Sem Blefe

1072 Words
O primeiro raio de sol da manhã atravessava as cortinas pesadas do quarto quando Valente abriu os olhos. Ele não lembrava a última vez que tinha dormido tão pouco. Talvez tivesse sido anos atrás, quando ainda precisava provar que merecia o respeito que tinha hoje. Mas naquela manhã não era trabalho, polícia ou guerra de território que tirava o sono dele. Era ela. A patricinha. A mulher que tinha aparecido do nada no morro, invadido sua casa, sentado na frente dele como se estivesse em uma sala de reunião de empresa… e afirmado que poderia salvar milhões. Valente passou a mão no rosto, respirando fundo. — Maldit4 garota… Ele se levantou da cama e caminhou até a janela. Lá fora, o morro já estava acordando. Motores de motos, gente abrindo comércio, música baixa saindo de alguma casa. Tudo parecia normal. Mas dentro da cabeça dele, não estava. Porque pela primeira vez em muito tempo, alguém tinha chamado a atenção dele de verdade. E o pior… Ele não sabia se aquela garota era extremamente inteligente… Ou completamente maluca. Valente vestiu uma camiseta preta, calça jeans, tênis, um boné azul virado pra trás e saiu do quarto. Quando entrou na cozinha, encontrou exatamente o que não esperava. Ela. Sentada à mesa. Com um notebook aberto. Papéis espalhados. Café na xícara. Como se estivesse em um escritório. A loira levantou os olhos para ele. — Bom dia. Valente cruzou os braços. — Você dormiu? Ela deu um gole no café. — Duas horas. — E já está trabalhando? — Já terminei. Ele franziu o cenho. — Terminou o quê? Ela virou o notebook na direção dele. — O plano. Valente ficou alguns segundos olhando. Gráficos. Anotações. Estruturas. Organização. Nada ali parecia improvisado. Nada parecia blefe. Ele puxou uma cadeira e se sentou devagar. — Você passou a noite inteira nisso? — Sim. — Por quê? Ela o encarou com uma calma que irritava. — Porque eu não gosto de perder e gosto de resolver as coisas o mais rápido possível. Sobrou o prazo que você me deu. Valente soltou uma risada baixa. — Você está em um morro controlado por criminosos, cercada por homens armados… e sua preocupação é perder? — Sim. Ela fechou o notebook. — Porque se eu perder, você perde. Silêncio. Valente passou a mão no queixo. — Você realmente acredita nisso tudo. — Eu não acredito. Ela se levantou. — Eu tenho certeza. Ele ficou olhando ela andar pela cozinha. A forma como ela se movia. Segura. Sem medo. Sem pedir permissão. Uma mulher completamente fora daquele mundo… Mas que parecia agir como se fosse dona dele. Valente se levantou. Pegou o celular. Mandou algumas mensagens. Minutos depois, guardou o aparelho no bolso. — Se arruma. Ela arqueou a sobrancelha. — Por quê? — Porque você vai apresentar isso. — Para quem? Ele abriu a porta. — Para quem realmente manda no dinheiro que você quer salvar. Ela pegou o notebook sem hesitar. — Ótimo. Valente soltou uma risada curta. — Você não faz ideia de onde está se metendo. Ela passou por ele. — Faço sim. E saiu primeiro. Valente observou ela caminhar pelo corredor da casa. Determinada. Segura. Sem olhar para trás. Ele balançou a cabeça. — Essa garota vai me dar problema… Mas mesmo assim… Ele foi atrás dela. A reunião acontecia em um lugar afastado do morro. Uma casa grande. Muros altos. Segurança em todos os cantos. Quando o carro de Valente parou no portão, dois homens armados se aproximaram. Um deles olhou para dentro do carro. E congelou. — Que porr4 é essa? Valente não respondeu. O portão abriu. Eles entraram. A loira observava tudo pela janela. — Bastante segurança. — Pouca, na verdade. Ela olhou para ele. — Isso me tranquiliza… ou deveria me preocupar? Valente sorriu de lado. — Depende. O carro parou. Eles desceram. Dentro da casa, vários homens já estavam reunidos. Todos olharam na mesma hora. E o silêncio caiu no ambiente. Porque junto com Valente… Tinha uma mulher. Uma loira. Com roupa elegante. Notebook na mão. Um dos homens se levantou imediatamente. — Valente… que porr4 é essa? Outro riu. — Tu trouxe uma patricinha pra reunião agora? — Tá montando salão de beleza? Alguns começaram a rir. Outros não. Um homem mais velho se aproximou devagar. Olhar frio. — Quem é ela? Valente respondeu com calma. — Alguém que pode salvar muito dinheiro. O homem encarou a loira de cima a baixo. — Ela? Outro traficante bateu na mesa. — Tá maluco, Valente? — Isso aqui não é empresa. — Nem reunião de faculdade. Outro apontou para ela. — Essa mulher pode ser polícia. Gambé! — Informante. — Ou pior… isca. O clima ficou pesado. Um dos homens chegou perto demais dela. — Você sabe onde está, patricinha? Ela respondeu tranquila. — Sei. Ele riu. — Então sabe que gente desaparece aqui. Outro completou: — E ninguém nunca acha o corpo. Alguns riram. Mas Valente não. Ele se levantou devagar. O som da cadeira arrastando fez o silêncio voltar. Ele caminhou até ficar ao lado dela. O olhar dele percorreu a sala inteira. Frio. Perigoso. — Escutem bem. Ninguém falou nada. Ele apoiou a mão na mesa. — Essa garota veio até mim com algo que nenhum de vocês trouxe. Silêncio. — Solução. Um dos homens cuspiu no chão. — Solução de patricinha? Outro falou: — Tá defendendo ela por quê? — Bonitinha? — Ou já tá dormindo com ela? Alguns riram. Mas a risada morreu rápido. Porque Valente puxou a arma da cintura. E apontou para a mesa. BANG. O tiro fez todo mundo se calar. Ele falou devagar. — Encosta um dedo nela… Faz piadinha idiot4... Silêncio absoluto. — E eu acabo com qualquer um aqui. O olhar dele percorreu a sala inteira. — Porque a partir de agora… Ele colocou a mão nas costas da loira. — Essa Barbie Patricinha… A voz dele ficou mais baixa. Mais perigosa. — Está sob minha proteção. Ninguém falou nada. Ninguém riu. O homem mais velho cruzou os braços. — Então deixa ela falar. Todos olharam para ela. A loira respirou fundo. Abriu o notebook. E olhou para todos aqueles homens perigosos na sala. — Bom… Ela disse com calma. — Já que ninguém aqui gosta de perder dinheiro… Ela virou a tela. — Vamos conversar. E pela primeira vez… O silêncio na sala não era de ameaça. Era de curiosidade.
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