Mentirinha

1446 Words
Valente não gostava do que estava vendo. Do lugar onde estava, na recepção elegante daquele prédio de vidro e mármore, ele conseguia enxergar perfeitamente o escritório no andar superior. O vidro permitia isso. Era moderno. Bonito. Transparente. Mas também significava que qualquer pessoa que prestasse atenção podia observar o que acontecia lá dentro. E o que estava acontecendo… Não estava nada bom. O pai de Alice estava completamente fora de si. Mesmo à distância, era possível perceber. Os movimentos bruscos. As mãos agitadas. O corpo inclinado para frente. O dedo apontado diretamente para o rosto dela. Alice estava parada na frente da mesa enorme. Tentando falar. Tentando explicar. Mas o homem simplesmente não parecia interessado em ouvir. Valente cruzou os braços. O olhar ficou mais frio. Mais calculista. Ele observava cada gesto. Cada movimento. Cada mudança de postura. Aquilo já não parecia mais uma simples discussão. Parecia um homem acostumado a mandar… Tentando esmagar qualquer resistência. E então aconteceu. O pai dela avançou. Num movimento rápido. A mão dele fechou no braço de Alice. Segurando com força. Valente sentiu o maxilar travar. Os músculos do pescoço ficaram tensos. Ele não ouviu o que foi dito. Mas viu claramente Alice tentar se soltar. Foi o suficiente. Sem pensar duas vezes… Ele se afastou da parede. Caminhou até a recepção. A recepcionista levantou os olhos do computador. Ela era jovem. Elegante. Cabelo preso. Maquiagem discreta. Quando viu Valente se aproximando… Ela automaticamente fez um rápido julgamento. Olhou de cima a baixo. Sapato. Calça. Camisa. Relógio. Perfume. Tudo nele parecia… caro. Mas ainda havia algo. Algo na postura dele. Algo no olhar. Algo que ela não conseguiu identificar. Mas que fez ela ficar levemente desconfiada. — Posso ajudar? — ela perguntou. Valente parou na frente da mesa. A voz dele saiu tranquila. — A Alice. — Qual sala ela está? A recepcionista franziu levemente a testa. — Desculpe… Ela digitou algo no computador. — A senhorita Alice está em reunião. Ela levantou os olhos. — Não podemos liberar o acesso de ninguém sem autorização. Valente apoiou um cotovelo no balcão. Como se estivesse apenas conversando. Mas os olhos dele estavam completamente focados nela. — Eu só preciso saber o andar. — Não posso informar isso. A resposta veio rápida. Automática. Treinada. Ela já devia ter dito aquilo dezenas de vezes. Talvez centenas. Mas Valente não discutiu. Ele apenas levou a mão ao bolso da calça. E tirou uma nota. Cem reais. Dobrou discretamente. E deslizou sobre o balcão. Sem alarde. Sem chamar atenção. A recepcionista viu. Os olhos dela piscaram. Instintivamente. Ela olhou ao redor. Um homem falava no telefone perto do elevador. Uma mulher caminhava pelo lobby olhando documentos. Ninguém estava prestando atenção. A recepcionista pegou a nota com naturalidade. Como se estivesse apenas arrumando um papel. Guardou rapidamente. Depois se inclinou levemente para frente. A voz ficou baixa. — Décimo segundo andar. Ela voltou a olhar para o computador. Como se nada tivesse acontecido. E murmurou: — Sala do diretor. Uma pequena pausa. — E… qualquer coisa… Ela levantou os olhos rapidamente. — Eu não estava aqui. Valente soltou uma pequena risada. Baixa. Divertida. — Justo. Ele se afastou do balcão. Caminhou até os elevadores. A cada passo… A expressão dele ficava mais séria. Mais focada. Mais perigosa. O elevador chegou. As portas se abriram. Ele entrou. Apertou o botão. As portas se fecharam. O elevador começou a subir. Silencioso. Elegante. O reflexo dele aparecia nas paredes de aço escovado. Valente olhou para si mesmo. A camisa azul. O cabelo arrumado. O perfume caro. Se alguém olhasse para ele naquele momento… Jamais imaginaria. Jamais. Que aquele homem comandava um dos morros mais perigosos da cidade. O elevador parou. As portas se abriram. Décimo segundo andar. O corredor era silencioso. Carpete grosso. Paredes claras. Quadros modernos. Secretárias trabalhando em silêncio. Valente caminhou calmamente. Mas os olhos dele estavam atentos. Procurando. Até que encontrou. No final do corredor. O escritório de vidro. Grande. Luxuoso. Ele diminuiu o passo. Parou a alguns metros. E observou. Alice ainda estava lá. E agora… A situação estava pior. Muito pior. O pai dela estava ainda mais irritado. O rosto vermelho. As mãos agitadas. E novamente… A mão dele estava no braço dela. Segurando. Com força. Alice tentou puxar o braço. Mas o homem segurou com mais força ainda. Valente sentiu o sangue ferver. Aquilo foi o limite. Ele caminhou direto até a porta. Sem bater. Sem pedir permissão. E abriu. A porta de vidro se abriu com um som seco. Os dois se viraram imediatamente. O pai de Alice soltou o braço dela no mesmo instante. Como se aquilo nunca tivesse acontecido. Como se fosse apenas coincidência. Como se não estivesse apertando com força segundos antes. A transformação foi impressionante. O rosto dele mudou completamente. A raiva desapareceu. A postura ficou elegante novamente. Educada. Controlada. Ele ajeitou discretamente o paletó. E olhou para Valente. Os olhos analisaram rapidamente. Sapato. Calça. Camisa. Relógio. Perfume. A primeira impressão foi… confusão. — Pois não? A voz era calma. Educada. Controlada. Mas havia um tom de irritação escondido. — Quem é você? Alice olhava entre os dois. Completamente perdida. Valente deu alguns passos para dentro da sala. Sem pressa. Sem nervosismo. Ele olhou rapidamente para Alice. Confirmando que ela estava bem. Depois voltou o olhar para o pai dela. — Eu estava lá embaixo. Ele falou com naturalidade. — Na recepção. O homem franziu levemente a testa. — E? Valente cruzou os braços. — E vi de longe o que estava acontecendo aqui. Silêncio. A tensão no ar ficou pesada. O pai de Alice inclinou levemente a cabeça. Os olhos ficaram mais estreitos. — Ah. Ele deu alguns passos pela sala. — Então você resolveu subir até aqui… Ele deu um sorriso pequeno. Mas completamente sarcástico. — Para se meter numa conversa de família? Valente não respondeu imediatamente. Ele apenas sustentou o olhar. Sem recuar. Sem desviar. O homem continuou. — Interessante. Ele apoiou as mãos na mesa enorme. — Quem exatamente você pensa que é… A voz ficou um pouco mais fria. — Para entrar no meu escritório dessa forma? Alice continuava olhando. Alternando entre os dois. O coração dela estava acelerado. Porque aquilo… Aquilo podia dar muito errado. Muito rápido. Mas Valente não parecia nem um pouco intimidado. Pelo contrário. Ele deu um pequeno sorriso. Tranquilo. E respondeu: — Meu nome é Bruno. O pai dela continuou olhando. Esperando. Valente continuou. A voz calma. Natural. Como se estivesse dizendo algo completamente normal. — Eu sou filho de um grande cliente seu. Silêncio. A reação foi imediata. O pai de Alice mudou. Completamente. O corpo dele relaxou. Os ombros baixaram. A postura agressiva desapareceu. Os olhos analisaram Valente novamente. Mas agora… Com outro tipo de interesse. Outro tipo de atenção. — Ah… Ele caminhou até a frente da mesa. A expressão agora era quase cordial. — Desculpe. Ele estendeu a mão. — Eu não o reconheci. Valente apertou a mão dele. A firmeza foi controlada. — Sem problema. O homem continuou. — Quem é seu pai? Valente não hesitou. — Roberto. Ele deu um pequeno sorriso. — Ele prefere não aparecer muito. — Mas tem negócios grandes com o senhor. O pai de Alice assentiu lentamente. Claramente tentando puxar a memória. Provavelmente ele tinha centenas de clientes. Talvez milhares. Mas o jeito que Valente se vestia. O jeito que falava. O jeito que se comportava… Tudo indicava dinheiro. Influência. Status. Ele deu um sorriso educado. — Claro. — Claro. — Roberto. Ele olhou rapidamente para Alice. Depois voltou para Valente. — Bom… Ele abriu levemente os braços. — Peço desculpas se presenciou um momento… desagradável. Alice ficou completamente em silêncio. Observando. Confusa. Porque… Bruno Valente. O homem que comandava um morro inteiro. O homem que enfrentava traficantes armados. Que resolvia tudo na base da autoridade. Estava ali. Mentindo com uma naturalidade absurda. E pior… O pai dela estava acreditando. Completamente. Valente colocou as mãos nos bolsos. Tranquilo. — Acontece. Ele olhou rapidamente para Alice. — Só achei que a situação estava… um pouco intensa. O pai dela soltou uma pequena risada. Sem humor. — Discussões familiares. — Nada fora do normal. Valente assentiu. — Imagino. Mas os olhos dele diziam outra coisa. E por um segundo… O pai de Alice percebeu. Mas logo afastou o pensamento. Porque naquele momento… Era muito mais interessante manter a imagem de empresário elegante… Do que continuar a briga. E Alice percebeu algo naquele instante. Algo importante. Algo que ela nunca tinha visto antes. O pai dela… Tinha medo de parecer errado. Principalmente… Na frente de pessoas que ele acreditava ter poder. E Bruno Valente… Estava usando exatamente isso. Com perfeição.
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