A Barbie

1363 Words
O silêncio na sala era pesado. Pesado como antes de uma briga. Pesado como antes de alguém morrer. Mas agora o motivo era outro. Todos os olhos estavam nela. A loira apoiou o notebook na mesa grande de madeira. A tela iluminava levemente o rosto dela, refletindo nos olhos atentos. Homens armados. Chefes de territórios. Pessoas que estavam acostumadas a dar ordens, não a ouvir. E muito menos a ouvir uma mulher que claramente não pertencia àquele mundo. Um deles cruzou os braços e encostou na cadeira. — Anda logo, patricinha. Outro falou, com desdém: — Tô curioso pra ouvir a aula. Alguns riram baixo. Mas não havia mais o mesmo deboche de antes. Havia curiosidade. Valente estava encostado na mesa ao lado dela, braços cruzados, observando cada reação. Ele queria ver se ela ia tremer. Queria ver se a confiança dela era real ou só fachada. A loira respirou fundo. Não havia medo no rosto dela. Apenas concentração. Ela abriu um arquivo na tela e virou o notebook para que alguns pudessem ver. — Primeiro… vamos falar do problema. Um homem riu. — A gente já sabe qual é o problema. — Perdemos dinheiro. — Muito dinheiro. Ela balançou a cabeça levemente. — Sim. Depois olhou para todos. — Mas vocês estão olhando para a consequência… não para a causa. Silêncio. Ela tocou no teclado. Algumas tabelas apareceram. — Vocês perderam dinheiro por três motivos principais. Um dos traficantes bufou. — Agora virou professora. Ela nem olhou para ele. Continuou falando. — O primeiro motivo é desorganização. Alguns começaram a reclamar. — Desorganização? — A gente tá nisso há anos! — Tá chamando a gente de burro? Ela levantou a mão, pedindo silêncio. E continuou calmamente. — Eu não disse burros. — Eu disse desorganizados. Valente soltou uma risada baixa. Porque ele percebeu algo que os outros ainda não tinham percebido. Ela não tinha medo nenhum. A loira apontou para a tela. — Vocês trabalham muito. — Arriscam muito. — Movem muito dinheiro. Ela pausou. — Mas ninguém aqui controla realmente o fluxo de tudo. O homem mais velho da mesa estreitou os olhos. — Explica. Ela clicou novamente. — Quando não existe controle preciso… o dinheiro começa a desaparecer. Outro homem falou: — Tá dizendo que estão roubando a gente? A gente já sabe. Ela deu de ombros. — Talvez. A sala ficou em silêncio. Ela continuou: — Ou talvez esteja simplesmente sendo desperdiçado. Valente observava cada rosto. Alguns estavam incomodados. Outros atentos. A loira virou o notebook para si novamente. — Segundo problema. Ela falou: — Vocês tomam decisões baseadas em reação… não em planejamento. Um dos homens riu. — Isso aqui não é empresa. Ela olhou para ele. — Não. — Mas envolve dinheiro. E dinheiro segue regras, independente do local. Silêncio. Ela respirou fundo e continuou: — Quando algo dá errado… vocês reagem. — Quando surge oportunidade… vocês improvisam. Ela apoiou as mãos na mesa. — Improvisar pode funcionar algumas vezes. — Mas não sustenta milhões. O homem mais velho perguntou: — E o terceiro motivo? Ela olhou direto para ele. — Falta de visão de longo prazo. Um dos traficantes bateu na mesa. — Tá dizendo que a gente não sabe o que tá fazendo? Ela respondeu com tranquilidade: — Estou dizendo que vocês poderiam ganhar muito mais. Isso calou a sala. Porque orgulho ferido incomoda. Mas dinheiro… Dinheiro chama atenção. Valente olhava para ela com interesse crescente. A loira tocou no teclado novamente. — Então eu fiz algo simples. Um homem riu. — Simples? Ela virou a tela novamente. — Organizei tudo. Gráficos. Linhas. Planejamento. Não eram detalhes operacionais. Mas era claro que havia uma lógica ali. Uma estrutura. Ela começou a explicar. Não como alguém tentando provar algo. Mas como alguém acostumado a liderar reuniões importantes. — Primeiro… organização financeira real. Ela explicou como um controle mais rígido evitaria perdas invisíveis. Como decisões poderiam ser tomadas com base em números. Não em suposições. Alguns homens começaram a trocar olhares. Ela continuou. — Segundo… estratégia de crescimento controlado. Ela falava com clareza. Confiança. Sem gaguejar. Sem hesitar. E lentamente… Os homens começaram a prestar atenção de verdade. Um deles se inclinou para frente. Outro parou de mexer no celular. O homem mais velho da mesa cruzou as mãos. — Interessante… A loira continuou falando. Mostrando projeções. Explicando como erros repetidos poderiam ser evitados. Como oportunidades estavam sendo ignoradas. Como decisões melhores poderiam multiplicar resultados. Ela não falava como uma criminosa. Falava como uma estrategista. Uma especialista. Alguém que entendia dinheiro profundamente. Depois de quase vinte minutos… Ela fechou o notebook. Silêncio absoluto. Ninguém riu. Ninguém fez piada. Os homens estavam se olhando. Um deles coçou a barba. — Ela… tem ponto. Outro falou: — Algumas coisas fazem sentido. Um terceiro ainda tentou manter a marra. — Pode ser conversa bonita. — Mas teoria é fácil. O homem mais velho falou devagar: — Não é teoria. Ele olhou para a loira. — É planejamento. Valente observava tudo em silêncio. O traficante que tinha sido mais agressivo antes falou: — Tá. — Vamos supor que você esteja certa. Ele se inclinou na mesa. — E se a gente testar isso? Ela respondeu sem hesitar. — Então vocês vão recuperar o que perderam. — E ganhar mais. Ele riu. — E se der errado? O silêncio voltou. O homem apoiou os braços na mesa e falou friamente: — Porque se der errado… Ele olhou nos olhos dela. — Você morre. Alguns homens assentiram. Outro completou: — E rápido. — Aqui não tem segunda chance. O clima ficou pesado novamente. Mas a loira não recuou. Ela apenas inclinou a cabeça levemente. Como se estivesse considerando a proposta. Antes que ela respondesse… Valente falou. A voz dele cortou a sala. — Então eu entro como garantia. Todos olharam para ele. Um dos traficantes riu. — Garantia? Valente se aproximou da mesa. — Se der errado… Ele olhou para todos. — Vocês cobram de mim. Silêncio. O homem mais velho estreitou os olhos. — Você confia tanto assim nela? Valente olhou para a loira por um segundo. Depois respondeu: — Confio. Ela também olhou para ele. Surpresa. Mas não disse nada. Outro traficante falou: — Você colocaria seu nome nisso? — Seu território? Valente respondeu com calma. — Sim. A sala ficou em silêncio. Porque aquilo era grande. Muito grande. Valente não era homem de apostar seu nome em qualquer coisa. O homem mais velho respirou fundo. — Então tá. Ele olhou para os outros. — Vamos testar. Alguns assentiram. Outros ainda pareciam desconfiados. Mas ninguém discordou. Ele apontou para a loira. — Mas escuta bem, garota. A voz dele era fria. — Se isso der errado… — Se a gente perder mais dinheiro… Ele fez uma pausa. — Você não sai viva daqui. Silêncio. A loira respondeu simplesmente: — Justo. Alguns homens trocaram olhares. Ela fechou o notebook. — Então temos um acordo. Valente observava ela com um pequeno sorriso no canto da boca. Porque agora ele tinha certeza de algo. Ela não estava blefando. E mais do que isso… Ela era perigosa. Não com armas. Não com violência. Mas com algo que muitos ali não tinham. Cérebro. Quando a reunião começou a terminar, alguns homens ainda olhavam para ela com desconfiança. Outros com respeito. Mas todos sabiam de uma coisa. Aquela mulher… Aquela "Barbie patricinha"… Tinha entrado em um lugar onde não deveria estar. E mesmo assim… Tinha conseguido fazer homens perigosos ouvirem. Quando saíram da casa, o sol já estava alto. Valente caminhava ao lado dela. Ele quebrou o silêncio. — Você tem coragem. Ela respondeu: — Eu tenho certeza do que estou fazendo. Ele parou. Olhou para ela. — Espero que sim. — Porque agora… Ele deu um pequeno sorriso. — Sua vida depende disso. Ela sustentou o olhar dele. — E a sua também. Por um segundo… Valente ficou em silêncio. Depois começou a rir. Uma risada baixa. Divertida. — Você é louca. Ela respondeu calmamente: — Talvez. Então entrou no carro. Valente ficou olhando ela por um momento. Antes de entrar também. Porque no fundo… Ele tinha a sensação de que aquela história estava só começando.
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