Assim que o carro saiu do estacionamento da empresa do pai de Alice…
Os dois ficaram alguns segundos em silêncio.
A cidade corria pelas janelas.
Carros.
Semáforos.
Pessoas caminhando apressadas.
Mas dentro do SUV…
A tensão que existia no escritório simplesmente evaporou.
Alice foi a primeira a quebrar o silêncio, depois de um tempo.
Ela soltou um suspiro longo.
Depois outro.
E então…
Começou a rir.
Uma risada leve.
Mas cheia de alívio.
— Meu Deus…
Ela levou a mão à testa.
— Eu não acredito no que acabou de acontecer.
Valente olhou de canto.
— Nem eu.
Ela virou o rosto para ele.
Ainda rindo.
— Roberto?
Ele deu de ombros.
— Foi o primeiro nome que veio na cabeça. Já disse, é comum.
Alice balançou a cabeça.
— Você mentiu muito bem.
Valente deu um pequeno sorriso.
— Experiência.
Ela estreitou os olhos.
— Nem parecia um traficante da pesada.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Como é que é?
Alice continuou rindo.
— Sério.
Ela apontou para ele.
— Você estava parecendo um mauricinho.
Valente soltou uma risada baixa.
— Agora você exagerou.
Alice cruzou os braços.
— Não exagerei nada.
— Camisa polo, relógio bonito, cabelo arrumado…
Ela fez um gesto teatral.
— O filho do grande empresário Roberto.
Valente balançou a cabeça.
— Você vive reclamando quando eu te chamo de patricinha.
— Agora eu virei mauricinho?
Alice sorriu.
— Só um pouquinho.
O carro entrou em uma avenida mais vazia.
O trânsito diminuiu.
A cidade começou a ficar para trás.
Alice percebeu.
— A gente não está voltando para o morro.
Valente respondeu calmamente.
— Estamos.
— Só que por outro caminho.
Ela encostou no banco.
— Entendi.
Alguns minutos passaram.
Então Valente falou novamente.
A voz ficou um pouco mais séria.
— Agora se prepara, Barbie.
Ela olhou para ele.
— Por quê?
Ele virou o volante suavemente.
Entrando em uma estrada menor.
— Porque agora…
Ele deu um pequeno sorriso.
— É hora de trabalhar de verdade.
Alice franziu a testa.
— Trabalhar como?
Ele não respondeu.
Apenas continuou dirigindo.
A estrada começou a ficar mais isolada.
Menos casas.
Mais mato.
Mais silêncio.
O céu já começava a mudar de cor.
A tarde avançava lentamente.
Depois de algum tempo…
O carro entrou em um caminho de terra.
Alice olhou pela janela.
— Onde a gente está?
— Quase chegando.
O caminho terminou em um portão grande de metal.
Enferrujado.
Discreto.
Quase escondido entre árvores.
Valente buzinou duas vezes.
Alguns segundos depois…
O portão começou a abrir.
Alice arregalou os olhos.
— O que é isso?
— Uma entrada.
— Para onde?
Valente sorriu.
— Você vai ver.
O SUV entrou.
O portão fechou atrás.
Do lado de dentro havia um terreno grande.
Alguns galpões antigos.
Construções simples.
Mas tudo parecia… protegido.
Valente estacionou perto de um dos galpões.
Desligou o motor.
— Chegamos.
Alice olhou ao redor.
— Isso parece um depósito abandonado.
Valente abriu a porta.
— Parece.
Ele saiu do carro.
Depois caminhou até o lado dela.
Abriu a porta.
E estendeu a mão.
— Cuidado.
Alice segurou.
Ele ajudou ela a descer.
— Obrigada.
— De nada.
Eles caminharam até o galpão.
A porta de metal abriu com um rangido.
Por dentro…
Estava escuro.
Muito escuro.
Alice hesitou.
— Você tem certeza que isso é seguro?
Valente entrou primeiro.
— Confia em mim.
Ele procurou algo na parede.
Então apertou um botão.
A luz acendeu.
Primeiro uma.
Depois outra.
E então várias lâmpadas iluminaram o espaço.
Alice parou.
Completamente parada.
Os olhos dela se abriram lentamente.
— Meu Deus…
O galpão era enorme.
E claramente…
Não era um depósito comum.
Havia mesas grandes.
Equipamentos industriais.
Máquinas.
Prateleiras cheias de caixas.
Freezers industriais.
Material embalado. Drog4s de todo tipo, comprimido, bala, pó, maconh4...
Pessoas trabalhando em diferentes áreas.
Algumas separando produtos.
Outras organizando caixas.
Tudo funcionando com uma organização quase… empresarial.
Alice caminhou devagar.
Observando tudo.
— Eu nunca vi nada assim…
Valente observava a reação dela.
Silencioso.
Ela passou por uma mesa.
Olhou para os produtos embalados.
Depois para os equipamentos.
— Isso tudo…
Ela virou para ele.
— É seu?
Valente respondeu com calma.
— Uma das minhas fábricas.
Alice ficou olhando.
Ainda processando.
— Você tem várias?
Ele deu de ombros.
— Algumas.
Ela caminhou mais um pouco.
— Isso parece uma empresa.
— É uma empresa.
— Só que ilegal.
Valente sorriu.
— Detalhe técnico.
Alice continuou andando.
Curiosa.
Realmente curiosa.
Era um mundo completamente diferente do dela.
Totalmente diferente.
Ela observava as pessoas.
A organização.
Os equipamentos.
E começou a fazer algo que vinha naturalmente para ela.
Analisar.
Calcular.
Pensar em números.
Ela parou.
Olhou para o espaço inteiro.
Depois perguntou:
— Quanto custa manter tudo isso?
Valente cruzou os braços.
— Muito.
— Quanto é muito?
Ele inclinou a cabeça.
— Por quê?
— Curiosidade.
Ela apontou ao redor.
— Energia.
— Equipamento.
— Transporte.
— Segurança.
— Funcionários.
Ela olhou para ele.
— Isso aqui deve custar uma fortuna por mês.
Valente sorriu.
— Agora você está começando a pensar como alguém que trabalha comigo.
Alice ignorou o comentário.
Ela estava concentrada.
— Quantas pessoas trabalham aqui?
— Nesse lugar?
— É.
— Quase cinquenta.
Alice arregalou os olhos.
— Cinquenta?
— Só aqui.
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Pensando.
— E todos ganham?
— Claro.
— Salário?
— Comissão também.
Alice respirou fundo.
— Isso é muito mais complexo do que eu imaginava.
Valente fez um gesto com a cabeça.
— Vem comigo.
Ele caminhou para o fundo do galpão.
Alice seguiu.
Eles passaram por uma porta de metal.
Entraram em um corredor.
Depois em uma sala menor.
Valente acendeu a luz.
Alice olhou ao redor.
A sala parecia um escritório.
Mesa.
Cadeiras.
Computadores.
Quadros.
Planilhas.
Mapas.
E uma grande lousa com números.
Muitos números.
Alice se aproximou.
Os olhos dela começaram a brilhar.
Não de entusiasmo pelo crim3.
Mas pela lógica.
Pela matemática.
Pela estrutura financeira.
— Isso aqui é…
Ela se aproximou mais.
— Controle de vendas?
Valente assentiu.
— Tudo.
Ele apontou para os quadros.
— Quantidade de vendedores.
— Quanto cada um vende.
— Comissão.
— Regiões.
Alice se aproximou ainda mais.
— Isso é… um sistema de distribuição inteiro.
— Exato.
Ela olhou para ele.
— Você realmente administra isso como uma empresa.
Valente deu de ombros.
— Porque é uma empresa. Só que tá meio bagunçado, você sabe, por isso a gente tomou aquele golpe.
Ela passou alguns minutos olhando os números.
Fazendo cálculos mentais.
Comparando.
Até que finalmente virou para ele.
— Agora eu entendi.
— Entendeu o quê?
— Por que você ficou desesperado quando eu disse que ia recuperar o dinheiro.
Ele cruzou os braços.
— Por quê?
Ela apontou para os quadros.
— Porque isso aqui gera dinheiro o tempo todo. É muita grana pra perder assim.
Ele sorriu.
— Exato.
Alice apoiou as mãos na mesa.
— Mas também gera custos enormes.
Valente assentiu.
— E é aí que você entra.
Ela olhou diretamente para ele.
— Eu?
— Você prometeu recuperar a grana.
— Prometi.
Valente apontou para o quadro novamente.
— Então começa aqui.
Silêncio.
Alice respirou fundo.
Olhou novamente para os números.
Para o sistema.
Para a estrutura.
Para aquele mundo que ela nunca imaginou conhecer.
E então disse:
— Tá bom.
Ela cruzou os braços.
— Vamos ver se esse império realmente é tão eficiente quanto você acha.
Valente abriu um sorriso.
Um sorriso verdadeiro.
Porque naquele momento…
Ele percebeu uma coisa importante.
Alice não estava apenas assustada.
Ela estava…
Interessada.
E isso podia mudar tudo.