Um Dia

1575 Words
O morro ainda respirava tensão. O anúncio tinha sido feito horas antes, mas ninguém dormia direito no Morro das Garças. Quando o chefe dizia que havia traidor, significava que alguém estava sendo caçado. E quando alguém era caçado… todo mundo sentia. Alice também sentia. Mas não medo. O que corria nas veias dela era outra coisa. Cálculo. Ela subiu a viela com passos firmes, mesmo sentindo os olhares. Alguns curiosos. Outros desconfiados. Alguns claramente hostis. Ela sabia que destoava. Blusa clara demais. Jeans bem cortado demais. Postura reta demais. Mas não desacelerou. Camila tinha avisado onde ficava. “A casa dele é a única que parece cobertura de condomínio.” E era verdade. No ponto mais alto do morro, uma construção moderna destoava das outras. Vidros espelhados. Portão eletrônico reforçado. Sistema de câmeras girando lentamente. Poder visível. Alice parou diante do portão. Respirou fundo. Apertou o interfone. Do outro lado, silêncio por dois segundos. — Quem é? A voz grave atravessou o metal. Ela reconheceria aquela voz em qualquer lugar. — Alice. Silêncio. — Quem? Ela sabia que ele sabia. — A Barbie. Do outro lado, uma respiração curta. Quase uma risada. O portão abriu. Lento. Como se ela estivesse entrando numa jaula. O Território do Lobo... Ela entrou. O pátio interno era amplo, limpo demais para o padrão da comunidade. Piso de porcelanato. Iluminação embutida. Câmeras discretas nos cantos. Valente estava parado na porta principal. Camisa preta. Braços cruzados. Boné pra trás. Expressão entediada. Mas os olhos… atentos. — Eu mandei você sumir do meu morro, Barbiezinha. O apelido veio carregado de deboche. Alice caminhou até parar a poucos passos dele. — E eu disse que não recebo ordem de estranho. Ele inclinou levemente a cabeça. — Eu não sou estranho. Eu sou o dono disso tudo. — Dono ou administrador m*l organizado? O maxilar dele travou. Atrás dele, Dioguinho observava, claramente pronto para intervir se necessário. Valente deu dois passos à frente. Ficaram próximos demais. — Você tem três segundos pra explicar o que veio fazer aqui antes que eu perca a paciência. Alice sustentou o olhar. — Eu ouvi você dizer que estão zerados. Ele riu. Baixo. Frio. — Você veio fazer doação, Barbie? — Não. Eu vim resolver. O silêncio caiu pesado. Dioguinho franziu o cenho. Valente descruzou os braços. — Resolver o quê? — Seu problema de caixa. Ele soltou uma gargalhada aberta dessa vez. — Você acha que isso aqui é o quê? Empresa de shopping? — É pior — ela respondeu sem hesitar. — Porque pelo que eu percebi, vocês não têm controle básico. O riso morreu. — Você tá achando que entende do que tá falando? Isso aqui não é brincadeira, é o crime da favela. — Sim, eu entendo. Ela respirou fundo. — Se um único homem conseguiu raspar tudo, é porque não existia segregação de funções. Não tinha dupla conferência. Não tinha auditoria interna. Não tinha controle cruzado de estoque com venda. Provavelmente vocês trabalham só com dinheiro físico e planilha m*l feita. Valente não piscava. Mas estava ouvindo. — E você sabe disso como? — Porque ninguém perde milhões, que suponho que você tinha, da noite pro dia sem um sistema fraco e confiança burr4. Dioguinho se mexeu, incomodado. — Cuidado com a boca, garota. Alice ignorou. Olhos fixos em Valente. — Você quer recuperar o caixa? Ele deu mais um passo. Agora estavam a menos de um palmo. — Você não faz ideia do tamanho do dinheiro que tá falando. — Então me diz. Ele a estudou. Talvez esperando que ela tremesse. Ela não tremeu. — Sete milhões — ele disse por fim. Ela não arregalou os olhos. Não engasgou. Apenas processou. Sete milhões não era impossível, pelo contrário, podia crescer muito mais. Era fluxo m*l distribuído. Era margem m*l calculada. Era desperdício. — Quanto vocês ainda têm de produto? — ela perguntou. Ele franziu o cenho. — O suficiente. — Isso não é resposta. Ele cruzou os braços novamente. — E você acha que eu vou sair te passando informação? — Se você não passar, continua zerado. O silêncio ficou pesado outra vez. Era um jogo. E ele estava avaliando. — Vamos supor — ele disse devagar — que eu te diga quanto tem. — Eu faço projeção. — Projeção de quê? — De giro. De margem. De recuperação de caixa. De reajuste temporário de preço. De redução de perda. De antecipação de pagamento. De crédito controlado. Dioguinho piscou, perdido. Valente não. — Fala português, Barbie. Ela respirou. — Vocês devem vender no fiado pra algumas áreas. Ele não respondeu. Mas o silêncio confirmou. — Suspende crédito temporariamente. — O povo vai chiar. — Melhor chiar do que você perder território. Ele ficou quieto. Ela continuou: — Reajuste pequeno nos itens de maior saída. Não todos. Só os de giro rápido. Se o volume é alto, margem pequena já gera caixa. — Você tá falando de aumentar preço. — Temporariamente. — E se o povo não pagar? — Eles pagam, são viciados, não são? Ela inclinou o rosto. — E aqui você manda. O olhar dele escureceu. — Continua. — Reduz desperdício. Quem controla estoque hoje? — Cada ponto controla o seu. — Erro. — Você nem viu. — Não preciso ver. Se o dinheiro sumiu, o controle é fraco. Ela deu um passo à frente. — Centraliza. Conferência diária. Meta de venda. Meta de giro. Penalidade para desvio. Ele estreitou os olhos. — Você fala como se isso fosse supermercado. — Não. Eu falo como se fosse negócio e disso, eu entendo. O ar ficou denso. Ele estudava cada palavra. Ela não estava falando como patricinha curiosa. Ela estava falando como quem entendia mesmo. — E quanto tempo você acha que leva pra recuperar sete milhões? — ele perguntou. — Depende da margem atual. — Não depende de polícia subindo? — Isso é risco operacional. Eu tô falando de número. Ele quase sorriu. Quase. — E você resolve isso em quanto tempo? Ela sustentou o olhar. — Me dá um dia. Dioguinho riu alto. — Um dia? Essa mina é maluca. Valente manteve os olhos nela. — Um dia você faz o quê exatamente? — Eu te mostro resultado inicial. — Resultado de sete milhões? — Resultado de estratégia. Ela deu um passo mais perto ainda. — Se eu não te surpreender… eu te pago o dobro do que você perdeu. Silêncio absoluto. Dioguinho arregalou os olhos. — Tá loucona filha? Valente não tirava os olhos dela. — Você tem ideia do que tá prometendo, Barbiezinha? Ela sentiu o coração bater mais forte. Mas não recuou. Ela tinha uma reserva. Pequena. Dinheiro guardado em conta particular escondida do pai. Dinheiro que ele nunca soube. Era arriscado. Mas ela precisava apostar. — Tenho, se eu conseguir, você me dá liberdade e proteção aqui no morro, é só o que eu quero. Ele inclinou o rosto. — Parece bom, mas você tem sete milhões? — Não. — Então como vai pagar o dobro? — Eu dou um jeito. Ele deu uma risada baixa. — Eu gosto de gente que fala com convicção mesmo quando não tem como cumprir. Ela respondeu: — Eu cumpro. O silêncio entre os dois era quase físico. Desafio puro. Ele estendeu a mão. Grande. Firme. — Um dia. Ela olhou para a mão dele. Depois para os olhos dele. E colocou a própria mão na dele. O toque foi forte. Ele apertou mais do que precisava. Como se estivesse testando. Ela apertou de volta. Sem desviar o olhar. — Um dia — ela repetiu. Ele aproximou o rosto do dela. — Se você estiver blefando… — Eu não blefo. O canto da boca dele subiu levemente. — Você é corajosa. — Eu sou contadora. Ela inclinou o rosto. — A melhor que você vai conhecer. Ele soltou a mão dela devagar. — A partir de agora, você pode trabalhar aqui, sob meus olhos, não gosto de gente estranha se metendo no que é meu, mas vou te dar essa chance. Ela piscou. — Aqui? — No meu escritório. Ele virou de costas. — Vem. Ela entrou. E entendeu o que Camila quis dizer. O interior da casa era luxo puro. Sala ampla. Sofá de couro. TV gigante. Iluminação quente. Piso impecável. Subiram uma escada. E ele abriu uma porta. O escritório era grande, moderno, com duas telas enormes, computadores de última geração, sistema de monitoramento nas paredes mostrando câmeras espalhadas pelo morro. Planilhas abertas. Papéis espalhados. Caos organizado. — Aqui é o melhor lugar do morro — ele disse. — Melhor sistema. Melhor segurança. Ele virou para ela. — E agora é seu campo de teste, Barbie. Ela caminhou até a mesa. Passou os olhos pelos relatórios. Em poucos segundos, já identificava falhas. Faltava padrão. Faltava método. Faltava estratégia. Ela sentiu algo que nunca tinha sentido trabalhando com o pai. Excitaçã0 intelectual. Aquilo era um desafio real. Ela virou para ele. — Amanhã, no mesmo horário, te mostro resultado. — Amanhã — ele confirmou. Ela caminhou até a porta. Mas antes de fechar, para começar a trabalhar, ele chamou: — Barbie. Ela virou. — Se você estiver tentando me enganar… Ela ergueu uma sobrancelha. — Você já teria percebido. Um segundo de silêncio. Ele respondeu: — Veremos. Ele saiu. E pela primeira vez em muito tempo… Bruno Valente sorriu de verdade. Porque alguém tinha tido coragem de bater de frente. E ele queria ver até onde aquela loira ia.
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