. — Metas? Valente deu de ombros. — Gente sem meta não trabalha direito. Alice soltou uma pequena risada incrédula. — Você transformou tráfic0 em setor comercial. — Funciona. Ela voltou a olhar as folhas. — Isso parece uma startup ileg4l. Valente apoiou o peso em uma perna. — O mundo funciona com dinheiro, Barbie. Ela levantou os olhos. — Para de me chamar assim. Ele sorriu. — Não. Alice balançou a cabeça. Mas não insistiu. Ela estava curiosa demais. Ela caminhou até outro quadro. — Esses números aqui… Ela apontou. — São vendas mensais? Valente assentiu. Alice ficou olhando. Calculando mentalmente. Fazendo contas rápidas. Valente percebeu. — Já está fazendo conta? Ela respondeu sem tirar os olhos do quadro. — Claro. — Isso é impossível de ignorar. Ela virou para ele. — Você sabe que isso aqui movimenta mais dinheiro que muita empresa legal? Valente respondeu com tranquilidade. — Eu sei. Alice respirou fundo. — Meu pai surtaria se visse isso. Valente inclinou a cabeça. — Seu pai ficaria interessado, ele tem cara de quem faz tudo por dinheiro. Alice riu. — Talvez. Ela voltou a olhar as planilhas. — Mas ele também chamaria a polícia. — Provavelmente. Alice caminhou pela sala novamente. Observando tudo. — Eu nunca pensei que veria algo assim. Valente perguntou: — Está arrependida? Ela parou. Pensou um pouco. Depois respondeu: — Não. Valente levantou uma sobrancelha. — Não? — Não. Ela olhou ao redor. — Eu estou chocada. — Impressionada. — Um pouco assustada. Ela deu de ombros. — Mas também estou curiosa. Valente sorriu de lado. — Eu sabia. Alice cruzou os braços. — Sabia? — Você tem cara de quem gosta de entender as coisas. E você não tem medo do perigo. Ela suspirou. — Eu gosto de lógica. — Estrutura. — Números. Ela apontou para o quadro novamente. — E isso aqui é um sistema. Valente se afastou da mesa. — Vem. Ele abriu a porta da sala. — Vou te mostrar mais uma coisa. Alice seguiu ele. Eles voltaram para o galpão principal. Agora ela olhava tudo com outros olhos. Não apenas como algo chocante. Mas como um sistema funcionando. Pessoas trabalhando. Movimento constante. Organização. Valente caminhou pelo espaço. Alguns homens cumprimentaram ele com respeito. — Fala, chefe. — Opa, chefe. Ele respondeu com acenos discretos. Alice percebeu isso. — Todo mundo aqui te chama de chefe. — Porque eu sou. Ela observou os trabalhadores. — Eles parecem… tranquilos. Valente respondeu: — Porque recebem. Alice franziu a testa. — Só por isso? — Também porque sabem que aqui ninguém passa a perna em ninguém. Se não vai pra vala. Ela olhou para ele, assustada, mas talvez disfarçando. — Você tem regras. — Muitas. — Tipo? Valente respondeu sem hesitar. — Roubo interno. — Traição. — Mentira. Ele deu de ombros. — Isso acaba rápido. Alice não perguntou como. Mas imaginou. Eles caminharam até uma área elevada do galpão. Uma espécie de passarela metálica. De lá era possível ver quase todo o espaço. Alice encostou no corrimão. Olhando para baixo. — Isso parece uma colmeia. Valente sorriu. — Boa comparação. Ela continuou observando. — Cada um fazendo sua parte. — Tudo funcionando junto. Valente ficou ao lado dela. — Exatamente. Ela virou o rosto. — E eu entro onde nisso tudo? Ele respondeu com calma. — No dinheiro. Alice levantou uma sobrancelha. — Claro. Ele apontou para o galpão. — Tudo isso aqui gira em torno de números. — Produção. — Venda. — Distribuição. Ele olhou para ela. — E você entende de números melhor do que qualquer um aqui. Alice pensou um pouco. — Talvez. Valente completou: — Então você vai me ajudar a ganhar mais. Ela sorriu. — Você já ganha muito. Ele respondeu: — Nunca é suficiente, eu já perdi uma fortuna, você tá aqui pra isso não se repetir. Alice voltou a olhar para o galpão. O movimento. As pessoas. O império clandestino funcionando sob a cidade. E pela primeira vez… Ela percebeu algo. Valente não era apenas um criminoso. Ele era… Um gestor. Um estrategista. Alguém que construiu algo enorme. Errado. Perigoso. Mas impressionante. Ela virou para ele. — Você construiu tudo isso sozinho? Valente ficou em silêncio por alguns segundos. Depois respondeu: — Não. — Mas eu fui quem organizou. Alice assentiu lentamente. — Dá pra perceber. O silêncio caiu entre os dois. Mas não era um silêncio pesado. Era um silêncio de observação. De análise. De entendimento. Alice respirou fundo. E então disse: — Tá. Valente olhou para ela. — Tá o quê? Ela cruzou os braços. — Se eu vou recuperar sua grana… Ela apontou para o galpão inteiro. — Então eu preciso entender esse negócio melhor. Valente sorriu. Um sorriso lento. Perigoso. — Eu estava esperando você dizer isso. E naquele momento… Alice percebeu uma coisa. Ela tinha acabado de dar o primeiro passo. Para dentro do mundo perigoso de Bruno Valente.
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