A casa estava silenciosa.
Pela primeira vez em muito tempo, Bruno Valente estava… esperando alguém.
Sentado no sofá da sala.
As mãos apoiadas nos joelhos.
As pernas ligeiramente afastadas.
A postura de sempre ainda estava ali — firme, dominante, segura.
Mas por dentro…
Ele estava estranhamente inquieto.
O relógio no pulso marcava pouco depois das dez da manhã.
O cheiro do perfume ainda estava forte.
Elegante.
Mas não exagerado.
Dioguinho tinha escolhido bem.
Valente passou a mão pelos cabelos mais uma vez.
O penteado ainda estava intacto.
Arrumado.
Organizado.
Completamente diferente do estilo bagunçado que ele costumava usar.
Ele olhou para o próprio reflexo no vidro da janela.
A camisa polo azul ajustava perfeitamente nos ombros largos.
A calça preta alinhava a postura dele.
O sapatênis dava um ar mais sério.
Mais… civilizado.
Mas ainda assim…
Era impossível esconder completamente quem ele era.
O braço tatuado aparecia quando ele movia os braços.
As mãos grandes.
Aquele olhar.
Olhos claros.
Duros.
Treinados para perceber perigo antes de qualquer outra pessoa.
Ele respirou fundo.
— Que porr4 eu tô fazendo… — murmurou sozinho.
Nunca na vida ele tinha se preocupado em parecer outra pessoa.
As pessoas sempre souberam exatamente quem ele era.
E isso sempre funcionou muito bem.
O medo mantinha a ordem.
O respeito mantinha o controle.
Mas agora…
Ele estava ali.
Vestido como um cara normal.
Esperando uma menina descer as escadas.
Ele passou a mão no rosto.
Pensativo.
Foi nesse momento que ouviu passos no andar de cima.
Leves.
Delicados.
Passos femininos.
Ele levantou o olhar.
Instintivamente.
O coração dele não acelerava com quase nada.
Mas naquele momento…
A atenção dele ficou completamente focada na escada.
Os passos se aproximaram.
Um.
Depois outro.
E então…
Alice apareceu.
Primeiro surgiram os pés dela no topo da escada.
Sandálias delicadas.
Elegantes.
Depois as pernas.
Ela usava uma calça clara, que valorizava o corpo dela de forma sutil.
Nada vulgar.
Nada exagerado.
Mas bonito.
Muito bonito.
O olhar dele subiu devagar.
A blusa que ele tinha comprado para ela era simples.
Clara.
Leve.
Mas no corpo dela…
Parecia ter sido feita sob medida.
Os cabelos loiros estavam soltos.
Levemente ondulados.
Caindo sobre os ombros.
E o rosto…
A maquiagem era leve.
Natural.
Mas o suficiente para destacar ainda mais os olhos azuis.
A pele clara.
Os lábios rosados.
Ela estava… linda.
Linda de um jeito que não chamava atenção por exagero.
Mas pela delicadeza.
Pela harmonia.
Pela presença.
E o cheiro…
Antes mesmo de ela chegar no último degrau…
O perfume dela já tinha chegado até ele.
Suave.
Doce.
Mas elegante.
Um daqueles perfumes que ficam no ar.
Valente simplesmente… esqueceu de respirar por um segundo.
Ele ficou parado.
O olhar fixo nela.
Como se estivesse vendo algo raro.
Algo que não fazia parte daquele lugar.
Uma loira.
Olhos azuis.
Pele clara.
Elegante.
Descendo as escadas da casa do chefe do morro.
Parecia quase surreal.
Alice terminou de descer.
E só então percebeu o olhar dele.
Ela parou.
Ficou olhando para ele também.
Por alguns segundos…
Nenhum dos dois falou nada.
Valente ainda estava meio… hipnotizado.
Até que ela inclinou levemente a cabeça.
Observando ele.
E então disse:
— Nossa…
Valente piscou.
Voltando para a realidade.
— O quê?
Ela continuou olhando.
Analisando.
— Você tá…
Ela fez uma pausa.
Como se estivesse escolhendo a palavra.
— Diferente.
Valente ergueu uma sobrancelha.
— Diferente como?
Alice deu um pequeno sorriso.
— Diferente.
Ela deu mais um passo na direção dele.
— Gostei do perfume.
Ela aproximou um pouco mais.
— Dá pra sentir de longe.
Por algum motivo…
Essa frase deixou Valente completamente sem reação.
Ele não era um homem que ficava sem resposta.
Mas naquele momento…
O cérebro dele pareceu simplesmente desligar.
Ele coçou a nuca.
Desconfortável.
E falou a primeira coisa que apareceu na cabeça.
— Eu… tomei banho.
Alice piscou.
Confusa.
— Hã?
Valente percebeu o que tinha acabado de falar.
E imediatamente percebeu que aquilo não fazia o menor sentido.
Ele tentou corrigir.
— Quer dizer…
Ele gesticulou sem saber direito o que dizer.
— O perfume… é porque… eu… usei.
Silêncio.
Alice ficou olhando para ele.
Por um segundo.
Dois.
Três.
E então…
Ela começou a rir.
Não uma risada debochada.
Mas uma risada genuína.
Divertida.
— Eu imaginei que você tivesse usado — ela disse entre risadas.
Valente sentiu o rosto esquentar.
Algo extremamente raro.
Ele simplesmente desviou o olhar.
— Vamos? — disse ele, tentando mudar de assunto.
Alice assentiu.
— Vamos.
Eles caminharam juntos até a porta da frente da casa.
Valente abriu a porta.
O sol iluminava o morro inteiro.
A comunidade estava viva.
Motos passando.
Crianças correndo.
Pessoas conversando nas portas das casas.
Mas quando Alice colocou o pé para fora…
Ela parou imediatamente.
Os olhos dela se arregalaram.
— Uau…
Na frente da casa estava o SUV preto.
Grande.
Brilhando sob o sol.
Imponente.
Parecia um carro de gente muito rica.
Ou de gente muito poderosa.
Alice virou para Valente.
— Esse carro é seu?
Valente deu de ombros.
— Hoje é.
Ela começou a andar em volta do carro.
Observando.
Encantada.
— Meu Deus…
— Esse carro é lindo.
Ela passou a mão pelo capô.
— Onde você arrumou isso?
Valente encostou casualmente na porta do motorista.
— Aqui é o meu morro.
Ela olhou para ele.
Curiosa.
Ele deu um meio sorriso.
— Eu consigo qualquer coisa que eu pedir.
Alice sustentou o olhar dele por alguns segundos.
Depois sorriu.
Um sorriso pequeno.
Mas bonito.
Valente abriu a porta do passageiro.
Com naturalidade.
Como um verdadeiro cavalheiro.
— Primeiro as damas.
Alice ficou parada por um segundo.
Olhando para ele.
Direto nos olhos.
Aqueles olhos claros.
Firmes.
Mas que agora pareciam… diferentes.
Ela não disse nada.
Apenas entrou no carro.
Valente fechou a porta com cuidado.
Depois deu a volta.
Entrou no lado do motorista.
O interior do carro era silencioso.
Luxuoso.
Cheiro de couro novo.
Ele ligou o motor.
O ronco baixo do motor potente preencheu o ambiente.
Alice olhava tudo ao redor.
Impressionada.
— Esse carro é incrível.
Valente apenas assentiu.
Colocou o cinto.
Ela fez o mesmo.
Então ele colocou o carro em movimento.
O SUV começou a descer lentamente a ladeira do morro.
Vidros escuros.
Fechados.
Por fora…
As pessoas da comunidade olhavam.
Curiosas.
Um carro daquele nível chamava atenção.
Alguns homens pararam de conversar.
Outros acompanharam com o olhar.
Mas ninguém sabia.
Ninguém fazia ideia…
De quem estava ali dentro.
Atrás daqueles vidros escuros.
O homem dirigindo.
Com a postura tranquila.
Com uma camisa polo azul.
Com aparência de empresário.
Era o mesmo homem que comandava tudo aquilo.
Bruno Valente.
O dono do morro.
O chefe do tráfico.
O homem que fazia polícia, político e criminoso respeitarem.
Mas naquele momento…
Ele estava preocupado com uma coisa completamente diferente.
Parecer outra pessoa.
E no banco do passageiro…
Estava Alice.
A loira de olhos azuis.
O único motivo pelo qual ele estava fazendo isso.
O carro continuou descendo.
Lentamente.
Enquanto a vida da comunidade seguia lá fora.
E dentro do carro…
Um silêncio confortável se instalava.
Alice olhou pela janela.
Depois olhou para ele.
— Então…
Ela sorriu levemente.
— Tá preparado pra sair do morro?
Valente segurou o volante.
O olhar fixo na estrada.
Mas um pequeno sorriso apareceu no canto da boca.
— Não, mas você tem que ver seu pai e resolver esse problema.