O escritório de Bruno Valente não era improvisado.
Era estratégico.
Paredes reforçadas. Porta de madeira maciça com fechadura eletrônica. Sistema de câmeras exibindo, em tempo real, ângulos diferentes do Morro das Garças. Dois computadores de última geração. Um notebook extra fechado ao lado. Impressora profissional. Cofre embutido atrás de um quadro moderno.
Não era o ambiente que se esperava no alto de uma favela.
Mas Valente não construía nada pela metade.
Alice sentou na cadeira principal.
Ajustou a altura.
Girou levemente para a esquerda, analisando as telas.
Planilhas abertas.
Colunas desalinhadas.
Lançamentos repetidos.
Datas inconsistentes.
Ausência de padronização.
Ela respirou fundo.
— Amadorismo perigoso — murmurou para si mesma.
Começou pelo básico.
Criou uma nova planilha do zero.
Classificação de entradas.
Separação por ponto de venda.
Separação por tipo de produto.
Separação por forma de pagamento.
Mesmo sendo majoritariamente dinheiro físico, havia registros de “crédito interno” — nome bonito para fiado.
Erro número um.
Ela puxou uma pilha de documentos.
Notas escritas à mão.
Valores arredondados demais.
Sem assinatura.
Sem dupla validação.
Erro número dois.
Ela digitava rápido.
Extremamente rápido.
A mente funcionava como máquina de projeção.
Enquanto reorganizava dados, já calculava mentalmente margem média.
Margem estava errada.
Produto A tinha giro alto, mas margem baixa demais.
Produto B tinha margem excelente, mas estoque parado.
Falta de estratégia.
Falta de inteligência financeira.
Ela não estava ali para julgar a origem do negócio.
Estava ali para estruturar.
Horas passaram.
Ela não percebeu.
O céu escureceu completamente lá fora.
E foi quando a porta se abriu devagar.
Ela ergueu o olhar.
Dioguinho entrou com um sorriso leve, diferente da postura tensa que ele sempre tinha ao lado do chefe.
— Fala, Barbie… disse ele, meio sem jeito.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Pode me chamar de Alice.
Ele riu.
— Se o Valente ouvir eu chamando você pelo nome, ele me bate até amanhã, aqui no morro apelido é apelido.
Ela voltou para a tela.
— Então me chama de Barbie só quando ele estiver perto.
Ele fechou a porta com o pé.
Estava segurando uma bandeja improvisada.
Dois sanduíches naturais embrulhados em papel alumínio e um copo alto de suco de laranja.
— Trouxe pra você — ele colocou ao lado do teclado. — Tu tá aqui desde tarde e nem levantou e nem comeu nada.
Ela piscou.
Só então percebeu que o estômago estava roncando.
— Obrigada.
Ele puxou a cadeira ao lado.
Sentou.
Observou as telas.
— Tu parece doida, sabia?
Ela mordeu o sanduíche sem tirar os olhos do monitor.
— Ouço isso com frequência.
— Mas é doida da boa — ele continuou. — Chegar aqui, bater de frente com o chefe… isso é coragem.
Ela engoliu.
— Não é coragem. É cálculo.
— Tu não tem medo dele?
Ela finalmente virou o rosto.
— Eu não tenho medo de homem nenhum.
Dioguinho soltou uma risada baixa.
— Tu é diferente mesmo.
Ele apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Eu vou falar uma coisa… mas não espalha.
Ela ficou atenta.
— Eu acredito em você.
Ela não esperava por aquilo.
— Acredita?
— O morro nunca teve alguém que entendesse de número de verdade. O cara que tava antes… ele fazia o básico. Mas era tudo no improviso. O chefe confia, mas confia porque sempre deu certo. Só que agora…
Ele fez um gesto vago com a mão.
— Agora deu errado.
Alice assentiu.
— Se você conseguir arrumar isso — ele continuou — você vai ter toda a moral e respeito do Valente. E isso aqui… não é fácil de conseguir.
Ela segurou o copo de suco.
— Eu não quero respeito pelo que sou.
— E pelo quê tu quer?
Ela olhou para as telas.
— Pelo que eu faço.
Dioguinho ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois levantou.
— Tá aqui tudo que tu pediu.
Ele colocou uma caixa cheia de documentos organizados às pressas.
— Registro de entrada, saída, controle de estoque dos pontos, histórico dos últimos seis meses, lista de fornecedor.
Ela abriu a caixa.
Os olhos brilharam.
Material bruto.
Informação.
— O Valente falou que se tu quiser, pode dormir no quarto de hóspedes. Lá em cima, o último do corredor. Se ficar cansada.
Ela nem piscou.
— Eu não vou dormir.
Ele riu.
— Eu falei que tu era doida.
Ela sorriu de canto.
— Amanhã eu mostro pra ele que não sou.
Dioguinho saiu.
E o escritório voltou ao silêncio.
Alice mergulhou nos números.
Criou um novo fluxo de caixa consolidado.
Mapeou desperdícios.
Identificou divergências de estoque.
Descobriu que dois pontos estavam declarando venda abaixo do real.
Desvio interno.
Separou.
Anotou.
Criou uma projeção.
Se ajustassem margem em apenas três produtos de maior saída em 4%, gerariam X valor adicional por semana.
Se suspendessem crédito por quinze dias, gerariam Y.
Se aplicassem controle centralizado de estoque com conferência diária, reduziriam perda estimada em Z.
Ela trabalhava com precisão cirúrgica.
Era bonita concentrada.
A testa levemente franzida.
Os dedos voando no teclado.
O cabelo loiro preso de qualquer jeito com uma caneta que encontrou por ali.
A luz da tela refletindo nos olhos azuis.
Era intensidade pura.
Lá fora, o morro aos poucos silenciava.
Mas no último andar da casa de Valente, a luz permanecia acesa.
Bruno Valente não conseguia dormir.
Virava de um lado.
Virava do outro.
O teto parecia mais baixo naquela noite.
Ele não gostava de perder controle.
E deixar uma desconhecida mexendo nas entranhas financeiras do morro era exatamente isso.
Perda de controle.
Ele levantou.
Passou a mão pelo rosto.
Olhou para o relógio.
02:47.
A luz do escritório ainda estava acesa.
Ele ficou parado no corredor por alguns segundos.
Pensando.
Depois caminhou até a porta.
Bateu duas vezes.
Não esperou resposta.
Abriu.
Ela nem percebeu de imediato.
Só quando a sombra dele caiu sobre a mesa.
— Você não dorme, não, Barbie?
Ela continuou digitando.
— Não quando tem erro desse tamanho pra corrigir.
Ele entrou.
Fechou a porta atrás de si.
Caminhou até parar ao lado dela.
Olhou para a tela.
Planilhas novas.
Gráficos.
Projeções.
— Tá fazendo o quê exatamente?
Ela suspirou.
— Trabalhando.
— Isso eu tô vendo.
Ela finalmente virou o rosto.
— Então por que perguntou?
Ele estreitou os olhos.
— Cuidado com o tom.
— Cuidado você — ela rebateu — de não atrapalhar.
Ele soltou um riso curto.
— Você fala como se mandasse aqui.
— No que diz respeito a número, eu mando muito bem.
O ar ficou denso.
Ele se aproximou um pouco mais.
— Você é muito metida pra quem tá dependendo da minha boa vontade.
Ela se levantou de repente.
Ficaram frente a frente.
Muito próximos.
— Eu não dependo da sua boa vontade. Eu fiz uma proposta. Você precisa de mim.
— Você é ousad4 demais pra uma patricinha.
O termo veio carregado.
Ela não recuou.
— Eu não sou uma patricinha mimada.
— Não? — ele provocou. — Loira, olho azul, roupa cara, carrinho top colando aqui no morro.
— E contadora.
Ela apontou para a tela.
— Enquanto você tava rodando discurso lá fora, eu já identifiquei três pontos desviando produto. Dois erros graves de margem e uma falha de estoque que te custa quase cinquenta mil por semana.
Ele não piscou.
Mas o maxilar travou.
— Você tá inventando número.
Ela girou a tela para ele.
— Confere.
Ele se inclinou.
Leu.
Silêncio.
Ela continuou:
— Se você tivesse controle cruzado, isso não teria acontecido.
— Você acha que é simples assim?
— Não. Eu acho que você nunca priorizou isso.
Ele ficou irritado.
— Eu priorizo o que mantém o morro de pé.
— E o que mantém o morro de pé é dinheiro bem administrado.
Ela deu um passo à frente.
— Você quer que eu prove que não sou só uma Barbie de condomínio?
Ele a encarava intensamente.
— Então deixa eu fazer meu trabalho.
O silêncio se estendeu.
Ele sentia algo estranho.
Raiva.
Adrenalina.
E uma ponta de admiração que ele odiava admitir.
Ela estava ali.
De madrugada.
Sem reclamar.
Sem frescura.
Sem pedir ar-condicionado especial.
Trabalhando como se aquilo fosse a própria empresa.
Ele passou a mão pelo queixo.
— Você é teimosa.
— Você também.
— Eu não gosto de ser contrariado.
— Eu não gosto de incompetência.
Aquilo foi demais.
Ele deu um passo brusco para frente.
Ela não se mexeu.
— Repete.
— Eu disse que você nunca priorizou a parte financeira como deveria.
Ele respirou fundo.
Segurou o impulso de explodir.
Porque, no fundo…
Ela estava certa.
Ele baixou ligeiramente o tom.
— Você fala como se entendesse de tudo.
Ela cruzou os braços.
— Eu entendo de números, já disse.
Um segundo de silêncio.
Ele olhou para ela de cima a baixo.
E foi inevitável.
Ele percebeu o quanto ela era linda.
Mesmo irritada.
Mesmo com olheiras começando a aparecer.
Os olhos azuis brilhando de desafio.
A boca firme.
Quando ficava brava… ficava ainda mais bonita.
Ele desviou o olhar primeiro.
— Se você me tirar do buraco — ele disse mais baixo — eu reconheço.
Ela ergueu o queixo.
— Eu vou tirar.
Ele voltou a encará-la.
E havia algo diferente ali agora.
Não era só deboche.
Era interesse.
— Então trabalha, Barbie.
Ela sentou novamente.
— E você para de se meter, Lobo mau.
Ele quase sorriu.
Quase.
Mas saiu.
Fechando a porta atrás de si.
No corredor, ele ficou parado alguns segundos.
Bolado.
Porque aquela menina tirava ele do sério.
Com aquela boca dura.
Com aquela postura que não abaixava.
Mas, ao mesmo tempo…
Ele não conseguia ignorar.
E isso o incomodava mais do que qualquer número perdido.
Dentro do escritório, Alice voltou a digitar.
Sem saber que, pela primeira vez…
Bruno Valente estava mais interessado nela do que nos sete milhões.