Vidros de Luxo

1331 Words
O SUV preto deixou o morro para trás. A descida foi lenta. As ruas estreitas deram lugar a avenidas mais largas. Casas simples foram sendo substituídas por prédios. Comércio. Postos de gasolina. Farmácias. Supermercados. Alice observava tudo pela janela. O vidro escuro deixava o lado de fora mais discreto, quase cinematográfico. Como se ela estivesse assistindo a cidade passar em um filme. Valente dirigia com calma. Mãos firmes no volante. Postura tranquila. Mas por dentro… Ele estava completamente atento. Não à cidade. Não ao trânsito. A ela. De vez em quando ele olhava de canto. Discretamente. Alice estava diferente. As roupas que ele comprou realmente ficaram perfeitas nela. A calça. A blusa leve. O cabelo loiro solto. O perfume ainda preenchia o interior do carro. E o cheiro era tão bom que ele se pegava respirando mais fundo sem perceber. Ela notou. — Você dirige bem. Ele olhou rapidamente para ela. — Dirijo faz tempo. — Faz o quê? Dez anos? — Bem mais, na favela a gente aprende a se virar desde moleque. Alice levantou uma sobrancelha. — Quantos anos você tem mesmo? — Trinta. Ela virou o rosto para ele. — Achei que fosse mais velho. Valente deu um pequeno sorriso. — Obrigado. — Não foi um elogio. — Eu sei. Você só faz pra provocar. Ela voltou a olhar para frente. Alguns segundos de silêncio passaram. Até que Alice falou novamente. A voz agora estava mais séria. — Você sabe que meu pai vai estar furioso. Valente assentiu. — Imagino. — Ele provavelmente acha que eu fui sequestrada. — Você basicamente foi. Mas você quem procurou isso. Valente olhou para ela. — Eu te salvei. Poderia estar em mãos piores e muito mais perigosas. Alice cruzou os braços. — Salvou de um lugar para me levar para outro. — Não. Ele voltou os olhos para a estrada. — Eu te tirei de um lugar onde você podia morrer. Patricinha igual você andando por favela parece muito com informante de polícia. Se algum bandido pesado te visse por aí sozinha, sabe Deus o que poderia fazer com você. Silêncio. Ela não respondeu. Porque no fundo… Ela sabia que ele tinha razão. A cidade ficou mais elegante conforme avançavam. Prédios modernos. Restaurantes sofisticados. Lojas de marca. Carros caros. Alice suspirou. — Estamos perto. Pode virar aqui. Valente apenas assentiu. Ela pegou o celular. Digitou algo. Provavelmente uma mensagem. — Avisei a Camila que estou chegando. — Certo. Ela olhou pela janela novamente. — Meu pai vai estar lá, com certeza. — Eu imagino. — Ele não costuma sair da empresa durante o dia. Valente diminuiu a velocidade. — Qual delas? Ela apontou para frente. — Aquela. Valente ergueu o olhar. E viu. Um prédio enorme de vidro. Moderno. Imponente. Arquitetura sofisticada. O tipo de prédio que gritava dinheiro. Muito dinheiro. Na frente havia um estacionamento reservado. Seguranças. Portaria elegante. Valente assobiou baixo. — Nada m*l. Alice respondeu com naturalidade. — É só uma das empresas. Ele olhou para ela. — Só uma? — Meu pai tem várias. Valente estacionou o SUV na frente da entrada principal. O carro parecia pertencer perfeitamente àquele ambiente. Mesmo sendo do morro. O motor foi desligado. Silêncio. Alice respirou fundo. — Bom… Ela soltou o cinto. — É agora. Valente assentiu. — Vai lá. Alice abriu a porta. Saiu do carro. Ela olhou para o prédio. Respirou fundo novamente. Mas quando começou a andar… Ouviu outra porta abrir. Ela virou a cabeça. Valente estava saindo do carro. Alice franziu a testa. — O que você está fazendo? Ele fechou a porta com calma. — Indo com você. — Não. Ela balançou a cabeça. — Você disse que ia ficar no carro. Valente caminhou até ela. Tranquilo. — Pensei melhor. — Melhor eu entrar. Vai que você resolve ficar. Alice cruzou os braços. — Não. — Você não pode entrar lá. Ele levantou uma sobrancelha. — Por quê? — Porque… Ela hesitou. — Porque você… não combina com esse lugar. Valente soltou uma pequena risada. — Engraçado. — Eu estava pensando a mesma coisa sobre você no meu. Ela bufou. — Isso é diferente. — Por quê? — Porque… é. Ele deu um passo mais perto. — Escuta. A voz dele ficou mais baixa. Mais firme. — Seu pai tá ameaçando chamar a polícia. Ela não respondeu. — Se eu deixar você entrar sozinha e der problema… — A polícia vai acabar indo até o morro. Alice apertou os lábios. Ele continuou. — E eu não quero polícia perto do meu morro. Silêncio. Ela sabia que ele tinha razão. Mas mesmo assim… — Você não precisa entrar comigo. — Eu fico. — Fico na recepção. — Só observando. Alice suspirou. Derrotada. — Tá bom. Mas então ela apontou para ele. — Mas a gente não entra junto. — Como assim? — Como duas pessoas que chegaram juntas. Ele inclinou a cabeça. — Você tem vergonha de mim? — Não. — Então? — Porque se meu pai achar que você tem alguma coisa a ver com isso… Ele vai querer investigar e vai descobrir o que você é. Ela deixou a frase no ar. Valente entendeu. — Beleza. Ela começou a andar. Ele ficou alguns passos atrás. Como se não se conhecessem. Entraram no prédio. O ar condicionado frio contrastou com o calor da rua. O lobby era enorme. Chão de mármore branco. Paredes de vidro. Esculturas modernas. Recepção elegante. Funcionários bem vestidos. Valente olhou ao redor. Discretamente. Observando tudo. As pessoas ali tinham postura diferente. Andavam rápido. Falavam baixo. Vestiam roupas caras. Ele era um intruso naquele ambiente. Mas ninguém parecia perceber. Alice foi direto até a recepção. A recepcionista sorriu. — Senhorita Alice. — Seu pai está na sala dele. Alice assentiu. — Eu sei. — Ele está no escritório, pode ir. — Décimo segundo andar. — Obrigada. Alice se virou. Por um segundo… Ela olhou para Valente. Ele estava encostado casualmente perto de uma coluna. Como se estivesse esperando alguém. Mas os olhos dele estavam nela. Ela desviou o olhar rapidamente. E caminhou até o elevador. As portas se fecharam. Valente ficou na recepção. Parado. Observando. Alguns minutos depois… Um segurança passou perto dele. — Posso ajudar? Valente respondeu com calma. — Estou esperando uma pessoa. O segurança assentiu. E foi embora. Valente continuou ali. Paciente. Observando tudo. Até que algo chamou a atenção dele. Uma parede de vidro. Do outro lado… Era possível ver parte do andar superior. Alguns escritórios. E um deles era completamente cercado por vidro. Grande. Luxuoso. Mesa enorme. Poltronas. Vista para a cidade. Valente se aproximou um pouco. E então reconheceu Alice. Ela tinha acabado de entrar naquele escritório. O pai dela estava lá. Mesmo à distância… Era possível ver a postura dele. Um homem alto. Cabelos grisalhos. Terno impecável. E completamente… Furioso. Ele levantou da cadeira de forma brusca. As mãos bateram na mesa. Alice parou na frente dele. E mesmo sem ouvir… Valente sabia exatamente o que estava acontecendo. A discussão tinha começado. O pai dela falava alto. Gesticulava. O corpo inteiro demonstrava raiva. Alice respondia. Mais calma. Mas firme. Valente cruzou os braços. Os olhos fixos naquela sala de vidro. Observando. Analisando. Como um predador analisando uma situação. Ele não conseguia ouvir nada. Mas conseguia ler as expressões. O pai dela estava gritando. Alice estava tentando explicar. Mas o homem não parecia interessado em ouvir. E então… Ele fez algo que fez o sangue de Valente gelar. O pai dela apontou o dedo diretamente para o rosto dela. A agressividade do gesto era evidente. Valente apertou a mandíbula. Os músculos do maxilar ficaram tensos. Os olhos dele escureceram. Ele continuou olhando. Sem piscar. Porque agora… Aquilo não parecia mais apenas uma conversa entre pai e filha. Parecia uma guerra prestes a explodir. E Valente já sabia… Que se aquele homem ultrapassasse um certo limite… Ele não ficaria parado. Mesmo ali. No meio de um prédio cheio de empresários. Mesmo num lugar onde ele claramente não pertencia.
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